Queda do dólar pode elevar importações, mas escassez da oferta mundial é fator de equilíbrio

Publicado por: MilkPoint

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Nas últimas semanas, o Real tem sofrido uma crescente valorização em relação ao dólar que começa a preocupar especialistas do setor lácteo. De acordo com Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária leiteira da CNA, com o Real se valorizando, as exportações brasileiras perdem atratividade. De acordo com Vicente Nogueira, diretor do Departamento Econômico da CBCL (Confederação Brasileira das Cooperativas de Laticínios), não é interessante aumentar as importações de lácteos nem mesmo a curto prazo. "Acho que importação zero no país nós nunca vamos ter, mas o ideal é que nós tenhamos a médio e longo prazo uma balança comercial superavitária, ou seja, que as exportações venham a superar as importações", diz ele.

Para Otávio A.C. de Farias, gerente geral no Brasil da trading holandesa Hoogwegt, especializada em mercados mundiais de lácteos e que abriu no ano passado escritório no Brasil, não se trata de ser interessante ou não a importação de lácteos a curto prazo. "Na verdade, o que rege o mercado não é necessariamente o câmbio, mas sim a demanda. Se não houver leite numa determinada região, vai haver importação, não importa qual seja o valor do dólar". No caso do Brasil, apesar do câmbio influenciar as importações e exportações de lácteos, é preciso lembrar sempre que o país é um importador líquido de leite. "Por mais que o dólar vá a R$ 3,60 o Brasil continua importando leite", diz ele.

O que se observa no Brasil, neste momento e desde o início do ano, é uma queda nas exportações de produtos lácteos por falta de leite. De acordo com Otávio Farias, quem está exportando é porque quer eventualmente participar de mercados internacionais e está fazendo um esforço para isso, o que é muito positivo.

No caso das importações existe uma medida de equilíbrio que contempla a oferta de lácteos nos mercados mundiais, mas tambem a taxa de câmbio. Se o dólar começa a baixar, as possibilidades de importação vêm a ser maiores. Otávio cita como exemplo o leite em pó, que na Argentina está em torno de 1750 dólares por tonelada. "Quando o dólar estava a R$ 3,60 esse leite chegava aqui a R$ 6,30/kg - sem incluir outros custos -, sendo que o mercado aqui indicava preços entre R$ 5,80 e R$ 6,00 para o leite nacional. Então, se a indústria precisava de leite importado em razão da diferença de qualidade, ela arcava com a diferença, importando. Agora que o dólar baixou para R$ 3,00 esse leite passa a custar 5,25". Por isso é possível que haja maior entrada de leite importado, por conta da valorização do real.

É interessante que o Brasil mantenha constante intercâmbio comercial com os mercados mundiais, podendo tomar decisões positivas e imediatas de acordo com oscilações nos mercados, afirma Otavio Farias. É importante que o Brasil busque mercados mundiais mas, para isso, é preciso investir em padronização de qualidade e ser um "player" constante e não oportunista nos mercados em que busca participar. "Alguns dos grandes exportadores sao também grandes importadores de lácteos", completa.


Em tese, isso pode ter reflexos no preço do leite no mercado interno, já que haverá maior oferta. Ao mesmo tempo, quem exporta leite vai receber cerca de 20% a menos. "Considerando um valor virtual de 100 dólares por tonelada de produto lácteo, quem exportou com o dólar a R$ 3,60, recebeu R$ 360,00. Agora ele passará a receber 300, ou seja, há uma diferença de 16,6% no preço", completa Otávio.

Mercado internacional

É preciso levar em conta, porém, que os principais exportadores de leite em pó e manteiga para o Brasil são Argentina, Uruguai e eventualmente Chile. Mas a Argentina está com baixa produção. "Neste momento, a Argentina não está conseguindo suprir nem mesmo o mercado doméstico, tendo que importar leite do Uruguai para complementar sua produção", afirma Vicente Nogueira. Isso é o resultado de praticamente três anos seguidos de queda na produção, causada principalmente pela competição com a agricultura no país, a chamada agriculturización, que leva os produtores a optarem pela cultura de soja e outros grãos, mais rentáveis no mercado internacional.

Já Austrália e Nova Zelândia, que também poderiam exportar para o Brasil, não devem ter pico de produção até setembro, quando começa a estação na Oceania. Além disso, Vicente Nogueira afirma que a Austrália terá dificuldades para atender suas demandas já que sua produção caiu 10% nesta última estação e a Nova Zelândia deve crescer apenas 2%, enquanto nos últimos três anos o crescimento médio foi de 9%. Isso acontece por causa do grande desestímulo no setor produtivo neozelandês: enquanto, na estação passada, os produtores receberam US$ 0,19, agora vão receber entre US$ 0,15 e US$ 0,16.

Quem eventualmente teria leite para exportar para o Brasil é a União Européia. Mas para a UE paira o imposto efetivo de 41,8%. "Então, mesmo que nós importemos leite em pó ao preço do mercado internacional, que hoje é em torno de 1.700 a 1.800 dólares, isso iria para mais 700 dólares, mais ou menos, fazendo o produto chegar aqui em torno de 2.500 dólares, um pouquinho mais em razão do frete", calcula Vicente Nogueira. Por isso, ele não vê possibilidades de um incremento das importações, a não ser aquilo normalmente esperado para complementar o abastecimento. Otávio Farias concorda: "Considerando a baixa disponibilidade de leite no Mercosul, a chance do mercado ficar deflacionado aqui é menor, já que não há tanto leite assim para entrar no Brasil".

Previsão

Para Vicente Nogueira, se o dólar continuar acima de R$ 3,00 nós teremos importações inferiores ao ano passado. "Eu prefiro dizer que o dólar é melhor estando acima de R$ 3,00. De qualquer forma, mesmo ligeiramente abaixo disso, eu acho que este ano nós não vamos ter grandes sustos em relação às importações em razão da oferta mundial, que está muito reduzida". Rodrigo Alvim concorda: "Se o dólar cair, por exemplo, para R$ 2,50 ficará muito complicado exportar. Não sei se, nesse caso, a importação será mais vantajosa, mas este valor com certeza irá aviltar os preços internos".

Otávio Farias considera que o Brasil importou muito no ano passado porque os preços do mercado internacional eram muito baixos e o dólar estava relativamente barato até maio do ano passado: "Nós estamos falando de R$ 2,30 a R$ 2,45 mais ou menos". Depois, apesar da desvalorização, o país continuou importando, pois a produção nacional era insuficiente. "Não tinha leite no Brasil. O choque do ano anterior (2001), com preços muito baixos e grande disponibilidade de leite fez com que vários produtores deixassem de investir na produção e até se desfizessem dos seus plantéis, diminuindo a produção e dando espaço para uma maior importação no ano de 2002".

Agora, o que se observa é que há um certo equilíbrio de preços no mercado internacional e no Brasil. "A indústria, este ano, vai ter que escolher entre mercado interno e mercado externo na medida em que a qualidade seja um fator determinante. Claro que, se o dólar baixar mais de R$ 3,00 cada vez vai entrar mais leite no Brasil. A questão é: de onde?". Por isso, ele acredita que este ano o Brasil vai importar menos leite em relação ao ano passado, mas também vai exportar menos do que exportou em 2002, acompanhando um cenário mundial de diminuição da demanda.

Fonte: Thais de Alckmin Lisbôa, para MilkPoint
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