É o que aponta o relatório “Brasil: a potência de rações e proteínas fortalece sua vantagem competitiva”, publicado em 9 de setembro de 2026 pelo Rabobank e elaborado pelos analistas Marcela Marini e Wagner Yanaguizawa. Segundo a análise, a cesta de ingredientes utilizada na alimentação animal brasileira passa por uma transformação estrutural. O milho e o farelo de soja continuam fundamentais, porém, há um crescimento na oferta de DDGS e sorgo. Isso amplia as possibilidades de formulação e reduz a exposição dos produtores à volatilidade de determinados insumos.
Mais farelo de soja no mercado
Um dos principais movimentos vem da expansão do processamento de soja no país. Impulsionado, entre outros fatores, pelas diretrizes do programa Combustível do Futuro, o esmagamento doméstico deve crescer nos próximos anos. A projeção do Rabobank é de que o processamento interno alcance 69 milhões de toneladas, o que representaria cerca de 5 milhões de toneladas adicionais de farelo de soja no mercado em relação aos volumes de 2025.
Na prática, o aumento da oferta reforça a importância do farelo como principal fonte proteica das formulações e amplia a disponibilidade de um ingrediente já amplamente utilizado pela indústria de nutrição animal.
DDGS ganha espaço na dieta
Outro ingrediente que vem mudando o cenário é o DDGS (grãos secos de destilaria com solúveis), coproduto da produção de etanol de milho. A oferta do ingrediente cresceu, em média, 21% ao ano nos últimos cinco anos, acompanhando a expansão da indústria de etanol de milho no país. Para 2031, a expectativa é de que a disponibilidade chegue a 8 milhões de toneladas.
O movimento é especialmente relevante porque o crescimento da produção de etanol altera o destino do milho dentro da cadeia. Parte do cereal que poderia seguir diretamente para a alimentação animal passa pela indústria de biocombustíveis e retorna ao mercado de nutrição na forma de coprodutos. É uma mudança importante na lógica de utilização dos grãos: mais processamento industrial também significa mais alternativas para a formulação de rações.
Sorgo entra cada vez mais no radar
O sorgo também aparece como ingrediente estratégico nessa nova composição da cesta de alimentação animal. Com maior tolerância a condições de menor disponibilidade hídrica, a cultura ganha espaço principalmente em regiões onde as condições climáticas podem limitar o avanço do milho safrinha. Na safra 2025/26, a produção chegou a aproximadamente 6 milhões de toneladas, e a projeção é de que alcance 10 milhões de toneladas até 2031.
Para a nutrição animal, o aumento da disponibilidade significa mais uma alternativa para substituir parcialmente o milho, dependendo dos preços relativos, da logística e das características nutricionais de cada formulação.
O que isso muda para quem está na porteira?
É aqui que a diversificação ganha importância para o produtor. Na produção de leite, carne, suínos ou aves, a alimentação está entre os principais componentes do custo. Por isso, ter mais ingredientes disponíveis não significa apenas ampliar o cardápio da fábrica de ração: significa aumentar a capacidade de ajustar a dieta de acordo com preço, disponibilidade e valor nutricional de cada matéria-prima.
Se a oferta de sorgo, DDGS e farelo de soja continuar crescendo em ritmo superior ao da demanda, como projeta o Rabobank, o mercado tende a ganhar maior flexibilidade e menor exposição a eventuais gargalos de determinados ingredientes. Para o produtor, isso pode representar uma vantagem importante em momentos de forte oscilação das commodities.
Mais processamento, mais valor dentro da cadeia
O movimento também ajuda a explicar uma característica cada vez mais marcante do agronegócio brasileiro: a capacidade de transformar a produção agrícola em diferentes produtos e coprodutos dentro do próprio país. A expansão dos biocombustíveis é um exemplo claro. Ao mesmo tempo em que aumenta a demanda por matérias-primas agrícolas, a indústria gera ingredientes que retornam para a cadeia de alimentação animal.
Essa integração ajuda a sustentar a competitividade brasileira na produção de proteínas. O país já responde por uma parcela das exportações mundiais de proteína superior à sua participação na produção global — no caso do frango, por exemplo, representa cerca de 34% do comércio mundial, diante de 11% da produção.
A próxima etapa dessa competitividade, porém, não depende apenas de produzir mais. Passa também por produzir com mais eficiência, aproveitar melhor os coprodutos e ampliar as possibilidades de formulação ao longo da cadeia. E, nesse cenário, a ração brasileira começa a ter uma característica cada vez mais importante: menos dependência de uma única combinação de ingredientes e mais capacidade de responder ao que acontece dentro e fora da porteira.
As informações são do Rabobank, resumidas e adaptadas pela Equipe MilkPoint.
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