Perspectivas para o setor lácteo do Uruguai no mercado internacional

Publicado por: MilkPoint

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O setor de lácteos do Uruguai não parou de crescer nos últimos 10 anos a um ritmo de 5% por ano e é a base sobre a qual o país fundou sua estratégia agroindustrial. Nas últimas semanas, representantes das diferentes partes da cadeia láctea uruguaia têm revelado à opinião pública os problemas do setor: os produtores denunciando falta de rentabilidade e a indústria exteriorizando suas dificuldades para competir nos mercados.

Apesar deste tipo de colocação somente se agravar em momentos de crise, não deixa de preocupar que provenha de um dos setores no qual o Uruguai tem fundamentado sua estratégia agroindustrial e exportadora a partir de suas vantagens competitivas. Questionar a viabilidade do setor leiteiro uruguaio seria como questionar o país como produtor, e daí surge a necessidade de saber onde estão os riscos.

Os últimos 30 anos

Desde 1970, a produção de leite no mundo não deixou de crescer e alcança quase 600 milhões de toneladas por ano. A Europa que produzia 60% do total, agora produz 43%; a Ásia aumentou de 7% para 17%; a América do Sul passou de 5% para 9%; os países em desenvolvimento aumentaram 15% sua participação, passando de 15% para 30%, e a expectativa é de que, até 2005, cheguem a 40%.

Durante o mesmo período, o mercado de lácteos mostrou um forte dinamismo no comércio internacional. Em termos físicos, as exportações se multiplicaram por três entre 1970 e 2000 e, em valor, multiplicaram-se por nove, passando de US$ 3 bilhões para US$ 27 bilhões. Os principais produtos do comércio internacional de lácteos são os queijos e as coalhadas, com 40% do total comercializado, e o leite em pó, com 25%. A manteiga ocupava 30% do comércio de lácteos em 1970, mas sua participação em 2000 alcançava apenas 12% do valor exportado. O leite condensado e evaporado passou de 9% para 4% e o leite fresco aumentou de 2% em 1970 para 7% em 2000, com o aumento do comércio de leite longa vida. Durante a década de 1990 outros produtos apareceram com força no mercado internacional, tais como cremes e natas frescas, iogurtes e soros, que elevaram a participação do conjunto de produtos "não tradicionais" de 4% em 1970 para 15% em 2000.

Apesar da irrupção de países produtores, o comércio de lácteos segue concentrado na Europa e na Oceania. O principal exportador mundial de leite em pó integral é a União Européia (UE), com mais de 40% das vendas, seguido pela Nova Zelândia, com 25% e pela Austrália, com 10%. A mesma ordem se verifica no mercado de queijos, com participações de 40%, 25% e 20%, respectivamente. A UE também lidera as exportações de leite em pó desnatado (22%), seguida pela Austrália (20%) e Nova Zelândia (15%). No mercado de manteiga o principal vendedor é a Nova Zelândia (50%), seguida da UE (20%) e da Austrália (15%).

No que se refere às compras, a situação é mais dividida; os principais compradores de leite em pó integral são Brasil e Argélia (10% cada um), Venezuela (7%) e Malásia (5%). Nas compras de leite em pó desnatado, o México participa com 10%, as Filipinas e a Argélia com 7% e a Malásia com 6%. A UE lidera o mercado de importação de manteiga (15%). No mercado de queijos o Japão é o principal comprador, com 16%, seguido pelos Estados Unidos (14%) e pela UE e Rússia (12%).

Perspectiva de mercados

O mercado de produtos lácteos está influenciado positivamente por fatores econômicos e sociais que estarão presentes em médio e longo prazo. O aumento da urbanização e a extensão da rede elétrica favorecem o consumo de produtos lácteos, em particular produtos frescos, enquanto a concentração da comercialização de alimentos através de grandes supermercados tem atuado como um impulso ao consumo de lácteos e à diversificação de produtos. Como o consumo per capita de produtos lácteos é cinco vezes mais alto nos países ricos que nos demais países (200 quilos e 40 quilos por pessoa por ano em média, respectivamente), os países mais pobres aumentarão seu consumo de produtos lácteos a um ritmo maior do que os ricos.

Posicionamento do Uruguai

Há, então, dois segmentos bastante diferenciados para o setor de lácteos: um mercado de quantidade nos países em desenvolvimento ao qual o Uruguai poderia aceder devido à sua condição de integrante do grupo de menor custo por litro de leite do mundo (US$ 0,10 a US% 0,15 por quilo), - situação que compartilha com outros países do hemisfério sul: Argentina, Brasil, Austrália e Nova Zelândia -, e, por outro lado, mercados desenvolvidos nos quais a competitividade se vincula com a qualidade, a segmentação e a exploração de produtos exclusivos, de marcas reconhecidas e linhas de alimentos preparados.

No atual contexto, as oportunidades do setor passam por manter e aumentar as colocações nos países da região, de acordo com o aumento esperado no consumo per capita de praticamente todos os países da América Latina. Projeta-se que, para 2005, as importações de produtos lácteos do México e da Venezuela terão aumentado 50% sobre os valores de 1999 e a dos países da América Central e do Caribe, cerca de 25%. No Brasil, ao contrário, o aumento da produção superará a demanda, de forma que as importações se reduzirão.

Quando se analisa a evolução das exportações de lácteos na última década, observa-se que as empresas do setor estão conseguindo não somente aumentar seus negócios externos, mas também, adaptar-se às vertiginosas alterações do mercado, em particular logo após o Brasil fechar virtualmente seu mercado de lácteos a qualquer tipo e origem, de forma que em 1998 o País comprava US$ 500 milhões em lácteos e, no ano passado, comprou US$ 180 milhões.

Assim, enquanto as exportações de lácteos do Uruguai em 1998 eram apenas um pouco maiores do que US$ 40 milhões, em 10 anos estas já estavam em torno de US$ 177 milhões por ano, incluindo uma ampla gama de produtos: leite em pó (seis mil toneladas a 38 mil toneladas entre 1998 e 1999), queijos (de seis mil toneladas a 19 mil toneladas), manteiga e leite longa vida, que passou de menos de 2 milhões de litros em 1994 para 111 milhões em 1998 e 90 milhões em 1999.

A desvalorização da moeda brasileira no início de 1999 afetou não somente os volumes exportados, mas implicou também em uma queda entre 20% e 30% nos preços FOB de quase todos os produtos lácteos uruguaios. Em resposta, o setor teve que diversificar os mercados de forma que o Brasil, que era o destino de 70% das exportações uruguaias em 1998, caiu para apenas um quarto disso, enquanto o México, que era destino de apenas 4% do total em 1998, converteu-se no principal mercado uruguaio, com mais de 27% do total comprado. As exportações de 2001 permitiram apontar a presença uruguaia em outros três dos mercados com melhores perspectivas da região: Venezuela e Colômbia, na área dos países do segmento quantidade, além de uma boa colocação de queijos e manteiga no sempre difícil mercado dos EUA.

Fonte: El Observador, adaptado por Equipe MilkPoint
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