Segundo os produtores, a infestação se agravou nos últimos anos. Eles suspeitam que o aumento da população de moscas esteja relacionado ao manejo da vinhaça, resíduo gerado na produção de açúcar e etanol e utilizado como fertilizante em lavouras de cana-de-açúcar. As moscas se concentram no corpo dos animais, que tentam se proteger permanecendo agrupados. O comportamento foge do habitual, já que o gado fica normalmente espalhado pelo pasto.
Diferentemente da mosca doméstica, a mosca-do-estábulo possui estrutura adaptada para picar e sugar o sangue dos animais. O produtor rural Manoel Rodrigues afirma que os animais passam grande parte do dia tentando se defender dos insetos. Segundo ele, a situação compromete a alimentação do rebanho e reduz a produção de leite. "Os animais só conseguem se alimentar à noite. Durante o dia, eles ficam agrupados e se batendo, as vacas encostam umas nas outras para se defender já que onde elas estão encostadas, não serão atingidas. E é dessa forma aí que a gente tá convivendo há vários dias aqui", conta.
O produtor Vanderlei de Souza relata situação semelhante. Para ele, a infestação pode estar relacionada às atividades de uma usina instalada nas proximidades do município. "Acredito que é da usina. Porque não tínhamos isso aqui. E, às vezes, quando a usina para na época de moagem, as moscas diminuem", comenta.
Sobre a usina
A usina citada pelos produtores fica a cerca de 10 quilômetros de Costa Rica. A vinhaça, gerada durante o processamento da cana-de-açúcar, é utilizada como biofertilizante nas lavouras. O manejo do material deve seguir normas técnicas, incluindo medidas para evitar o acúmulo de líquido nas áreas agrícolas.
O produtor Arionildo Nogueira afirma que a presença da mosca-do-estábulo se tornou frequente após a instalação da usina na região, há cerca de 14 anos. "A gente está aqui há 30 anos e de 14 anos para cá, - quando a usina instalou aqui no nosso município - é que começou o ataque das moscas. Desde então, todos os anos passamos a ter que enfrentar este problema, são altos e baixos". Segundo ele, a infestação registrada neste ano está entre as mais graves do período recente.
Produtores cobram solução definitiva
Para tentar reduzir a infestação, a usina tem aplicado produtos de controle em áreas próximas às propriedades rurais e instalado armadilhas nas cercas. Os dispositivos são formados por faixas plásticas com material adesivo que captura os insetos. Apesar das medidas adotadas, os produtores afirmam que os resultados ainda são insuficientes e cobram uma solução definitiva para o problema. "Ninguém está pedindo para que a usina feche, pare de operar. A gente só quer que eles resolvam o problema e deixem a gente trabalhar", diz Manoel.
Manoel destaca ainda que os prejuízos atingem principalmente os pequenos produtores, que dependem da renda gerada pela atividade rural. "Para o pequeno produtor o impacto se torna maior ainda já que ele conta com cada centavo para poder sobreviver. Com esses prejuízos vamos deixando de produzir e no final do ano estaremos no vermelho e devendo, já que não conseguiremos fechar a conta".
O que dizem a usina
Em nota, a indústria informou que realiza o manejo da vinhaça de acordo com protocolos agronômicos, a legislação vigente e as práticas técnicas do setor. A empresa também afirmou que mantém monitoramento contínuo das áreas e diálogo com produtores rurais e órgãos competentes.
Segundo a Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul (Biosul), a mosca-do-estábulo é um desafio para a agropecuária. A entidade afirma que a ocorrência do inseto está relacionada a diferentes fatores ambientais e climáticos, principalmente em períodos de temperaturas elevadas e maior volume de chuvas.
Ainda conforma a Biosul, a associação atua há mais de uma década em parceria com produtores rurais, usinas, órgãos públicos e a Embrapa Gado de Corte. O trabalho inclui pesquisas, ações preventivas e protocolos voltados ao manejo de áreas agrícolas e resíduos orgânicos.
As informações são do G1.