O desabafo unânime dos produtores de leite, motivado pelo baixo preço que recebem dos laticínios pelo litro do produto, marcou as duas primeiras audiências públicas da CPI do Leite realizadas ontem em Ponta Grossa e Guarapuava. Nas duas cidades, foi grande a presença dos agricultores que se dedicam à produção leiteira, além de representantes do setor industrial e donos de supermercados, que não esconderam o desconforto ao serem apontados como o segmento da cadeia produtiva que mais tem lucrado com a atividade no Paraná.
Sete dos 11 deputados da CPI vão percorrer o interior do Estado até amanhã, ouvindo depoimentos. Além do presidente da Comissão, deputado Orlando Pessuti (PMDB), e do relator, Cezar Silvestri (PPS), fazem parte da comitiva o vice-presidente, Plauto Miró Guimarães (PFL), Luciana Rafagnin (PT), Edson Prackzyk (PL), Luiz Carlos Zuk (PDT) e Eli Ghellere (PDT). A CPI já criou um Disque-Denúncia, que pode ser acionado através do telefone 0800-6441202.
Em Ponta Grossa, com o auditório da Associação Comercial e Industrial lotado de produtores e lideranças empresariais do setor, a CPI acompanhou o depoimento de mais de 10 de pessoas. Seguiu-se uma série de desabafos, como o do produtor Livonzir Pinto Mendes, de Arapoti, que produz diariamente 2.500 litros de leite. "Recebemos R$ 0,30 (centavos de real) pelo litro do produto. É um valor ridículo. A Parmalat, que comprou a Batavo e absorve nossa produção, quer destruir os produtores da região", disparou.
No mesmo tom, o produtor Jeosir Ancheski, sustentou suas reclamações em números. Lembrou que em dezembro de 1994, ano da criação do Plano Real, o preço do litro pago aos produtores era de R$ 0,29 (centavos de real), enquanto que no mesmo mês do ano passado, o valor estava fixado em R$ 0,27, demonstrando a perda de renda sofrida pelos agricultores. Segundo ele, no período de 1994 a 2001, praticamente o preço de todos os insumos subiram. A saca da semente de milho, por exemplo, passou de R$ 20,00 para R$ 60,00, um aumento de 200%.
Por outro lado, o produtor Roberto Marmo, do Sindicato Rural de Arapoti, apresentou uma proposta para resolver a situação que ele considera "extremamente difícil".
Sugeriu que o governo federal passe a utilizar o leite nacional em seus programas assistenciais como forma de aumentar o consumo interno. Marmo também entende que o CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico), órgão ligado ao Ministério da Justiça, deveria ter uma participação mais efetiva no combate ao monopólio das empresas que comercializam produtos lácteos.
Urina vale mais que o leite
Segundo o sub-relator da CPI, deputado Eli Ghellere (PDT), na região Sudoeste, onde vários produtores de hortifrutigranjeiros estão aderindo à produção orgânica, a urina da vaca está sendo vendida a preço superior ao do leite. Enquanto pelo litro do leite o produtor recebe R$ 0,17, pela urina, que é usada como repelente de insetos, vem recebendo R$ 0,23.
Produtor em Ponta Grossa, Ubirajara Fustemberger, demonstrou através de números, o quanto o setor leiteiro emagreceu no Brasil nos últimos anos. Segundo ele, estimativas dão conta de que em 1995, o número de produtores chegava aos 1,8 milhão e no ano passado, caiu para 1,2 milhão. Ele acredita que em 2005, a previsão é de que apenas 400 mil agricultores continuem se dedicando à produção leiteira. Como reflexo da crise enfrentada pelo setor, Fustemberger aponta para o abate recorde de gado leiteiro na região dos Campos Gerais: "Não estamos tomando leite. Estamos comendo os nossos rebanhos", arrematou.
Margens de lucro
Durante a audiência pública, os empresários do setor reagiram ao serem apontados como os "vilões" do mercado leiteiro. Cezar Tozzetto, vice-presidente da Associação Comercial de Ponta Grossa e supermercadista, garantiu que as margens de lucro das redes de supermercados não são abusivas, oscilando entre 1% e 2%, enquanto o custo operacional sobre o preço de venda fica situado entre 14% e 22%. Quem faz o coro é Sérgio Jazinski, da Associação Paranaense de Supermercados, que refuta a tese de que os supermercadistas obtêm lucros abusivos com a venda de leite, mas, por outro lado, admitiu que grandes redes de supermercados cobram aluguel dos produtores pelo espaço nas gôndolas.
Já na opinião de Paulo Danova, da Associação dos Produtores da Ceasa, de Curitiba (Aprotiba), o lucro dos supermercados é "histórico" e passou, nos últimos anos, de 4% para 12%. De acordo com o diretor de vendas da Batavo na região, Artur Voorsluys, "a indústria não tem nada contra o produtor e o consumidor final. Quem faz o preço é o mercado", apontou.
Já o presidente da Cooperativa Batavo, Franke Dijkstra, considera que as grandes redes de supermercados é que são responsáveis pelo achatamento do preço do leite pago ao produtor. ''A relação produtor/indústria não é problema porque a indústria não tem grande poder para reverter o quadro'', considera.
Como presidente de uma das maiores cooperativas da região, Dijkstra disse que está procurando outros compradores para melhorar o retorno do produtor. Até a Parmalat fazer sociedade com a Batavo, praticamente 100% do leite produzido na região era entregue a esta indústria. ''Hoje 50% do nosso leite está sendo vendido para outras indústrias'', revela o presidente.
Enquanto Ronei Volpi, representando a FAEP (Federação da Agricultura do Paraná) sugeriu que a CPI faça um levantamento da formação dos preços mínimos de produtos como o leite e hortifrutigranjeiros, a produtora Sandra Queiroz, propôs que a Assembléia Legislativa elabore uma lei estabelecendo os prazos de validade para os produtos lácteos, lembrando que o do leite é de dois meses enquanto achocolatados da marca Parmalat podem ser consumidos em até 180 dias.
Na audiência pública realizada em Guarapuava, no Centro de Desenvolvimento Tecnológico, os produtores de leite também engrossaram o coro dos descontentes com a atividade leiteira, lotando o auditório.
A Comissão deve concluir seus trabalhos no final de abril. Existem CPIs do Leite instaladas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás. A intenção do presidente da comissão é concluir os trabalhos até 31 de março, indicando no relatório final alternativas para superar a crise.
Fonte: Gazeta do Paraná e Folha de Londrina (por Denise Ângelo) adaptado por Equipe MilkPoint
Produtores do Paraná desabafam em audiências da CPI do Leite
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