A Fedeleche argumenta que parece realmente estranho que a maioria dos países aplique altas tarifas às importações de produtos lácteos - e inclusive o Brasil e a Argentina estão avaliando a possibilidade de aumentar sua tarifa aos lácteos como uma forma de equilibrar as distorções internacionais -, e no Chile, ainda esteja sendo falado em protecionismo.
Mercado Interno
Neste contexto de "sobre-produção" que a indústria vem argumentando permanentemente, as estatísticas oficiais do setor mostram que, até maio deste ano, a recepção estava inferior ao mesmo período do ano anterior em cerca de 0,7% (634.848.487 litros, frente a 639.154.022 litros). Apesar da recepção ter mostrado uma melhoria com relação a março e abril, fica bastante difícil esperar que ocorra uma recuperação importante para os próximos meses, dados os sinais de preços pagos entregues pelas processadoras.
Não há duvidas de que, com estes níveis de preços, em muitos casos, torna-se mais conveniente empregar parte da produção na alimentação e criação de bezerros, que entregá-lo às fábricas. Quanto ao preço pago ao produtor, pode-se observar que, em maio, a média do país chegou a 107,5 pesos chilenos por litro (15,94 centavos de dólar por litro), que é cerca de 12% menor do que o preço de maio de 2001. Esta queda no preço foi especialmente importante na Nona Região, onde foi maior que 15%.
Comércio Exterior
Com relação ao comércio exterior de produtos lácteos, entre janeiro e maio deste ano, apesar das exportações terem registrado um aumento de 37% em valor com relação a 2001 e as importações terem mostrado uma redução de 68%, uma análise mais detalhada destes dados leva a conclusões relevantes.
Por exemplo, as exportações durante o mês de maio de 2002 registraram uma redução de 44% com relação ao mês anterior, enquanto as importações mostraram uma queda de 38,2%, sendo estes dados referentes ao valor em dólar. Ao se analisar estes dados em equivalente leite, pode-se averiguar que as exportações diminuíram em 51%, enquanto as importações reduziram somente 10,9%.
Porém, mais importante do que a revisão deste período com relação ao ocorrido em 2001 é analisar a tendência ao comparar as importações e exportações do mês de maio de 2002, já que se observa que as primeiras chegam a 15,2 milhões de litros, enquanto a segunda somente alcança o volume de 7,2 milhões, resultando no fato das compras de lácteos no exterior terem sido duas vezes maiores do que as vendas externas, situação que seria estranha em um país em que "sobra leite", segundo argumentam as indústrias do setor. Em conseqüência, parece arriscado afirmar que a atividade exportadora continua aumentando, em circunstâncias nas quais a tendência indica o contrário.
Com relação a este conceito de país onde existe excedente de leite que a indústria chilena vem sustentando e que também é utilizado como argumento pelas autoridades para explicar a situação depressiva que o setor produtivo vem apresentando, a Fedeleche afirma que é necessário fazer a seguinte pergunta: "Como pode o Governo do Chile assumir publicamente que sobra leite no país, quando o consumo per capita é de 126 litros ao ano e o próprio Ministério da Saúde informa que os requerimentos mínimos são de pelo menos 200 litros?".
Gráfico 1

O "Boom Exportador": As barras azuis representam as exportações totais do Chile em equivalente em litros de leite, onde se observa que, neste ano, houve um aumento de apenas 2,3% com relação à 2001. As barras verdes representam o ocorrido em maio deste ano, quando o Chile importou o dobro do que exportou. Entre janeiro e maio deste ano, as exportações totais representaram apenas 6% da produção nacional do período.
Gráfico 2

Além do fato das exportações de lácteos do Chile em equivalente em litros não terem superado 6% da produção nacional, é importante destacar a dispersão dos destinos dessas exportações, o que contrasta com a forte concentração das importações, onde 51,1% são provenientes da Argentina e 20,6% do Uruguai.
Fonte: Fedeleche, adaptado por Equipe MilkPoint