No final do ano passado, em quartos de hotel e estúdios fotográficos de Los Angeles, Londres e Nova York, um grupo de celebridades concordou em ser bombardeado com baldes repletos de café, leite, cacau e açúcar. Apesar da sujeira, do grude e do ocasional cheiro forte, eles estavam trabalhando para combater a pobreza mundial.
Michael Stipe, vocalista do R.E.M., foi coberto de leite em um anúncio da Oxfam America que critica o que a organização classifica como subsídios desleais à agricultura, por exemplo.
As sessões fotográficas foram organizadas pela empresa como parte de uma campanha publicitária cujo objetivo era conscientizar os Estados Unidos sobre o que a organização sem fins lucrativos descreve como natureza desleal dos subsídios à agricultura. A campanha insta países ricos como os Estados Unidos e as nações européias a abandonar o dumping de produtos agrícolas no mercado mundial, prática que, segundo a Oxfam, torna impossível aos fazendeiros de países pobres competir.
As celebridades que concordaram em ser alvo dos produtos derramados, atores e atrizes como Minnie Driver, Colin Firth e Antonio Banderas, os vocalistas do U2, Bono, do Coldplay, Chris Martin, do R.E. M., Michael Stipe, e do Radiohead, Thom Yorke, bem como a cantora Alanis Morrissette, dizem ter doado seu tempo à campanha porque acreditam que seja importante nivelar a concorrência para os países menos desenvolvidos. "As pessoas acreditam que mais assistência ajudará, mas não é o caso", disse Driver, atriz que está gravando seu segundo álbum como cantora. "O comércio internacional é a melhor maneira de reduzir a selvagem pobreza do mundo. Esses países precisam de condições justas de comércio".
Driver, cujo anúncio tem por tema o algodão, diz que se inspirou a participar da campanha da Oxfam depois de viajar com o grupo ao Camboja e à Tailândia no ano passado. Ela visitou fábricas de roupa onde mulheres, algumas das quais evidentemente doentes, trabalhavam por salários ínfimos e em condições precárias. Camboja e Tailândia não são países produtores de algodão, mas Driver disse que escolheu esse produto agrícola porque precisava se manter relativamente limpa depois da sessão de fotos, já que estava no meio da divulgação de uma peça, em Londres.
Os anúncios, fotografados por Greg Williams, famoso por seu trabalho com celebridades, serão publicados no final do ano em revistas de circulação nacional. A campanha está sendo produzida pela Benenson Janson Advertising, uma pequena agência de Los Angeles.
Críticas
Os esforços da Oxfam surgem em meio a críticas crescentes aos cerca de US$ 190 bilhões anuais em subsídios à agricultura concedidos pelos governos dos Estados Unidos, da União Européia e do Japão aos fazendeiros desses países, de acordo com estimativas da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Neste ano, os Estados Unidos gastarão 14 bilhões de dólares em subsídios aos setores de algodão, arroz, milho, soja e trigo, de acordo com o Departamento da Agricultura norte-americano.
Nos Estados Unidos, o foco principal da Oxfam é o impacto que os subsídios sobre o algodão e o arroz exercem nos mercados mundiais.
A Oxfam alega que subsídios multibilionários que, segundo eles beneficiam primordialmente grandes empresas e não pequenos fazendeiros, encorajam o excesso de produção e reduzem os preços que os produtores norte-americanos cobram por seus produtos no mercado mundial.
"Um produtor de algodão nos Estados Unidos tem custo da ordem de US$ 1,40 por quilo, ante US$ 0,90 para um produtor da África Ocidental", disse Raymond C. Offenheiser, presidente da Oxfam America, afiliada da Oxfam International, organização sediada em Oxford, Inglaterra. "O fazendeiro africano deveria ter vantagem, mas nossos subsídios permitem que o norte-americano venda abaixo do preço africano. Ele vende o algodão por preço bem inferior aos seus custos de produção".
Originalmente criados durante a Depressão para ajudar os fazendeiros a sobreviver e para promover o crescimento estável da agricultura norte-americana, os programas de subsídio continuaram em parte devido ao forte lobby dos grupos agrícolas. Os grupos argumentam que, além de ajudar os fazendeiros, os subsídios servem aos consumidores, porque mantêm baixos os preços dos bens industrializados. A Oxfam, porém, afirma que o impacto da redução dos subsídios sobre os preços ao consumidor seria minúsculo.
Fonte: Folha de S.Paulo (por Melanie Warner), adaptado por Equipe MilkPoint
Campanha publicitária ataca subsídios agrícolas
Publicado por: MilkPoint
Publicado em: - 3 minutos de leitura
Publicado por:
MilkPoint
O MilkPoint é maior portal sobre mercado lácteo do Brasil. Especialista em informações do agronegócio, cadeia leiteira, indústria de laticínios e outros.