
Jacques Gontijo é engenheiro civil pela UFMG, com curso de especialização em Engenharia Econômica pela Fundação Dom Cabral. Foi Diretor-administrativo da Cooperativa Agropecuária de Bom Despacho, de 1983 a 86; de 86 a 93, foi presidente da Cooperativa Agropecuária de Bom Despacho; de 86 a 90, presidente da Comissão de Pecuária de Leite da Faemg. De 88 a 93, foi presidente da Comissão de Pecuária de Leite da CNA. De 90 a 99, foi primeiro vice-presidente da Faemg; em 2002, foi coordenador da Câmara Temática do Leite da OCB; de 2003 a 2008, foi vice-presidente comercial da CPPR-Itambé. Atualmente, é presidente da Itambé. Jacques Gontijo participará do Interleite 2009, proferindo a palestra "O futuro da atividade leiteira no mundo e o potencial do Brasil: tendências, desafios e possibilidades".
O presidente da CCPR-Itambé, Jacques Gontijo Alvares, falou com o MilkPoint sobre os 60 anos da principal cooperativa de leite do país, além de analisar as oportunidades e os desafios que o setor tem para se consolidar como grande exportador mundial.
MKP: A Itambé chegou aos 60 anos como um player importante do setor lácteo nacional, quando muitas cooperativas não tiveram o mesmo sucesso. O que fez com que a Itambé chegasse aos 60 anos dessa forma?
JGA: A Itambé tem características muito fortes em sua cultura. A principal delas é que a gestão é feita de modo empresarial. Ela é administrada como empresa. Isso significa que disputas e favorecimentos pessoais e políticos não podem interferir na condução dos negócios. Além disso, procuramos nos interagir com boas cabeças que estão nas universidades e na Embrapa. Esse pessoal nos ajuda a ver com mais clareza o presente e o futuro. Também trabalhamos com renomadas empresas de consultoria que nos dão ferramentas de planejamento e gestão e investimos em capital humano. Na seleção dos nossos colaboradores consideramos pessoas de boa índole, de boa formação técnica e que queiram continuar a aprender, talentosas, motivadas. Mas também sabemos reconhecer os resultados que elas apresentam para a empresa.
MKP: Quais são os maiores desafios e ameaças que a cooperativa tem no atual ambiente competitivo, olhando o futuro?
JGA: Temos alguns desafios que são de todas as empresas exportadoras. Por exemplo, o custo de transporte, dos impostos e o câmbio. Ser competitivo nas exportações com o dólar valendo R$ 2,00, o leite ao produtor valendo US$ 0,35 e o leite em pó cotado a US$ 2.200 a tonelada, como está ocorrendo hoje, é impossível. Mas temos desafios que são somente do universo das cooperativas. A Itambé tem crescido cerca de 8% ao ano, bem acima do crescimento da economia brasileira. Mas, as cooperativas, vistas em conjunto, têm reduzido sua participação na captação e na gôndola do supermercado. O grande desafio é reverter esse quadro, caminhando para uma consolidação do cooperativismo de leite. Caso contrário, corremos o risco de abrir espaço para empresas multinacionais, que podem vir aqui buscar novas oportunidades. Estamos nos transformando numa exceção no mundo, pois somos um país importante na produção e o único que as cooperativas não são majoritárias na quantidade processada e comercializada.
MKP: Quais são os pontos fortes da Itambé, isto é, o que faz com que o Sr. seja positivo quanto ao futuro da empresa?
JGA: O primeiro aspecto que me faz acreditar no futuro da Itambé é que eu acredito no futuro do leite brasileiro. Desde a década passada eu falo em palestras e conversas que caminhamos para ser o celeiro mundial também no leite. Nossa produção cresce continuamente, e a taxas muito elevadas. Além disso, temos potencial para continuar a crescer, pois temos tecnologia, água, terra, luz. Nenhum dos países importantes produtores e nossos concorrentes têm essas características. Até o fato da produtividade ser baixa nas fazendas é algo positivo, sob a ótica de futuro, pois só tende a crescer. E, ao acreditar no leite brasileiro, eu acredito na CCPR/Itambé, pelas características que ela apresenta. Temos fábricas de boa escala produtiva, modernas tecnologicamente falando, mantemos um nível de alavancagem financeira dentro do aceitável para o padrão de nossos negócios. Mantemos uma média anual de lançamentos elevada. São 33 novos itens lançados todos os anos, se consideramos os diferentes sabores, para 11 linhas de produtos. Temos em execução um audacioso Programa de Gestão de Qualidade, Segurança e Meio Ambiente, que nos ensinou que é um ótimo negócio cuidar do meio ambiente e das pessoas. Temos uma marca com reputação. Temos colaboradores que gostam da empresa. Somos uma corporação que sabe aprender. Somos uma cooperativa que sabe conciliar eficácia com solidariedade.
MKP: Muitas cooperativas do setor leiteiro em outros países estão optando (ou querendo optar) por modelos de capitalização que as tornam mais próximas de empresas não-cooperativas. Algumas, de fato, não operam mais como cooperativas. O Sr. acha que essa é uma tendência, isto é, em um mundo globalizado, dinâmico e movido a muito capital não será possível competir como cooperativa tradicional?
JGA: O cooperativismo existirá enquanto existirem pessoas que pensem de maneira solidária, enquanto produtores pequenos percebam que é possível ganhar de modo individual, se atuarem de modo coletivo. Tudo na vida está mudando, as instituições estão em transformação. Então, as cooperativas têm de mudar sem ferir a base do cooperativismo, que é a solidariedade. Ser eficaz na gestão empresarial é requisito, não é mérito. As cooperativas precisam encontrar um modelo que preserve estabilidade institucional, garanta administração profissional e que o carona, aquele que usa a cooperativa sem dar nada em troca, não tenha vez. Sem isso, fica muito difícil captar recursos para investir e crescer, num nível que faça as cooperativas competitivas e sustentáveis. Penso que temos de desenhar um modelo em que o controle da cooperativa se dê pelos princípios cooperativistas e a administração se dê num padrão empresarial.
