Há um produto que, aos poucos, vem ganhando espaço no mundo e que também começa a dar seus primeiros passos na Argentina. O leite de jumenta. Com forte presença em mercados como China e Itália, onde se concentra boa parte da produção global, a bebida se encaixa na categoria de “alimentos medicinais” e já conta com uma empresa argentina dedicada ao negócio, que agora pretende escalar a operação.
Pablo Talano, Jorge Muract e Luis Losinno fundaram a empresa Equslac em plena pandemia, em 2021. A partir de então, eles começaram a estruturar o negócio e a analisar as oportunidades que esse mercado poderia oferecer. Losinno, o médico veterinário do trio, foi o primeiro a se interessar pelo leite de jumenta. “Há dez anos, viajei para a China por um motivo acadêmico. Como parte das atividades, nos levaram a conhecer empreendimentos desse tipo, e fiquei impressionado. Eu nem sabia que existiam”, afirma ele.
Depois, ele conheceu quem hoje são seus sócios e conseguiu despertar o interesse neles. Os primeiros passos foram dados em parceria com a Universidade Nacional de Río Cuarto, para se aprofundar na produção e nos processos. Depois, vieram outras colaborações, como com a Universidade de La Pampa, a de La Plata e a de Villa María.
“Montamos um ecossistema e nos conectamos também em nível internacional para ter peso suficiente e fazer com que isso se tornasse uma indústria. Que virasse uma produção em grande escala”, disse Talano.
O objetivo inicial era produzir o primeiro litro de leite em um ano. Eles investiram US$ 120 mil (R$ 656,4 mil na cotação atual) para instalar a planta e o laticínio, além de reunir um rebanho de jumentas, que hoje já chega a 300 animais e permite produzir cerca de mil litros por mês. “Já faz dois anos que estamos produzindo de forma regular”, aponta Muract.
O que vem agora é uma espécie de segunda fase para a Equslac. Com o processo produtivo consolidado e os produtos já no mercado, chegou o momento de fazer a empresa crescer. “Vamos criar unidades produtoras por meio de um sistema de franquias, em que cada produtor trabalhará sob nossos padrões para manter o controle de qualidade, e toda essa produção será direcionada para a nossa planta”, disse Talano.
Na avaliação dele, dos mil litros produzidos mensalmente hoje, é possível chegar a 2 mil litros já em agosto. “As possibilidades de crescimento do laticínio são muito rápidas porque é uma questão de adquirir novos animais”, afirmou. Para isso, a segunda etapa do negócio também inclui um passo mais ambicioso: a busca por investidores interessados em se tornar acionistas da empresa, o que dará mais força à expansão da planta industrial e do laticínio.
Atualmente, a Equslac fatura pouco mais de 300 milhões de pesos argentinos (R$ 1,2 milhões), valor que os fundadores esperam aumentar rapidamente com a entrada de novos sócios e com a ampliação da capacidade de produção. O ponto forte da Equslac não é competir com a indústria láctea tradicional. O leite de jumenta é indicado principalmente para crianças e idosos com Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV), e seu preço não é dos mais acessíveis.
No mercado local, custa cerca de 25 pesos argentinos por litro (R$ 0,10) — em média, seis vezes mais do que o leite de vaca. Na Europa, pode chegar a 45 euros (R$ R$ 284,40). Por isso, seu nicho está ligado a questões médicas. Hoje, o principal canal de vendas dos produtos da marca é o e-commerce, embora também estejam presentes em lojas de produtos naturais e dietéticos.
Segundo estimativas, há cerca de 20 mil crianças com alergia à proteína do leite de vaca na Argentina. Considerando que cada uma deveria consumir ao menos um litro de leite por dia durante pelo menos 180 dias, o potencial de mercado é interessante.
O país tem cerca de 250 mil jumentos em estado selvagem, ou seja, há animais suficientes para abastecer 100% do mercado. “Para atender crianças com essa condição, temos 56 vezes mais animais do que o necessário”, afirmou Losinno.
A outra frente do plano são as exportações. Na América do Sul, além da Equslac, há apenas uma empresa dedicada ao mesmo negócio, no Chile, onde o mercado está um pouco mais desenvolvido. Por lá, o leite de jumenta é encontrado nas prateleiras de alguns supermercados.
Atualmente, a empresa já recebeu propostas para vender seus produtos na Colômbia e nos Estados Unidos. Para isso, será essencial a entrada de novos sócios, a fim de elevar o nível de produção.
Também está em andamento uma nova inovação industrial: a produção de leite liofilizado, uma versão em pó, obtida por secagem a frio, que preserva todas as propriedades e proteínas da bebida.
As informações são da Forbes.