Produtores de leite de 5 estados brasileiros - Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais - vão cobrar do governo providências para enfrentar a crise que acomete o setor, a qual provocou uma queda de 30% nos preços ao produtor e em algumas regiões, como em Goiás. Os produtores reuniram-se ontem, na sede da Federação da Agricultura do Paraná (Faep), em Curitiba (PR), convocados pela Associação Paranaense de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH), e decidiram recorrer aos representantes do setor nas assembléias, Câmara e Senado Federal para encaminhar suas propostas.
O preço do leite ao produtor caiu 15% no Paraná, e os produtores estão lançando suspeitas de formação de cartel por parte das indústrias, para forçar a baixa neste preço. Uma das ações dos produtores é reivindicar ao governo solicitações que já foram apresentadas pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que incluem a renovação imediata da linha de crédito para estocagem do excedente da produção com juros de 8,75% ao ano; inclusão de leite em pó ou longa vida em programas sociais (cestas básicas) e novas alternativas para aumentar as exportações de lácteos. Ao final do evento, foi elaborado um documento com reivindicações, que será entregue ao ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Moraes.
"Os altos custos de produção e baixa remuneração são as justificadas reclamações dos produtores, que estão assustados com a queda no preço do produto em plena entressafra, que provocará perdas irreversíveis em toda a cadeia produtiva do leite", disse Nélio Ribas Centa, presidente da APCBRH, médico e criador.
Os produtores dos 5 estados culpam também o governo federal pela situação, principalmente devido à crise de energia elétrica, que acabou trazendo conseqüências ao setor leiteiro. "O governo, de forma irresponsável, pela falta de planejamento e de investimentos no setor energético, gerou a crise da energia pela qual o Brasil está passando, criando a necessidade de economizar energia em várias regiões deste País, logo as indústrias tiveram que cortar produção, gerando desemprego, com conseqüências refletindo no consumidor que passou a comprar menos", destaca documento aprovado pelos produtores na Faep.
O mercado de leite longa vida também foi um tema discutido, uma vez que, segundo os produtores, muitas empresas estão entrando neste mercado, sem um planejamento adequado e, quando precisam de capital de giro, vendem seus produtos por preços muito baixos. Por outro lado, o mercado atacadista que está mais estruturado que as indústrias, exercem pressão para baixar os preços ao consumidor, gerando uma disputa selvagem entre as indústrias fornecedoras das grandes redes de supermercados. Além do monopólio na fabricação de caixas para leite longa vida, o que faz com que o preço da matéria-prima entregue pelos produtores seja equivalente ao custo da embalagem do leite.
Em Minas Gerais, foi criada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para averiguar denúncias de irregularidades que estariam sendo praticadas por grandes indústrias. "A CPI detectou, por exemplo, que a margem de lucro na venda do leite longa vida no varejo varia de 20% a 46%", disse Paulo Roberto Bernardes, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da CNA. Diante disso, o próximo passo da CNA, é convencer o governo a tabelar a margem de lucro dos varejistas no que diz respeito a produtos lácteos.
Neste sentido, uma pesquisa do Departamento de Economia Rural (Deral) aponta, no Paraná, grande diferença entre as margens de lucro. Quando o produtor recebeu, em média, R$ 0,32 pelo litro de leite em agosto (mês do levantamento), e levando em conta que são necessários 10 litros para fabricação de um quilo de queijo prato, a matéria-prima sairia do campo por R$ 3,20. Depois de industrializado, a média do quilo do produto na indústria, de acordo com a pesquisa, teria custado R$ 4,04, representando uma elevação de 26,2%. No varejo, o quilo do mesmo queijo, em média, teria sido comercializado a R$ 8,52, o que significa 110,8% a mais após a industrialização.
O resultado da redução do valor está se refletindo, num primeiro momento, na suspensão de investimentos e corte de custos. Outra medida a ser adotada é alterar a alimentação, substituindo, por exemplo, a silagem de milho por capim. Alternativas como estas começam a ser adotadas em vários pontos do Estado, segundo Newton Kimura, presidente da Cooperativa de Laticínios de Mandaguari (Colari), no Noroeste. "Ocorre que houve um incentivo muito grande em cima da qualidade, mas a frustração agora é geral", comenta, dizendo que os 600 produtores que integram a cooperativa receberam, em agosto, R$ 0,28 pelo litro de leite, enquanto o custo de produção chega a R$ 0,35. É o caso dele, que entrega diariamente 700 litros de leite. "Não temos como sair exatamente do setor, mas é quase certa a busca de redução de custos." Estas medidas, na opinião de Kimura, trarão conseqüências tão sérias quanto a queda dos valores: a redução drástica da produtividade dos animais. Depois disso, para voltar à normalidade, serão necessários entre dois e três anos, na avaliação do produtor.
Fonte: Paraná Online e Gazeta Mercantil (por José Marinho), adaptado por Equipe MilkPoint
Produtores de leite reuniram-se ontem no Paraná para discutir a crise do leite
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