A agricultura brasileira poderia estar num estágio mais avançado se o governo funcionasse como um motivador de mudanças. A visão paternalista, esperança de muito agricultor, fez do Estado mais bombeiro e menos criador nos últimos anos.
Essa falta de pensar estrategicamente o campo tornou o governo suscetível às pressões por não apresentar boas respostas ao setor, atitude em parte calculada: o caminho das velhas respostas e da simples liberação de recursos mantém poder político.
"Faltam idéias inovadoras para quebrar paradigmas", diz o economista e pesquisador Mauro de Rezende Lopes, da Fundação Getulio Vargas, do Rio, para quem o governo não sabe, ou não quer, identificar as questões críticas do setor. "Se é sabido, por exemplo, que o maior faturamento vem de produtos processados, porquê plataformas de exportação não foram formadas?", questiona.
Esse vácuo do Estado abre espaço para o produtor colocar seus pleitos à mesa e conseguir vantagens, como na última renegociação das dívidas. Não há erro algum pelo lado do produtor, pondera Lopes. Se não são apresentadas possibilidades de melhora, os agricultores tentam aliviar as pressões atuais.
Depois do desmonte do crédito rural subsidiado, o país não conseguiu criar um sistema razoável de financiamento ao campo, o que tem levado cada vez mais produtores a colocar capital próprio nas lavouras. Hoje, médios e grandes agricultores do Centro-Oeste estão nas mãos de multinacionais que financiam o plantio da safra com a troca de insumos por grãos.
Não seria de todo ruim a saída do governo, diz o pesquisador, se um bom sistema de financiamento tivesse sido montado. "Mas, para atrair os bancos, é preciso seguro rural e um sistema eficiente de informação para análise de crédito", aponta a economista Ignez Vidigal Lopes, também da FGV/Rio.
Crédito passa pela criação de um sistema eficiente e confiante de fiscalização de armazenagem, para dar mais segurança ao comprador de produtos agrícolas. Com armazenagem segura é possível levantar capital com penhor da safra, por exemplo, opção para financiar o setor, diz Ignez. Diversos governos poderiam ter aproveitado as discussões sobre redução do crédito rural desde os anos 90 e criado um sistema onde os produtores pudessem se tornar independentes do crédito oficial e buscassem se organizar na comercialização. "A agricultura está entrando na globalização com cabeça de antes da queda do muro de Berlim", cutuca Lopes. Globalização é ter posicionamento estratégico no mercado, acrescenta.
Café e leite são dois exemplos dessa luta do velho contra o novo. "Alguns momentos podem pedir intervenção, como é o caso do café, mas não significa o governo comandando", opina o pesquisador . Faltou, diz, traçar um plano que incluísse a reestruturação produtiva do setor e a busca de mais recursos utilizando como base o caixa do fundo Funcafé. Os produtores de leite vão no mesmo caminho. Estão em crise, pedem ajuda, mas não apresentam um programa para redução do número de produtores. "Não estamos fazendo gestão estratégica. No fim, isso não ajuda o produtor", acredita Ignez Lopes.
Mas existem bons exemplos de mudanças. A criação do Cresol, sistema de microcrédito no Rio Grande do Sul, é um. Outros são os sistemas de consórcios de condomínios que se espalham pelo Centro-Oeste, um caminho que começou com grandes produtores e já se espalha para pequenos e médios.
No cenário que se desenha, quem terá mais influência nos rumos da agricultura serão os Estados, afirma Mauro Lopes. Olhando isso, o governo do Mato Grosso já começa a criar mecanismos, junto com associação de produtores, para avaliação de crédito. Outro tema fundamental, diz, é a questão ambiental, um assunto que terá mais força e levará à maior participação os governos locais. "Vem aí uma política de sustentabilidade. Haverá maior governança na agricultura e Estados serão fundamentais". Isso só funcionará, pondera, com atenção ao capital humano. "O produtor é o insumo mais importante que temos".
Para o Brasil crescer no agronegócio, terá também de haver a inclusão dos pequenos produtores nesse processo. Um trabalho realizado no fim de 2000 por Mauro Lopes mostra que crédito adequado é o melhor caminho para o pequeno progredir. A cada 10% de aumento na disponibilidade de capital fixo, capital de giro e contratação de mão-de-obra, a produção cresce 7,9%. Índice bem superior ao que se obtém com maior oferta de terra, por exemplo.
Fonte: Valor On Line (por Carlos Raíces), adaptado por Equipe MilkPoint
Falta de política agrícola amarra o campo
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