Para cumprir seus compromissos no mercado externo, as indústrias lácteas do País estão amargando prejuízo. Os volumes de produção no Brasil, que atingiram 20 bilhões de litros em 2001, não devem se repetir este ano, o que tem levado as empresas do setor a importar produtos lácteos a um custo entre US$ 1,6 mil e US$ 1,9 mil a tonelada, para exportar, em média, a US$ 1,4 mil.
A análise foi feita pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). As importações entre janeiro e maio deste ano atingiram 400 milhões de litros, sobre 800 milhões de litros importados durante todo o ano de 2001. O estudo também mostra que a queda dos preços do leite no mercado internacional vem se mostrando consistente. Em setembro de 2001, a tonelada custava US$ 2,05 mil e hoje está em US$ 1,4 mil, 30% menor.
Produção recorde
"A nossa estimativa é de que até o final do ano as importações vão chegar a 1,2 bilhão de litros, 50% acima do registrado no ano passado. O crescimento na produção de 9,6%, que foi recorde em 2001, vai cair 7% este ano. Embora os indicadores mostrem que iremos produzir 2,5% a mais do que vínhamos produzindo, isso reflete apenas o crescimento vegetativo da população", afirma o presidente da Comissão de Pecuária de Leite da CNA, Rodrigo Sant'Anna Alvim. O consumo brasileiro de leite é de cerca de 22 bilhões de litros anuais. Quase a totalidade das importações vem da Argentina e do Uruguai.
As estatísticas das exportações brasileiras de lácteos, reflexo dos contratos firmados no ano passado, mostram que a indústria se entusiasmou muito ao conquistar o mercado externo. O volume de vendas externas para os Estados Unidos, União Européia, América Central, África e Mercosul totalizou US$ 25,030 milhões em 2001, um aumento de 117% sobre os embarques do ano anterior. Somente entre os meses de janeiro a abril, as exportações chegaram a US$ 14,920 milhões, ultrapassando as vendas do ano de 2000.
Primeiro contrato
O vice-presidente comercial da Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (Itambé), Jacques Gontijo, admite que a empresa fechou o seu primeiro contrato de fornecimento de três mil toneladas de leite em pó para a Nigéria, no final do ano passado, estimulada pela alta do dólar e pelo excedente de produção de leite no mercado interno. "Mas, com a queda dos preços e o aumento das importações do País, começamos a rever a nossa estratégia de exportação porque os nossos ganhos que viriam com a diferença cambial foram anulados", afirma.
A Itambé, principal exportadora de leite em pó, diz que neste momento a venda para o mercado interno está mais atraente. "É muito difícil competir com os subsídios europeus e norte-americanos. Os países que precisamos conquistar estão na Ásia, na África e na América Central", diz Gontijo. Ele anunciou também que a empresa, hoje a terceira maior produtora de laticínios do País, vai iniciar a prospecção de mercados para a exportação de leite condensado, porque não sendo uma commodity não recebe subsídios no exterior.
Os principais destinos do leite brasileiro são a Nigéria, alguns países da Ásia e Arábia Saudita, o Chile e a Venezuela. Os maiores exportadores de lácteos são a mineira Itambé (leite em pó), as multinacionais Nestlé (leite condensado) e Parmalat (butter oil) e a gaúcha Elegê (manteiga).
De olho no mercado externo, as indústrias brasileiras Confepar (PR), Embaré (MG), Ilpisa (AL), Itambé (MG) e Paulista (SP) criaram, no final de 2001, a Serlac Trading S/A. Através da qual planejam exportar lácteos sob a marca Brazilian Dairy Board.
Para Alvim, a implementação de uma política de exportação de lácteos pelo governo brasileiro, no sentido de certificar produtos e receber missões estrangeiras, é essencial para o desenvolvimento da cadeia produtiva leiteira. "Para isso, é preciso garantir renda justa ao produtor, para que ele possa aumentar a produção, atendendo o mercado interno e gerando excedentes para exportação", salienta. O governo também precisa garantir recursos para a formação de estoques reguladores pelas indústrias, de forma a manter a regularidade das vendas externas e alavancar novos negócios.
O incremento da atividade exige medidas urgentes, entre elas a inclusão do leite na Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM), o que permitiria ao setor ter acesso ao Empréstimo do Governo Federal Sem Opção de Venda (EGF/SOV), que é um instrumento para financiamento dos estoques reguladores de lácteos.
As lideranças também negociam com o governo a implementação da Política Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite (PNMQL) e a formalização da Rede Brasileira de Laboratórios de Controle de Qualidade para o Leite, visando a padronização e certificação de produtos para exportação.
Fonte: Gazeta Mercantil (por Telma Pinto) e Clic RBS/Agrol, adaptado por Equipe MilkPoint
Indústrias importam para cumprir contratos de exportação de leite
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