Calor extremo e estresse térmico geram desafios na produção leiteira da Índia

O aumento dos rendimentos e dos níveis populacionais indianos significa que a procura de produtos lácteos deverá crescer no país. No entanto, o calor extremo significa que as vacas comem menos, produzem menos leite, têm dificuldade em conceber e produzem menos descendentes vivos, dizem os especialistas, enquanto os agricultores gastam mais a tentar manter os animais frescos e férteis.

Publicado por: MilkPoint

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Durante um verão intenso na Índia, o produtor de leite Neeraj Bharadwaj enfrentou nascimentos prematuros em suas vacas, um fenômeno ligado às mudanças climáticas. O setor de laticínios, vital para a economia indiana, enfrenta desafios com o calor extremo, que reduz a produção e aumenta os custos. Investimentos em adaptações são difíceis para pequenos agricultores. Cientistas buscam desenvolver gado mais resistente ao calor, mas a transição é lenta. O estresse térmico também afeta o mercado de seguros rurais, que não resolve todos os problemas enfrentados pelos agricultores.
Durante um verão de calor extremo, com temperaturas superiores a 40º C no ano passado, tal como acontece atualmente no norte da Índia, o produtor de leite Neeraj Bharadwaj viu uma das suas vacas dar à luz um bezerro meses antes do tempo. O recém-nascido era pequeno e quase sem pelos. As pessoas diziam que não sobreviveria, mas Bharadwaj deu-lhe leite a de mamadeira até ele se recuperar.

Os cientistas afirmam que estes nascimentos prematuros fazem parte de um padrão mais vasto de verões cada vez mais intensos, associado às alterações climáticas. A pequena exploração de seis vacas de Bharadwaj, perto de Deli, é típica de milhões na Índia, país que é o maior produtor mundial de laticínios, responsável por quase um quarto do abastecimento global, onde a maior parte do leite vem de fazendas com dois a cinco animais.

O setor de laticínios representa cerca de 5% do PIB da Índia e apoia mais de 80 milhões de agricultores. O aumento dos rendimentos e dos níveis populacionais significa que a procura de produtos lácteos deverá crescer — o Governo estima que poderá quase duplicar até 2050.

Mas o calor extremo significa que as vacas comem menos, produzem menos leite, têm dificuldade em conceber e produzem menos descendentes vivos, dizem os especialistas, enquanto os agricultores gastam mais a tentar manter os animais frescos e férteis. “A produção de leite cai quase 30% durante o calor extremo”, disse Bharadwaj, descrevendo como a queda da produção e o aumento dos custos de refrigeração estavam a corroer constantemente os seus ganhos.

Durante décadas, o aumento da produção de leite foi uma das maiores histórias de sucesso agrícola da Índia, impulsionada por programas de cruzamento destinados a aumentar a produtividade e a satisfazer a crescente procura urbana. A produção de leite da Índia atingiu um recorde de 239 milhões de toneladas no ano fiscal de 2023-24, um aumento de quase 64% numa década, de acordo com dados do Governo.

Investigadores, especialistas em laticínios e agricultores dizem que o aumento do calor expõe discretamente as vulnerabilidades desse modelo. Os cientistas do National Dairy Research Institute (NDRI) afirmam que o estresse térmico reduz a ingestão de alimentos e desvia a energia das vacas da produção de leite e da reprodução. Os bovinos de alto rendimento são particularmente vulneráveis porque os seus metabolismos já geram grandes quantidades de calor interno.

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Segundo os investigadores, o estresse térmico provoca mais abortos espontâneos e também reduz o teor de gordura do leite. Isto prejudica os agricultores que são pagos de acordo com a quantidade de gordura e de sólidos no leite que vendem. Em resposta, os agricultores gastam mais em rações especializadas, mais em água e eletricidade para tentar arrefecer os seus animais. Bharadwaj gastou cerca de 200 mil rupias (1810 euros) a modificar os seus barracões de gado com coberturas de lona e sistemas de ventilação concebidos para reduzir o estresse térmico, enquanto a manutenção anual acrescentou mais 50 mil rupias para reparar os danos causados pelas tempestades frequentes.

