
MP: Como se deu o processo de associação entre a COONAI, CASMIL e COOPERCARMO?
DFF: Já faz um bom tempo que a COONAI estava procurando um parceiro. Desde que assumimos a cooperativa, em 1999, vínhamos sentindo a necessidade de fortalecer nossa estrutura buscando uma saída. Naquela época, fazíamos parte do Sistema Paulista, quando então se falava muito de integração, com a qual concordávamos e da qual procuramos participar. Porém, o negócio não evoluiu, infelizmente, e acabamos por nos desligar da Paulista no final de 1999. Neste período, tivemos contato com a CASMIL e com a COOPERCARMO e começamos a conversar, a nos conhecer e a nos aproximar. Não é uma mudança simples, sendo necessário um período longo de amadurecimento, porque cada cooperativa tem suas particularidades. Neste meio tempo, fomos fazendo nossa “lição de casa” por aqui, reestruturando a empresa, visando reduzir custos e profissionalizando a cooperativa. Quem avaliar nos índices de 3 anos para cá concluirá que melhoramos muito, a eficiência aumentou e os custos caíram. Chegamos então a um momento em que o próximo passo era este que foi dado com a criação da Cooperativa Central Leite Nilza.
MP: Esta fusão tem sido um dos únicos movimentos no sentido de fortalecimento das cooperativas nos últimos tempos. Você acha que o caminho é este ?
DFF: Esta é uma tendência mundial. As empresas estão se unindo para competir no mercado, diminuir custos. E isso não é só nas empresas privadas; nas cooperativas também ocorre este movimento. Acredito, portanto, que o nosso modelo pode vir a ser seguido por outras cooperativas, evitando o enfraquecimento do setor cooperativado, que é algo que temos visto. Nós não temos dúvida nenhuma que a cooperativa é a melhor forma de comercializar o leite e a maneira que nós encontramos foi a criação de uma Central.
MP: A Leite Nilza pode ser chamada de uma Cooperativa de Nova Geração, com participação diferenciada entre os cooperativados em função de volume ou capital investido ?
DFF: Ela se aproxima do que se denomina Cooperativa de Nova Geração. Porém, há a necessidade de acompanharmos a legislação nacional. A própria formatação de uma Central no Brasil oferece duas opções legais: ou a tradicional proporção de 1 singular:1 voto, ou a proporcionalidade por volume, que é o modelo que optamos. Nós temos uma Central, com 3 singulares com pesos diferentes. No nosso caso, a COONAI e a CASMIL têm 43% cada uma e a COOPERCARMO completa os outros 14%. Há contrato de fornecimento entre as 3 singulares para com a Central, significando também isto um avanço no modelo tradicional.
MP: E como fica o relacionamento entre as singulares e os seus produtores ?
DFF: Cada singular tem autonomia para atuar junto ao seu cooperado, uma vez que existem características regionais que dificultam a adoção de um padrão único. Nós acreditamos que é fundamental que, na captação, sejam mantidas as identidades de cada cooperativa, pois já há um contato muito forte junto ao produtor de cada local. Teríamos de amadurecer demais para ter uma entidade única, envolvida na captação.
MP: O que difere o modelo da Central Leite Nilza em comparação, por exemplo, com o Sistema Paulista, do qual a COONAI fazia parte ?
DFF: O principal é a questão da proporcionalidade. Na Paulista, se existem 20 cooperativas associadas, cada uma tem um voto. Uma cooperativa com 5.000 litros/dia, por exemplo, tem o mesmo peso ao votar do que uma cooperativa com 300.000 litros/dia. Evidentemente os interesses são distintos entre estas duas unidades, o que dificulta o funcionamento do sistema. No nosso caso, o poder de decisão é proporcional ao volume de recursos empregado na Central.
Outro aspecto que é interessante colocar é que toda a administração da Central é estritamente profissional, com profissionais contratados junto ao mercado. Há um presidente com representatividade política e um diretor geral que cuidará do dia-a-dia, sendo um executivo contratado, como toda a equipe da Central.
MP: Está prevista a ampliação da Central, com a associação de outras cooperativas ?
DFF: Sim, há esta possibilidade e já estamos recebendo contatos de outras cooperativas em fazer parte da Leite Nilza. Porém, como é um processo novo, de amadurecimento, fizemos inicialmente com três cooperativas, tanto para acomodar aspectos legais, visto que este número é o mínimo permitido para montar uma Central, como também para compor o volume e a estrutura que precisávamos. Após “a poeira baixar”, vamos partir para o crescimento, que deve envolver novas cooperativas.
MP: Está na moda a chamada “cooperativa virtual”, tendo como principal protagonista a Centroleite, de Goiás. O que você acha deste modelo ?
DFF: Eu acho que é um modelo bem viável, que pode ser trabalhado com sucesso. Mas, para isto ocorrer, é preciso que haja um comprometimento muito grande das cooperativas associadas. E este comprometimento não costuma ser muito forte; participa-se quando a situação está boa, mas quando a situação de mercado piora, a estrutura se enfraquece. Para uma Central como a nossa ser viável, é necessário ter o domínio, ela precisa ser dona de fato do leite das singulares na área de uma negociação. Se não for desta forma, eu não acredito em cooperativas virtuais ou outros modelos de associação.
MP: Estamos vivendo um dos piores momentos do mercado de leite dos últimos tempos. Até que ponto o problema é de mercado (excesso de leite) e até que ponto trata-se de um problema estutural, de organização da cadeia do leite ?
