Quando bem administrada, a pecuária leiteira pode ser produtiva e ter qualidade. É o que demonstraram cooperativas do Paraná na 2ª Agroleite, que aconteceu na semana passada em Castro.
A preocupação com qualidade, que inclui implantação da rastreabilidade, ordenha 100% mecânica e análises do leite em laboratório, e a centralização do processo de venda, para garantir poder de negociação, garantem o mercado para três cooperativas paranaenses, que formaram o "Pool de Leite ABC". Esse Pool produz, diariamente, 230 mil litros de leite de alta qualidade, adquirido pelas indústrias de outros estados, como a Nestlé, de Minas Gerais, e a Danone, de São Paulo.
Diante de tal cenário vitorioso, analistas do setor acreditam que o que falta para a pecuária leiteira do Brasil deslanchar é uma política dirigida.
Leia mais informações abaixo:
A centralização do processo de venda do leite recolhido nas propriedades rurais dos associados da Cooperativa Agropecuária Castrolanda e de outras duas cooperativas, Arapoti e Batavo, com a formação do chamado "Pool de Leite ABC", foi a estratégia adotada pelos paranaenses da região dos Campos Gerais para enfrentar a situação adversa do setor. Os resultados desta união, que começou há dois anos, foram revelados durante a 2a Agroleite, ocorrida em Castro, a 150km de Curitiba, na semana passada. Além dos 640 bovinos das raças Holandês, Jersey e Pardo Suíço, com elevado potencial genético e zootécnico, a mostra divulgou tecnologias de ponta da cadeia produtiva, em palestras técnicas, simpósios e exposições dinâmicas de máquinas.
A sinergia iniciou-se com a criação, em 1984, da Fundação ABC, responsável pela pesquisa e implantação de técnicas, visando à racionalização da atividade. Segundo o presidente da Castrolanda, Frans Borg, hoje a sobrevivência dos produtores dos Campos Gerais está garantida. Para ele, a organização regional do setor serve como escudo para obtenção de preços vantajosos num mercado globalizado. O pecuarista Ronald Rabbers, diretor da Castrolanda e coordenador-geral da 2a Agroleite, diz que a união das três cooperativas deu maior poder de negociação e a conquista de preços superiores à média nacional. "Na Colônia Castrolanda, produzimos diariamente 230 mil litros de leite de alta qualidade, adquirido pelas indústrias de outros estados, como a Nestlé, de Minas Gerais, e a Danone, de São Paulo". O rebanho dos 208 cooperados da Castrolanda abriga 13 mil vacas e a média individual diária é de 26 litros. Cada animal produz cerca de 6,5 mil litros de leite por ano, muito acima da média nacional de 1,5 mil litros. A ordenha é 100% mecânica, sendo o leite resfriado dentro da propriedade e depois transportado a granel em caminhão-tanque.
O rigor com a sanidade em todas as etapas é permanente. A cada 15 dias são retiradas amostras de leite das vacas lactantes para a realização de análises laboratoriais na Universidade Federal do Paraná. Os testes analisam índices de gordura, proteína, lactose, sólidos totais e também de células somáticas, bactérias e resíduos de antibióticos. "A qualidade do nosso leite tem padrão europeu", garante Rabbers.
Qualidade
Quando o critério é qualidade, o leite da Castrolanda tem desempenho exemplar. O número de células somáticas presente no leite está na faixa de 400 a 450 mil para cada mililitro, índice semelhante ao obtido nos rebanhos do Canadá, Estados Unidos e Europa, e que deverá passar a ser obrigatório no Brasil só daqui a dez anos. No leite produzido pelas vacas holandesas de Rabbers essa média já é inferior a dos EUA e hoje está 300 mil células por mililitro.
Sotaque holandês
Filhos de imigrantes holandeses que chegaram ao Brasil em 1951 para fundar a Cooperativa Agropecuária Castrolanda, os irmãos Lucas e Eltje Rabbers são verdadeiros exemplos de eficiência na atividade leiteira. Donos de um rebanho de 260 vacas em lactação da raça Holandês, eles entregam oito mil litros de leite por dia, movimentando cerca de R$ 1 milhão por ano. Na propriedade de 150 hectares, em Castro, são criados 500 bovinos, que passam por rigoroso controle sanitário e recebem alimentação à base de silagem de milho, ração balanceada e pastagem cultivada.
O desempenho das vacas que ficam em regime de confinamento e semiconfinamento impressiona. Um dos lotes, com 40 vacas, tem produção média diária de 44 litros. Entretanto, a média do rebanho da propriedade é 31 litros. A fêmea top da agropecuária contribui com 70 litros de leite a cada 24 horas.
Lucas lembra que os animais que deram início ao rebanho da Agropecuária Harm vieram da Holanda há meio século. "Eram 20 vacas, mas parte delas foi vendida no momento da chegada e outras morreram de fome, intoxicação ou de tristeza parasitária provocada pela infestação de carrapatos".
Embora recebam R$ 0,44 pelo litro do leite, os pecuaristas buscam a redução dos custos. Para baratear gastos com alimentação do gado, neste ano foram plantados 14 hectares de alfafa. A meta é a substituição de fontes de proteína, como o farelo de soja, com o uso da leguminosa no cocho.
Informatização
Metade dos 208 produtores de leite da Cooperativa Agropecuária Castrolanda usa computador para acompanhar a produção, a industrialização e as vendas da empresa. Da mesma forma que ocorre nas agências bancárias, com a Internet e a Intranet, o cooperado realiza operações financeiras em sua casa e ainda pode, por exemplo, comprar rações, vender animais, e informar-se sobre as assembléias através do site www.castrolanda.com.br.
Para estimular a informatização de todos os associados, o cooperado dispõe de uma linha de crédito especial para a aquisição de equipamentos. Além disso, ele recebe, junto com sua família, treinamento e suporte técnico especializado.
Falta de política setorial
Diante de tanta eficiência alcançada por algumas ilhas de prosperidade por que a pecuária de leite não deslancha no País e a produção anual brasileira de 20,8 bilhões em 2001 responde por menos de 5% do total mundial? Para o coordenador do Programa de Análise de Rebanhos Leiteiros do Paraná, o veterinário Newton Pohl Ribas, que participou na semana passada da 2.ª Agroleite, falta uma política para o setor.
"Se houvesse uma política dirigida, o País poderia dobrar a produção de leite em cinco anos", prevê o presidente da Comissão de Pecuária de Leite da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), Rodrigo Alvim. Na sua opinião, não há no mundo país com potencial para aumentar significativamente a produção como o Brasil. Os EUA já fazem uma rigorosa seleção do rebanho e praticamente não têm áreas para explorar, diz ele. A Argentina, para ampliar a produção de leite, tem de invadir áreas de soja ou de pecuária de corte. Na Europa a produção é toda confinada e eles já não sabem mais onde colocar o esterco, observa. "O Brasil é o único país que tem condições físicas para que a pecuária de leite deslanche: 90 milhões de hectares inexplorados no Cerrado, clima tropical que permite que o capim cresça mais rapidamente", diz Alvim.
O pontapé inicial, destaca, tem de ser dado com uma política que permita que os cerca de 800 mil produtores tenham renda suficiente para tratar do rebanho leiteiro, que hoje beira 18 milhões cabeças. "É preciso ter maior previsibilidade e estabilidade de preços para o setor", diz o presidente da Comissão de Pecuária de leite da CNA.
Fonte: Correio do Povo/RS e O Estado de São Paulo (por Márcia de Chiara), adaptado por Equipe MilkPoint
Pool ABC é exemplo de qualidade e nível na produção
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