A situação econômica da Argentina só vai melhorar em seis ou oito meses, estimou ontem o presidente da Associação de Empresas Brasileiras para Integração do Mercosul (Adebim), Michel Alaby.
Nesse período, é provável que as exportações brasileiras para o país vizinho continuem se comportando como no ano passado, quando caíram cerca de 25%, afirma Alaby. Nem as empresas brasileiras com unidades na Argentina, reforça Elói Rodrigues de Almeida, presidente do Grupo Brasil, estão conseguindo fechar vendas no país.
Rodrigues de Almeida relatou que o clima é de tensa expectativa em relação às medidas econômicas que serão anunciadas amanhã. O Grupo Brasil reúne 190 empresas verde-amarelas com unidades ou filiais na Argentina. Continua em vigor a determinação do Banco Central do país que proíbe remessas de recursos ao Exterior, situação que, segundo Almeida, paralisou os negócios entre os dois países.
Os brasileiros estão angustiados com a incerteza sobre como ocorrerá a saída do sistema de conversibilidade e qual será o percentual de desvalorização do peso. Segundo Almeida, há expectativa de que o novo governo determine um tratamento diferenciado para as empresas com origem nos países do Mercosul. Também aguarda-se a confirmação dos rumores sobre a instituição de um valor de transferência do peso específico para transações no comércio internacional.
Leite
A possível desvalorização do peso argentino está deixando em alerta o setor de lácteos brasileiro, especialmente os produtores de queijo. As importações de derivados de leite caíram 75% em dois anos, mas podem voltar a crescer com a mudança no câmbio.
Os produtos lácteos argentinos voltarão a ter "um poder de competição razoável" no caso de desvalorização da moeda, acredita o professor Guilherme Dias, da Universidade de São Paulo (USP). "Não há dúvida de que é um setor que voltará a ter presença (no mercado brasileiro)", diz.
No leite em pó, principal lácteo importado pelo Brasil, não deve haver mudança por causa do acordo que estabeleceu preço mínimo de US$ 1.900 por tonelada. "Porém, os outros dois principais produtos de importação, o queijo e o longa vida, estão desprotegidos", diz Wilson Massote, da Terra Viva Consultoria Empresarial.
Os argentinos têm ofertado o quilo do queijo prato a US$ 2,20 ao Brasil, segundo Cícero Hegg, diretor da Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (Abiq). Com uma eventual desvalorização de 20% a 30%, mais o frete e os impostos, o valor ficará pouco acima de R$ 5/kg, valor semelhante ao que as indústrias brasileiras ofertam ao varejo.
No caso do leite longa vida, o presidente da Associação Brasileira do Leite Longa Vida (ABLV), Almir Meireles, acredita que o impacto não será tão grande porque o Brasil vive um momento de superoferta de leite e preço baixo. "Os custos de frete não compensam a importação do longa vida", diz ele. "Pode haver problema localizado no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina"
A SanCor, maior laticínio argentino, não definiu sua estratégia para o Brasil se houver desvalorização do peso, diz o gerente Sergio Raineri. Até 2000, o Brasil representava 70% de suas exportações e, devido ao câmbio, a cooperativa partiu em busca de parcerias para produzir no país. "O contrato de abastecimento firmado com a Mococa continua", garante Raineri.
Rio Grande do Sul
Empresários gaúchos inquietam-se com os efeitos da desvalorização do peso sobre a competitividade argentina. Para Antonio Sartori, vice-presidente da Federação das Associações Empresariais (Federasul) e coordenador da divisão de agribusiness, serão mais afetadas as áreas de laticínios, carne e arroz.
Segundo o presidente da Associação Gaúcha de Laticinistas (AGL), Ernesto Krug, a produção do vizinho está tão deprimida e o câmbio tão desfavorável que não faz concorrência para o setor no Estado. Os produtores brasileiros, acrescenta, são mais prejudicados pelas operações triangulares executadas por empresas argentinas que importam o produto dos Estados Unidos e da Europa para exportarem ao Brasil com os benefícios tarifários previstos no âmbito do Mercosul.
Santa Catarina
Desde dezembro, as operações comerciais das agroindústrias do Oeste do Estado de Santa Catarina com a Argentina estão suspensas. O secretário geral da Federação da Agricultura do Estado de Santa Catarina (Faesc), Enori Barbieri, considerou inevitável uma desvalorização do peso em relação ao dólar, o que aumentaria a competitividade dos produtos argentinos.
Barbieri disse que, com a desvalorização do peso, a Argentina voltaria a ser uma concorrente forte dos produtos brasileiros. Isso teria um impacto principalmente nos setores de leite, soja e milho. Ele teme a queda de preços destes três produtos.
Outro motivo de apreensão é com as dívidas de empresas argentinas com as agroindústrias. Zonta destacou que houve uma redução de 50% nas vendas de carne para a Argentina, que foi substituída por outros mercados.
O presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados (Sindicarnes), José Zeferino Pedrozo, disse que, em virtude da conquista de outros mercados, as agroindústrias não estão sofrendo muito com a crise do país vizinho.
Fonte: Valor Econômico (por Alda do Amaral Rocha e Giuliano Ventura), Zero Hora (por Lúcia Ritzel e Marta Sfredo) e Diário Catarinense (por Simone Kafruni e Darci Debona), adaptado por Equipe MilkPoint
Crise argentina e seus reflexos no setor lácteo brasileiro
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