
O Dr. Daniel Scholl é norte-americano e médico veterinário formado pela University of California (EUA), em Davis (1987), com mestrado em epidemiologia pela mesma universidade em 1998. Após isso, foi para a Holanda, onde obteve seu Ph.D pela Universidade de Utrecht, concluído em 1992. Retornando aos Estados Unidos, foi contratado pela University of Lousiana, onde lecionou por 10 anos. Há 6 meses, mudou-se para o Canadá, assumindo um posto na University of Montreal, sendo nomeado o primeiro diretor da recém-formada Canadian Bovine Mastitis Research Network (Rede Canadense de Pesquisas em Mastite Bovina), uma rede que reúne 34 pesquisadores de 9 instituições e que tem o objetivo de reunir os recursos disponíveis para pesquisa em mastite bovina e orientá-la de forma a melhor suprir as necessidades dos produtores de leite. O Dr. Scholl esteve recentemente no Brasil, participando do 2º Congresso Panamericano de Qualidade do Leite e Controle de Mastite, em Ribeirão Preto (SP), e deu esta entrevista exclusiva ao site MilkPoint.
Como surgiu a idéia desta rede nacional de pesquisas em mastite ?
DS: O projeto começou há cerca de 2 anos atrás, sendo uma iniciativa de um pequeno grupo de pesquisadores em mastite da província de Quebec, onde fica a cidade de Montreal. Eles se basearam em outras redes de pesquisa já existentes e partiram do princípio de que seria vantajoso unir os recursos para pesquisa em mastite bovina. De lá para cá, outros cientistas se interessaram e se envolveram no projeto. Também, a Quebec Dairy Producers Organization (Associação dos Produtores de Leite de Quebec) concordou em apoiar o projeto, avaliar sua viabilidade, auxiliar no planejamento operacional e administrativo da rede e, finalmente, obter recursos para a rede se estabelecer, como de fato ocorreu.
Quais são os objetivos da rede ?
DS: A rede existe com o objetivo único de reforçar a pesquisa em mastite bovina no Canadá, porém de forma a beneficiar de maneira direta seu usuário e principal financiador, o produtor de leite. Em função disso, a pesquisa que desenvolvemos divide-se entre pesquisa básica, com benefício de longo prazo e que pode ser considerada de alto risco pelo fato de nem sempre resultar em tecnologias que possam ser utilizadas, e pesquisa realmente aplicada, por meio de experimentos de campo, em fazendas de leite, com ênfase em epidemiologia, que inclusive é o meu background técnico.

Os produtores de leite então acompanham de perto o trabalho desenvolvido pela rede ?
DS: Exatamente. Da forma como estamos fazendo, os produtores têm a oportunidade de desenvolver um senso de propriedade da rede. Os produtores sempre financiaram projetos de pesquisa com mastite, porém de forma isolada e individual. Desta vez, pedimos que eles financiassem - e eles concordaram - um programa completo de pesquisas em mastite. Eles podem se sentar conosco, avaliar as linhas de pesquisa que estamos desenvolvendo e efetivamente participar do processo, uma vez que são os donos da rede de pesquisas, junto com os governos da província e federal. Temos uma ligação muito forte com os produtores e sempre os mantemos informados sobre os nossos progressos.
Como os produtores financiam a rede ?
DS: Várias organizações de produtores no Canadá dedicam parte de sua receita para aplicação em pesquisa relacionada à produção. É daí que vem a maior parte de nossa verba.
Qual é a estrutura atual da rede ?
DS: Temos 34 cientistas, de 9 universidades e 1 laboratório federal, de várias províncias canadenses. Temos uma estrutura administrativa, que libera os demais pesquisadores para se concentrarem em pesquisa. Esta estrutura é composta por 3 pessoas. Eu sou o diretor, há uma coordenadora administrativa e de desenvolvimento, e um assistente científico, que coordena a comunicação e a movimentação dos recursos entre os pesquisadores. Um dos maiores benefícios da rede de pesquisas é a troca de informações e a divisão dos recursos, que seriam difíceis de ser realizadas de outra maneira, caso não existisse a Canadian Bovine Mastitis Research Network. Temos também um gerente de transferência de tecnologia, que é responsável pela comunicação com os produtores e com a indústria, especialmente empresas farmacêuticas, que têm o interesse de desenvolver licenças para produção de medicamentos a partir de nossas pesquisas básicas.
Não foi complicado reunir pesquisadores de diversas origens e correntes ? Não há às vezes conflitos e competição entre universidades e mesmo entre pesquisadores dentro de uma mesma universidade ?
DS: Foi um processo que consumiu bastante tempo, mas não foi difícil. Não pedimos a nenhum pesquisador que abandonasse algo que já fazia. Perguntamos se cada um queria fazer parte da rede. Ao sentarmos à mesa, ficou claro o que cada um poderia fazer e, assim, delineamos o programa de pesquisa em mastite, com horizonte de 5 anos. Vale lembrar que o programa é dinâmico e pode mudar. Estamos hoje procurando recursos para realizar os projetos previstos no programa, mas já estamos pensando nos próximos passos e no próximo programa, que será certamente diferente. É importante dizer que há pesquisa em mastite no Canadá, que não faz parte da rede. E isso não é porque os pesquisadores foram excluídos ou porque não quiseram participar. É simplesmente porque ainda houve condições para que se associassem à rede. Isso quer dizer que iremos crescer ainda mais.

