Produtores de leite vendem rebanho e maquinários

Publicado por: MilkPoint

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A vaca foi para o brejo. Vende-se tudo. Essa é a realidade de uma grande parte dos produtores brasileiros de leite, que insatisfeitos com os resultados do setor, promovem cada vez mais liquidações de todo o rebanho, além de maquinários e pequenos laticínios. Neste ano, o desânimo atinge não só pecuaristas ineficientes, donos de vacas de baixa produtividade, mas também criadores de prestígio, proprietários de vacas campeãs de exposições agropecuárias e seguidores ferrenhos da melhor genética.

A Embral, principal leiloeira de gado de leite do Brasil, está com sua agenda cheia este ano. A maioria dos remates já programados pela leiloeira leva o nome de pecuaristas interessados em sair definitivamente da atividade. "Vamos realizar mais de 30 leilões de liquidação do rebanho apenas no primeiro semestre, com a oferta de 10 mil fêmeas", diz o diretor da Embral, Sebastião Beraldo. No ano passado, a leiloeira registrou a desistência de 45 fazendas, com 11,7 mil fêmeas comercializadas. Em 2000, a empresa realizou 30 leilões de liquidação e vendeu 15 mil vacas - uma única fazenda ofertou 3,5 mil fêmeas.

A saída do setor, segundo o analista da Scot Consultoria, Maurício Palma Nogueira,é motivada pelos baixos preços pagos ao leite, que afeta desde o pequeno até o grande produtor. "Quem abandona a atividade não são os chamados aventureiros e sim pecuaristas profissionais, eficientes na produção, mas que não suportam mais os baixos preços pagos no mercado", afirma Nogueira.

Apenas no ano passado, os preços do litro do leite tipo C negociado no estado de Minas Gerais caíram 17%, de R$ 0,3207, em dezembro de 2000, para R$ 0,2654, dezembro de 2001, de acordo com dados do Cepea.

As maiores desistências ocorre no estado do São Paulo, segundo o professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), Paulo Fernando Machado, responsável pela "Clínica do Leite", que faz gerenciamento de rebanho. Os compradores do plantel liquidado são, em sua maioria, produtores de Goiás e do Nordeste do País, regiões onde a produção de leite segue em ritmo de crescimento. "Em São Paulo, existe a opção de escolher outras atividades mais rentáveis, como a laranja e o gado de corte", afirma o professor. A pecuária de corte vive seu melhor momento da história, com recorde de preços em leilões e aumento das exportações, o que tem feito muitos produtores trocarem o leite pela carne.

Segundo Machado, quem sai da atividade não quer nunca mais ouvir falar em leite, pois o preço atual do litro do leite não cobre o custo de produção de nenhum produtor. A própria "Clínica do Leite" da Esalq, responsável pelo armazenamento e gerenciamento de dados de produção, tem registrado uma queda acentuada no número de clientes. "Há dez anos nosso banco de dados registrava 15 mil vacas e 150 fazendas cadastradas. Hoje são apenas 30 propriedades com 5 mil animais", destaca.

A atual crise do setor leiteiro não poupa nem os pecuaristas de renome, conhecidos pela eficiência na produção, como Belarmino Ascenção Marta e Antônio Carlos Canto Porto Filho, os dois maiores investidores em genética de gado de leite do Brasil, com embriões e animais importados dos Estados Unidos e Canadá . "São pecuaristas que investiram muito no passado, com importação dos melhores materiais genéticos do mundo e que hoje estão desiludidos com o setor", salienta o diretor da Embral.

Antônio Carlos Porto Filho, conhecido como Totó Porto, produtor de leite tipo A e dono da Fazenda São Francisco, em Mogi Mirim (SP), colocará todo o seu plantel à venda nos dias 13 e 14 de abril, com a oferta de 820 fêmeas holandesas PO, mais todo o equipamento e seu laticínio. Belarmino, eleito o melhor criador e expositor nacional da Expomik 2001, tradicional feira agropecuária, promove no dia 4 de maio a liquidação total de seu rebanho de gado de elite holandês, além de máquinas agrícolas e equipamentos, da Fazenda Villar do Rei, situada no município de Jarinu (SP).

Mesmo com a saída cada vez maior da atividade, a produção de leite cresce no País. Estimativas da Leite Brasil e da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) indicam que a produção no ano passado girou em torno de 21 bilhões de litros, um aumento de 45% sobre o volume registrado em 1990, de 14,4 bilhões de litros de leite.

Fonte: Gazeta Mercantil (por Denis Cardoso), adaptado por Equipe MilkPoint
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Claudino Luis Pita de Oliveira
CLAUDINO LUIS PITA DE OLIVEIRA

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 06/02/2002

Sem dúvida que assusta ver produtores do porte dos que foram citados na matéria abandonando a atividade, mas, analisando com mais profundidade a conjuntura que acarretou estes acontecimentos, o que se pode concluir é que existiram apenas mudanças nas características do segmento pecúaria leiteira. O leite hoje, mais do que em qualquer época, adquiriu a característica de commodity, fazendo com que a necessidade de escala de produção seja condição básica para se manter na atividade, o que também acarreta em uma menor rentabilidade da atividade e a deixa mais sujeita às nuances do mercado globalizado. Desta maneira, a atividade deixa de ser tão interessante como investimento, sem nos esquecermos ainda que, com as taxas de juros e a política tributária praticadas no País, poucas atividades produtivas são efetivamente rentáveis. É a hora de produtores que consigam produzir leite com um gado adaptado ao meio, com condição de produzir a pasto e sub-produtos industriais, que se dedique exclusiva e integralmente à atividade, e que realize investimentos somente em fatores efetivamente produtivos e, de preferência, que o mesmo seja um bom negociador, preferencialmente em grupo, para obter contratos que venham a garantir um planejamento financeiro da sua atividade.
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