A Parmalat Brasil está prestes a completar seu quarto ano consecutivo de prejuízo e não parece que conseguirá sair do vermelho tão cedo. Há 45 dias no comando da empresa, Ricardo Gonçalves - o executivo que os italianos trouxeram da sua maior concorrente, a suíça Nestlé - acredita que vai precisar de dois a três anos para fazer a filial brasileira voltar a dar lucros. Para ele, esse prazo não é longo, tendo em vista sobretudo, a atual situação de fraco crescimento dos mercados em que a empresa atua. De janeiro a setembro deste ano, as perdas da Parmalat aqui dispararam 228% e chegaram a R$ 52,8 milhões. "Se conseguir nesse prazo, estarei satisfeito", afirma o novo presidente da Parmalat.
A estratégia para voltar a crescer e dar ganhos não é reinventar a roda. Gonçalves diz que vai manter os esforços no segmento de excelência da companhia no mundo todo: os lácteos. Isso não significa que toda a atenção será concentrada no leite longa vida, carro-chefe da Parmalat Brasil, mas com as margens cada vez mais apertadas. Na visão do novo presidente, a atuação será fortalecida em produtos com maior valor agregado, como os refrigerados. Assim, acredita, será possível brigar com suas principais concorrentes - Nestlé e Danone - pelo mercado, onde hoje tem a terceira posição. Em 2002, a comercialização e o marketing devem ser mais fortes que em 2001, diz Gonçalves, sem revelar cifras.
Embora recuse-se a falar em números, Gonçalves admite o aumento de investimentos tanto na área comercial quanto técnica, já que pensa em lançar novos produtos em vários segmentos onde atua. A maneira de tratar o marketing é que vai mudar. Será mais orientado. “Faremos mais comunicação de produto do que de marca”. A atitude leva a crer que gastos como os feitos com a campanha dos mamíferos -que distribuiu 17 milhões de bichinhos - tornaram-se coisa do passado.
A recente compra da Glória e da Avaré também é uma demonstração do interesse da companhia em reforçar sua presença nos derivados de leite, como, principalmente, no caso do creme de leite, onde a empresa pretende atingir a liderança de mercado. Sucos, atomatados e a divisão de bakery (biscoitos e bolinhos) continuam como partes importantes nos planos da companhia.
Gonçalves é o primeiro brasileiro a assumir a presidência da Parmalat e chega após a breve gestão do uruguaio Miguel Reyes Borzone. Em menos de dois anos no cargo, Borzone demitiu, fechou fábricas, centros de distribuição e cortou 10% do portfólio da empresa. Por isso, Gonçalves considera que o período de reestruturação da empresa acabou e, pelo menos por enquanto, não existe idéia de fechar mais unidades. Hoje, segundo ele, a Parmalat tem 18 fábricas no país, já contando as três que vieram com a compra da Glória.
Em relação ao processo de compras da multinacional italiana - presente no Brasil desde 1972 - não deve haver continuidade, a depender do atual presidente. Ele menciona que a série de aquisições foi relevante por ter proporcionado à empresa a posição que tem hoje no mercado. “O consumidor brasileiro sabe identificar muito bem a marca Parmalat”.
Gonçalves não gosta de falar sobre a Nestlé, grupo onde trabalhou durante 31 anos, presidindo por cinco anos a filial brasileira, até meados de 2001. Mas faz algumas comprações. Para ele, a administração das duas empresas é diferente porque a Parmalat é mais "jovem" e, obviamente, com cultura diferente.
"São momentos de história diferentes. A Parmalat é relativamente jovem e começa a ter presença internacional", avalia. De qualquer forma, funcionários da Parmalat acreditam que é bom ter um presidente que conhece de perto a concorrência. A apreensão, fica por conta da inexperiência dele com o mercado de longa vida. Mesmo que a Parmalat aposte em outros mercados, sua imagem está fortemente associada ao leite de caixinha.
Para Gonçalves, seu desafio é tirar a empresa do vermelho sem destruir sua vocação para ser grande no Brasil. "Para outras empresas, talvez valesse a pena tornar-se menor e mais sólida, mas para a Parmalat, não". Ele confia no sucesso da empreitada, mas espera muitos obstáculos: "se fosse fácil, eu não estaria aqui " .
Fonte: Valor Online (por Giuliano Ventura e Patrícia Duarte) e Gazeta Mercantil (por Christiane Martinez e Marili Ribeiro), adaptado por Equipe MilkPoint
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MilkPoint
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