MKP: Em diversos países, as cooperativas se uniram para competir no mercado. Por que isso não ocorre no Brasil?
JGA: Aqui no Brasil não temos tido muitas fusões no setor privado. O que nós temos tido são aquisições e incorporações, ou seja, uma empresa adquire outra. Parece que essa é uma característica da nossa cultura empresarial. A pergunta que se faz quando se discute uma fusão é quem vai perder o cargo de presidente. No caso de aquisição esta pergunta não existe. No caso das cooperativas, como é difícil uma cooperativa adquirir outra, ficamos sem um modelo que leve a uma consolidação do cooperativismo de leite.
MKP: Quais são, em sua opinião, as principais mudanças pelas quais o setor lácteo brasileiro está passando?
JGA: O desafio dos anos noventa foi aumentar a produção brasileira a custos competitivos em termos de produção, captação, processamento e distribuição. Agora, o desafio é o da qualidade. Estamos entrando na etapa da produção integrada, da adoção das boas práticas nas propriedades. Mas, é somente o início de uma caminhada longa, talvez uma década. Além disso, creio que estamos vivendo um período de depuração do setor, com a saída de alguns agentes que entraram na atividade recentemente.
MKP: E quais são as que o setor ainda precisa ou vai passar, nos próximos anos?
JGA: Precisamos consolidar o setor de cooperativismo de leite. Não sei se conseguiremos nos próximos anos. Por outro lado, temo que ocorra entrada de capital multinacional na atividade de processamento. O setor de lácteos vem se concentrando nas últimas duas décadas. A velocidade de concentração deverá se acentuar nos próximos anos.
MKP: No setor de suco de laranja e carnes, algumas empresas nacionais estão se tornando ou já se tornaram players globais. O mesmo ocorre em segmentos como mineração, bebidas e aço. Será que teremos uma multinacional brasileira, forte em lácteos?
JGA: Nos setores do agronegócio, o que ocorreu foi que, num determinado momento, a produção ficou maior do que o consumo interno e as empresas foram levadas a olhar o mercado externo. Quando agiram assim, perceberam que eram muito competitivas, mas precisavam se organizar. Fizeram isso com grande competência e ganharam o mundo. No caso do leite, creio que já estamos fazendo isso. A Itambé mesmo, tem 62 países como clientes. A produção brasileira cresce a uma taxa anual que é o dobro da taxa de crescimento do consumo. Já substituímos razoavelmente o espaço que antes era das importações. Todavia, isso somente não assegura que o nosso leite chegará ao mercado externo por meio de uma multinacional brasileira. As relações na cadeia ainda se dão com muita emoção e a visão de curto prazo impede que se olhe mais à frente. Mas, o caminho, necessariamente, é seguir os passos dos outros setores que ganharam espaço internacional.
MKP: Quais são os principais desafios que o Brasil tem para ser de fato um grande player no mercado internacional? Onde precisamos desenvolver competitividade?
JGA: Temos de avançar em pontos. O primeiro é o da qualidade em toda a cadeia e não somente na propriedade. O segundo, é o da eficácia administrativa e, novamente, temos de melhorar ao longo de toda a cadeia. O terceiro ponto é amadurecermos as relações e desenvolvermos ações pré-competitivas entre as empresas brasileiras de lácteos voltadas para o mercado externo. Por exemplo, temos de nos expor mais no mercado internacional. O quarto é influenciarmos as ações do Governo brasileiro no ambiente externo ao nosso favor.
MKP: Em diversos países, o setor tem desenvolvido ações pré-competitivas visando defender e promover os produtos lácteos. No Brasil, muito se fala do marketing de lácteos, há a Láctea Brasil, mas até agora não se viu uma campanha ou a estruturação da entidade da forma que ocorre em outros países. Por que?
JGA: Nos países em que isso ocorreu, houve a criação de uma legislação que tornou compulsória a contribuição dos agentes. Isso não ocorreu no Brasil. As empresas têm optado em fazer propaganda sobre seus produtos individualmente. No caso da Itambé, já deixamos muito claro e público que nossa posição é no sentido de aportar recursos em campanha promocional que estimule o consumo de lácteos.
MKP: Após um ano de certa euforia, o setor entrou em uma espécie de "ressaca". Os preços internacionais não se sustentaram, os preços internos não repetiram os valores de 2007, alguns laticínios ficaram em dificuldade e muitos produtores amargaram prejuízos. Qual sua visão para o mercado no segundo semestre de 2009 e em 2010?
JGA: Precisamos nos acostumar a não fazer comparações com o segundo semestre de 2007 e o primeiro semestre de 2008. Esse período não deverá se repetir. Foi muito bom para todo mundo. Mas, como dizem os mineiros, o que era doce acabou-se. Nesse momento, considerando os preços pagos aos produtores nos países concorrentes, nossos preços ao produtor estão maiores. Uma parte é resultado de escassez verdadeira de leite. Outra parte é resultante de ações de empresas compradoras que estão puxando o preço para cima. Há, ainda, os efeitos da seca no sul. Os preços deverão subir um pouco mais e cair ao final do segundo semestre. Isso não é bom para o produtor e a instabilidade de preços é tudo que o produtor não quer. Em 2010, penso que teremos um mercado mais estável, com a retomada do crescimento econômico mundial e brasileiro. Isso irá impulsionar as vendas e, com isso, estimular a produção nacional.
