A Chocolates Garoto, dona de 23,8% do mercado e de um faturamento de R$ 450 milhões no ano passado, já pertence à Nestlé. A multinacional suíça confirmou ontem, oficialmente, a aquisição de 100% do capital da última grande fabricante de chocolates totalmente nacional, um negócio gestado há meses. Para se tornar responsável por mais de 50% das vendas de chocolates no País e ultrapassar a Kraft Foods, dona da marca Lacta, especula-se que a Nestlé tenha desembolsado R$ 1 bilhão. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) vai avaliar se a negociação fere as normas de concorrência do País.
"O segmento de chocolates é um dos pilares da Nestlé no mundo. Com esta aquisição, vamos consolidar, no Brasil, nossa posição neste mercado", disse, em nota, o presidente da Nestlé Brasil, Ivan Zurita. O executivo comunicou a transação pessoalmente ao presidente do Cade, João Grandino Rodas. Zurita informou que a Nestlé terá 22% de participação, num cálculo que considera chocolates, confeitos e a indústria de chocolates artesanais como o mercado relevante para análise. Com isso, cresce a chance de aprovação da fusão.
"A primeira grande discussão será sobre qual é o mercado relevante", disse o presidente do Cade. De acordo com Rodas, a compra será comunicada ao Sistema Brasileiro de Concorrência, nos 15 dias úteis prescritos pela lei, que passam a valer a partir da efetivação da venda, ocorrida nos últimos dias.
Zurita adiantou a Rodas que pretende manter as fábricas da Garoto, até aumentando níveis de produção para os mercados interno e externo, pois há complementaridade nas linhas. "Ele explicou que a região está próxima da zona produtora de cacau e do porto de Tubarão e não é uma fábrica sucateada", disse o presidente do Cade, afirmando que tem intenção de aproveitar, no maior nível possível, os funcionários da Garoto.
De acordo com a empresa, "os planos da Nestlé para a Garoto prevêem o incremento da produção voltada ao mercado interno e às exportações para a América Latina e América do Norte, revitalização da marca e de seus principais produtos e manutenção da sua rede de distribuição em todo o País. Em suma, trata-se de ampliar a eficiência profissional demonstrada pela Garoto em seus mais de 70 anos de história, diz nota da multinacional.
O aumento da participação no mercado conferirá à Nestlé maior poder de barganha para negociar com fornecedores e redes de varejo. "A Nestlé vai entrar em segmentos em que a Garoto é líder, como coberturas, e com condições de negociar preços", diz o diretor de uma empresa. O tamanho do mercado e a sazonalidade do produto podem inibir grandes movimentações para reajustes, lembra outra fonte. "Será uma situação diferente do mercado de cerveja, com volume de vendas superior e dominado pela AmBev", compara um analista de mercado.
Insegurança
Entre os 2,4 mil funcionários da fábrica de Vila Velha (ES), o clima é de insegurança desde a semana passada, quando o Sindicato dos Trabalhadores em Alimentação (Sindialimentação) divulgou, extra-oficialmente, a venda. Iniciou-se, então, a luta pela manutenção da fábrica na cidade e do quadro funcional. "Os trabalhadores estão perdidos. Não foram informados da venda, depois de anos de dedicação à empresa", disse a diretora do sindicato Mara Lúcia Lira.
Negociação
A venda da Garoto começou a ser cogitada em 1999, por causa de desentendimentos entre os acionistas. A família Zenning detém 60% do capital e a Meyerfreund, o restante. Há dois anos, Helmut Meyerfreund, depois de mais de 20 à frente da empresa, foi substituído pelo sobrinho Ricardo Meyerfreund.
Após Helmut anunciar que a Garoto estava à venda, em junho de 2001, começou a boataria sobre prováveis compradores. Além da Nestlé, foram cogitadas Kraft Foods, Ferrero Rocher, Cadbury Schwepps e Arcor.
Garoto
Instalada em Vila Velha, no Espírito Santo, a Garoto foi fundada em 1929 e detém marcas de sucesso no mercado de chocolates. Também foi eleita, no ano passado, a segunda marca de chocolates mais lembrada pelo consumidor, de acordo com pesquisa realizada pelo instituto Data Folha.
Líder em exportação com 60% do total vendido ao mercado externo em 2001, a Garoto fechou o ano passado com alta de 3% nas vendas externas sobre o ano anterior. "Nem mesmo a crise na Argentina afetou nossas vendas", informou o gerente de exportação, José Cicone.
O Mercosul foi o destino de 35% das vendas feitas para o Exterior. A América do Norte, por sua vez, recebe 30% do que a Garoto vende no Exterior. Chile, Coréia, México e EUA estão entre os países que mais importaram produtos da marca em 2001.

Nestlé
A compra da Garoto pela Nestlé faz parte de uma estratégia global da empresa suíça de se expandir em "todos os mercados possíveis". Segundo o porta-voz da Nestlé na Suíça, François-Xavier Perroud, nos últimos cinco anos a empresas fez mais de 100 aquisições e o ritmo não deve diminuir. "Somos ambiciosos. Não acreditamos que ainda chegamos ao tamanho ideal, podemos crescer ainda mais".
Segundo ele, a Nestlé compra uma empresa no mundo a cada 15 dias. A última grande aquisição foi no ano passado, a da americana Ralston Purina por US$ 10,3 bilhões.
Há cinco anos, a meta estabelecida pela empresa foi promover um aumento de 4% nas vendas mundiais anualmente. Na avaliação de Perroud, a aquisição foi a estratégia mais eficiente para atingi-la. Segundo ele, as compras de empresas permitiram que a Nestlé conquistasse mercados e se consolidasse nos países onde a empresa já conta com investimentos.
As vendas atingiram a meta, chegando a US$ 49,9 bilhões. Em 2001, o lucro líquido cresceu 16% em relação a 2000, atingindo US$ 3,93 bilhões. Nos últimos cinco anos, a Nestlé se tornou a maior engarrafadora de água mineral do mundo, adquirindo 16 empresas tradicionais, como a Perrier.
A expansão, porém, tem um obstáculo: as leis antitruste que ganham força. "Em muitas regiões da Europa já não podemos fazer nenhuma compra e sabemos que depois da adquirir a Garoto não poderemos participar de mais nenhuma aquisição no Brasil", afirma o porta-voz.
Fonte: O Estado de São Paulo (por André Siqueira, Gustavo Paul, Rosângela Capozoli, Vera Dantas e Jamil Chade), Zero Hora/ RS e Paraná On Line, adaptado por Equipe MilkPoint