Cooperativas estudam reimplantar indústria beneficiadora de leite em SC

Publicado por: MilkPoint

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As cooperativas do oeste de Santa Catarina estudam a (re)instalação de uma grande indústria capaz de processar diariamente de 500 mil a 1 milhão de litros de leite, volume hoje entregue principalmente à Batávia, de Castro (PR), controlada pela Parmalat. Esse parece ser o único caminho para tentar recuperar o controle da cadeia produtiva e melhorar a remuneração dos 60 mil pequenos proprietários que têm no gado leiteiro uma fonte de renda segura. Para o presidente da Organização das Cooperativas de Santa Catarina (Ocesc), Luiz Hilton Temp, "o sucesso ou o fracasso econômico da atividade leiteira reflete-se de imediato no cotidiano de vasta parcela da população catarinense".

Os dirigentes cooperativistas catarinenses despertaram para o fato de que o leite deixou de ser uma atividade secundária no Estado. "A produção de leite virou o último refúgio de muitos agricultores que migraram de outras atividades, como a suinocultura e a avicultura", diz Temp. Atualmente Santa Catarina é o sexto maior produtor nacional de leite, superado por Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Devido a investimentos em genética e manejo, o rebanho leiteiro catarinense disputa com o Rio Grande do Sul a liderança nacional no rendimento - em torno de 1.800 litros anuais por vaca, mas, nos últimos meses, os produtores amargaram resultados desastrosos. De uma média de R$ 0,36 por litro, a remuneração dos produtores catarinenses caiu 36%, para R$ 0,23, entre julho e outubro passado.

Devido à insatisfação dos pecuaristas, houve, em novembro, a formação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) na Assembléia Legislativa para discutir os problemas do setor. CPI's leiteiras também foram criadas em outros estados produtores, que se uniram de forma inédita para combater, entre outros problemas, o poder de compra da indústria, acusada de operar sob a forma de cartel. A queda no preço ao produtor reflete o excesso de oferta, alegou a indústria, sem convencer os produtores catarinenses, que pressionam os órgãos de classe e os políticos em busca de uma solução.

Não há dúvida de que em 2002, com a disponibilidade total de leite em torno de 22 bilhões de litros - acima da produção de 2001, estimada em 21,3 bilhões de litros, o mercado interno deverá continuar saturado. Para sair do buraco, há várias propostas em discussão. Entre as mais importantes incluem-se a inclusão do leite na política oficial de garantia de preços mínimos; a criação de mecanismos financeiros de comercialização de produtos lácteos; a inserção do produto nacional em programas sociais e de merenda escolar; a regulamentação do Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite; e uma firme campanha para exportar - uma novidade para um país tradicionalmente importador de leite e derivados. Nos últimos 15 anos, afirma o presidente da Associação Brasileira do Leite Longa Vida, Almir Meirelles, o Brasil gastou US$ 10 bilhões com a importação de produtos lácteos. Num único ano do governo de José Sarney (1985-1990), o País gastou US$ 3 bilhões com leite, mais que a conta do petróleo.

Em 2001, mesmo sem ter deixado de importar o equivalente a 8% do consumo nacional de produtos lácteos, o Brasil exportou 100 milhões de litros de leite para alguns mercados emergentes na América Latina, África e Ásia. É sinal de que o País tem condições de sonhar com a virada. "Com o dólar a mais de R$ 2, nos tornamos competitivos", diz Temp.

"Para exportar, o Brasil tem de criar um padrão microbiológico que sequer foi esboçado", diz Meirelles, um dos autores da norma (a ser adotada em 2002) que obriga os produtores a entregar o leite resfriado à indústria, para evitar o desenvolvimento de bactérias durante o transporte das propriedades à indústria. No entanto, já está armado o lobby para adiar a entrada em vigor da norma. A alegação é que os pequenos produtores não têm recursos para bancar o investimento necessário à implantação da infra-estrutura de resfriamento. E assim estamos de volta à vaca fria: tem o Brasil condições de entrar para valer no mercado internacional de lácteos?

Ensanduichado entre o Rio Grande do Sul e o Paraná, ambos exportadores de leite, o produtor catarinense modernizou-se entregando o produto a indústrias de fora. Ancorada em grandes bases industriais em São Miguel do Oeste, Campos Novos, Palhoça e Itajaí, a infra-estrutura cooperativa de beneficiamento de leite no estado foi desativada em meados da década de 90, quando a maior parte dos produtores do oeste se conformou em entregar a produção à Batávia. Com o fim dos subsídios oficiais, a indústria de laticínios de base cooperativista afogou-se no mercado livre e não resistiu à competição exercida pela Argentina, no início do Mercosul.

Praticada sobretudo por empresas sem vínculos com o setor leiteiro, a importação indiscriminada acabou, mas pouco restou da estrutura montada pelo cooperativismo a partir dos anos 30. As únicas cooperativas que permanecem fortes são a Central Paulista e a Itambé, em Minas Gerais. Em Santa Catarina, a Cooperativa do Vale, com base industrial em Itajaí, processa 10% do que processava há cinco anos. O problema em discussão não é só econômico-financeiro mas social e, portanto, potencialmente político. Se não tiver meios de gerar renda em sua propriedade, o pequeno produtor abandonará o campo, engrossando as cidades. É por isso que o leite aparece como a nova fronteira de modernização do agronegócio catarinense.

Fonte: Gazeta Mercantil (por Geraldo Hasse), adaptado por Equipe MilkPoint
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