DFF: Sem dúvida é um problema estrutural. A produção de fato aumentou, mas ainda não é suficiente para abastecer a demanda. Com todas as medidas implementadas neste ano, se importou mais de 1 bilhão de litros de leite. Não creio que haja uma superoferta de produto. O problema está na nossa desorganização, na manipulação do mercado por parte de algumas indústrias e a força do setor varejista, que é muito grande. Há produtos que estão sendo trabalhados no varejo com 200% de margem. Isto não pode existir. De um lado, tem-se algo em torno de 800 mil produtores; no meio, tem-se cerca de 10 empresas que compram 80% do volume de leite e, no final, tem-se 5 empresas que vendem 60% do leite. A relação é muito desigual. Tudo isto leva a este problema pelo qual estamos passando. Qualquer boato é utilizado pelos elos mais fortes, com pressão para redução de preços e desarticulação do setor. Agora, é lógico que não podemos menosprezar o baixo poder aquisitivo da nossa população e a conjuntura econômica mundial afetando o mercado. De qualquer forma, o nosso problema é principalmente estrutural.
MP: Você é a favor de maior interfência do governo, como por exemplo tabelamento e preços mínimos ?
DFF: Não tenho uma opinião clara sobre isto. Acho que esta opção deve ser muito bem estudada, pois são mecanismos quase que impossíveis de se viabilizar na situação em que estamos hoje. Não é tão simples como tem sido falado. Acho que a solução do problema passa pela criação de CPIs, onde todos os setores e o consumidor possam refletir sobre o que está acontecendo com o mercado de leite. Seria um amadurecimento necessário para chegarmos a uma solução. Não consigo visualizar outro caminho que não o de colocar o setor para discutir seus problemas.
MP: Até que ponto o consumidor está sensibilizado para a questão do produtor de leite ?
DFF: Acho que não há sensibilização quase nenhuma, por isto a importância desta movimentação em torno das CPIs, sendo uma maneira de mostrar a um número maior de pessoas o que ocorre com nosso setor. Num determinado momento, a sociedade urbana irá se sensibilizar e entender que há a necessidade de manter os produtores no campo, pois são mais de 3 milhões de pessoas envolvidas na atividade leiteira, com óbvios impactos na sociedade urbana, caso haja uma desestruturação do segmento. Quando chegar este momento, a própria sociedade fará pressão para que a cadeia se ajuste. Isto já ocorreu em outros países do mundo e, mais adiante, ocorrerá por aqui também.
MP: Como fica a cooperativa num momento como este, em que precisa atender aos seus cooperados, mas ao mesmo tempo competir no mercado ?
DFF: No nosso modelo, as cooperativas singulares, como a COONAI, passam a ter preocupação maior com o produtor de leite, enquanto que a industrialização e a parte comercial ficam a cargo da Central. A COONAI estará focada na viabilização da atividade do nosso produtor, tanto em leite com em outros produtos. A Central tem que ter postura, agilidade e estrutura para brigar de igual para igual no mercado. Ela tem que realmente agregar valor ao leite para viabilizar o produtor das singulares. Ela, na verdade, não tem envolvimento nenhum com o produtor. Ela tem um contrato com uma singular, que indica a quantidade de leite a ser enviada por cada singular. O resto é com ela. Com este modelo, diminui-se um pouco o conflito existente entre competir no mercado e beneficiar os cooperados. Cabe à singular identificar também quais produtores são viáveis, porque não há espaço para viabilizar quem não tem aptidão, vocação ou condições estruturais para produzir. Não podemos vender uma ilusão; é preciso identificar estes produtores e procurar alternativas para eles. Mas estaremos bem mais próximos dos produtores.
MP: Vocês esperam uma pressão por parte do mercado, no sentido de procurar desestabilizar a Leite Nilza ?
DFF: Sem dúvida, pois a empresa é uma ameaça ao mercado e estamos já sentindo reações. Mas faz parte do jogo, sempre foi assim e vai continuar. Não há como ser diferente.
MP: Alguma previsão para reverter o problema de preço de leite ?
DFF: Não posso falar com uma certeza muito clara, mas nos parece que o pior mês do ano foi setembro, de forma que atingimos o fundo do poço. Além da redução do preço do leite, houve alta do milho, alta da soja e outros insumos, o que refletirá em queda na produção. Já estamos vendo produtores abatendo matrizes. Em função disto, nós achamos que não haverá um crescimento na produção nesta safra. Estamos observando também uma redução nos preços ao consumidor, embora não na mesma proporção, o que deve estimular o consumo. É muito cedo para afirmar, mas a última semana de setembro foi a pior até agora. Em outubro já houve uma recuperação, a qual não esperamos que seja uma bolha.
MP: O fato desta associação ter envolvido cooperativas de Minas Gerais e de São Paulo tem um significado especial no sentido de quebrar as tradicionais barreiras estaduais, que talvez tenham contribuido para impedir outras iniciativas ?
DFF: Eu acho que isto foi muito positivo. Eu volto a falar na tendência mundial. Há países se unindo para competir no mercado. Duas grandes cooperativas da Dinamarca e Suécia se fundiram e formaram uma cooperativa binacional. E nós vamos ficar alimentando richas internas? Não há a menor possibilidade de termos sucesso desta forma. Temos de pensar no país e no fortalecimento do setor cooperativado. Neste enfoque, eu acho que a criação da Cooperativa Central Leite Nilza trouxe um ganho a mais ao leite nacional.