Pankaj Navani, um empresário do setor de laticínios e consultor que trabalha na adaptação climática da pecuária, afirmou que os operadores de laticínios organizados de maior dimensão em estados como o Punjab se adaptaram mais rapidamente porque tratam cada vez mais os laticínios como um negócio comercial, investindo em sistemas de refrigeração, ventilação e gestão de alimentos para animais.

Mas esse investimento é difícil para a maior parte dos produtores de leite, que têm apenas um pequeno número de cabeças de gado e um capital limitado. “As pequenas propriedades leiteiras de quintal, com duas a quatro vacas, são susceptíveis de diminuir”, afirmou Navani.

Reduzir o estresse térmico

Abhinav Gaurav, conselheiro principal para os laticínios sustentáveis no Environmental Defense Fund India, uma organização sem fins lucrativos sediada em Deli, afirmou que os agricultores eram mais propensos a investir em práticas resistentes ao clima se vissem ganhos económicos claros, mas que isso era difícil para as famílias que já lutavam com margens cada vez menores.

O NDRI está trabalhando em várias formas de reduzir o estresse térmico, incluindo a criação de gado mais tolerante ao calor, a melhoria da concepção dos pavilhões e o desenvolvimento de estratégias de alimentação que reduzam o estresse metabólico. Recentemente, os cientistas desenvolveram e registaram uma raça de gado resistente ao calor, concebida para manter a produtividade do leite em condições mais quentes, embora afirmem que a disseminação de tais intervenções em milhões de pequenas explorações agrícolas levaria tempo.

Os búfalos contribuem com quase metade da produção de leite da Índia, mas os cientistas dizem que são particularmente sensíveis ao calor extremo porque dependem muito da água e do chafurdar para regular a temperatura corporal. Os búfalos, que antes só precisavam de ser refrescados durante alguns meses de Verão, necessitam agora de apoio ao arrefecimento de março a novembro, segundo a investigação do NDRI.

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De acordo com os dados governamentais relativos à pecuária, o gado cruzado com raças estrangeiras é responsável por uma grande parte da produção de leite da Índia devido à sua maior produtividade, enquanto as raças locais contribuem com uma parte menor, mas são cada vez mais consideradas por alguns agricultores como mais bem adaptadas ao aumento das temperaturas. Bharadwaj disse que escolheu raças indianas como a Tharparkar porque são mais resistentes ao calor extremo e requerem menos intervenções médicas do que as raças estrangeiras.

No entanto, os investigadores alertam para o fato de as raças indianas não poderem, por si só, resolver o desafio do setor leiteiro na Índia a longo prazo. O sistema leiteiro do país foi construído em torno do aumento da produtividade para satisfazer a procura crescente. E os bovinos de menor rendimento podem ter dificuldade em sustentar o consumo futuro sem melhorias mais amplas na criação, nos sistemas de refrigeração, na gestão dos alimentos para animais e na saúde animal.

As repetidas ondas de calor também começaram a remodelar partes do mercado de seguros rurais da Índia, com as empresas a oferecerem agora produtos ligados especificamente ao estresse térmico do gado. A IBISA, uma companhia de seguros climáticos sediada no Luxemburgo que oferece uma cobertura paramétrica para o gado que aciona automaticamente os pagamentos quando as temperaturas ultrapassam limiares pré-definidos, afirma ter segurado mais de 360 mil cabeças de gado em quatro estações de calor na Índia, pagando o equivalente a mais de 310 mil euros aos agricultores afectados por perdas de produtividade devido ao calor extremo.

Mas os funcionários da empresa dizem que o seguro só pode proteger parcialmente os agricultores do aumento do calor. “O que os agricultores precisam não é apenas de um seguro. Os agricultores precisam de se adaptar ao calor e de se tornar resilientes”, afirmou Maria Mateo, directora-geral do IBISA.

De volta à sua fazenda perto de Deli, Bharadwaj está enfrentando outro verão difícil. A alimentação terá que ser ajustada e será necessário gastar mais dinheiro em suplementos e refrigeração. Para ele, as alterações climáticas passaram a fazer parte da economia cotidiana da produção de leite. “Somos um dos líderes mundiais na produção de leite, mas estamos também entre os mais vulneráveis às alterações climáticas”, afirmou.

As informações são do Público, adaptadas pela equipe MilkPoint.

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