O que a rede necessita para crescer ?
DS: Recursos para pesquisa. É isso que atrai pesquisadores. Se pudermos convencer os pesquisadores que, juntos, podemos obter recursos mais efetivamente, eles participarão da rede, pois essa é a maior limitação que eles têm de superar. É necessário observar que o governo federal normalmente não se interessa muito em financiar recursos para pesquisa em mastite, mas tem grande interesse em financiar pesquisas multi-institucionais, com alto grau de cooperação e perfil internacional. É justamente o que procuramos ser através da Canadian Bovine Mastitis Research Network.
Existe a possibilidade de interação com grupos de pesquisa fora do Canadá ?
DS: Há algumas possibilidades pelas quais essa interação pode ocorrer. Uma delas é pela nossa participação em eventos como esse, que permitem levar nosso projeto a diversos grupos de pesquisadores. Também, temos o interesse de convidar estudantes e profissionais que queiram participar de treinamentos em algumas áreas de pesquisa em mastite. Basta me contactar e informar a área de interesse, que tenho condições de direcionar para os melhores laboratórios. Como os pesquisadores se conhecem muito bem, o processo fica muito simplificado. Haverá também oportunidades para pesquisadores de fora virem aos nossos centros de pesquisa no Canadá para sabáticos e colaborações de curto prazo. O reverso também pode ocorrer: podemos enviar estudantes de doutorado, mestrado ou cientistas para outros laboratórios em outros países.

O que os produtores querem em relação à pesquisa em mastite ?
DS: Eles querem o mesmo que todos querem: que suas vacas não tenham mastite ! A partir daí, as opiniões variam muito. Alguns preferem que sejam desenvolvidas vacinas mais efetivas, outros querem tratamentos mais eficazes, outros preferem pesquisas que melhorem a prevenção. Eu diria que provavelmente há maior interesse em vacinas e em tratamentos do que em prevenção, apesar de sabermos que o enfoque mais apropriado seja relacionado à prevenção da mastite.
Qual a sua impressão sobre esse evento e sobre o Brasil ?
DS: Nossa participação nesse evento foi extremamente válida. Foi minha primeira vista ao Brasil e meu primeiro contato com a indústria leiteira brasileira. Eu não tinha idéia do tamanho da indústria do país e certamente foi muito positivo para a nossa rede. Fiquei impressionado com o público, não só do Brasil, mas de diversos outros países latino-americanos. Agradeço a oportunidade de ter apresentado a Canadian Bovine Mastitis Research Network e espero ver estudantes e pesquisadores do Brasil e dos demais países no Canadá, em nossos laboratórios de pesquisa.


Para entrar em contato com o Dr. Daniel Scholl:
Email: daniel.scholl@umontreal.ca