Essa constatação é reforçada por um estudo realizado com 51 unidades de produção leiteira do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, que avaliou de forma sistemática os efeitos da adoção dessas práticas sobre a qualidade do leite cru refrigerado. Desenvolvida na área das Ciências Agrárias, a pesquisa foi conduzida por Jeferson Aloísio Ströher (UFRGS), com coautoria de Aline Marjana Pavan (Univates), Isaac dos Santos Nunes (UFSM), Anderson Santos de Freitas (USP) e Patrícia da Silva Malheiros (UFRGS), e publicada em 2025 na Revista de Investigación Agraria y Ambiental.
O trabalho foi realizado em propriedades vinculadas a uma agroindústria de laticínios da região e integrou as ações do Plano de Qualificação de Fornecedores de Leite (PCPL), instrumento previsto pela legislação brasileira para promover melhorias contínuas na cadeia produtiva. O objetivo central foi avaliar os efeitos da implementação das boas práticas agrícolas sobre parâmetros microbiológicos e físico-químicos do leite, além de caracterizar o perfil socioeconômico dos produtores envolvidos.
A pesquisa parte de um contexto mais amplo: embora o Brasil esteja entre os maiores produtores de leite do mundo, ainda enfrenta desafios significativos relacionados à qualidade e à segurança do produto, especialmente no segmento da agricultura familiar.
O método adotado combinou inspeções técnicas em campo, análises laboratoriais e levantamento de dados socioeconômicos. As 51 propriedades foram visitadas duas vezes ao longo de um ano. A primeira visita teve caráter diagnóstico. Nessa etapa, foram coletadas seis amostras de leite cru refrigerado em cada propriedade e aplicadas listas de verificação baseadas na Instrução Normativa nº 77 do Ministério da Agricultura, que estabelece critérios para a adoção de boas práticas agropecuárias.
Ao todo, foram avaliados 16 itens relacionados a higiene da ordenha, manejo dos animais, controle de insumos, qualidade da água, bem-estar animal e organização do processo produtivo. Também foram aplicados questionários estruturados para levantar informações sobre escolaridade, estrutura produtiva e condições socioeconômicas das famílias.
A segunda visita seguiu o mesmo protocolo metodológico e teve como foco verificar os ajustes implementados pelos produtores após as orientações técnicas recebidas. Durante ambas as visitas, as rotinas de trabalho foram acompanhadas ao longo de um turno completo de ordenha, com inspeções visuais sistemáticas e coleta de amostras de leite enviadas para análise no laboratório da Rede Brasileira de Laboratórios de Controle de Qualidade do Leite, em Lajeado (RS).
Foram avaliados parâmetros como contagem padrão em placas, contagem de células somáticas, teor de gordura, proteína, lactose, sólidos totais e sólidos não gordurosos, além de testes de acidez, crioscopia, densidade e estabilidade ao alizarol. A análise estatística dos dados foi realizada com o uso do software R, permitindo comparar os resultados obtidos antes e depois da implementação das boas práticas.
Os resultados indicam avanços na qualidade do leite após a adoção das BPA. Um dos dados mais relevantes diz respeito à contagem de células somáticas, indicador diretamente associado à saúde da glândula mamária e à ocorrência de mastite.
Na primeira visita, apenas 17,64% das propriedades apresentavam valores dentro do limite estabelecido pela legislação brasileira. Após as melhorias implementadas, esse percentual saltou para 82,35%, com uma redução significativa da média de células somáticas, que caiu de 988 mil para 303 mil células por mililitro.
Segundo o estudo, essa redução “representa uma diminuição de mais da metade”, evidenciando o impacto positivo das práticas de higiene e manejo na prevenção da mastite e na qualidade do leite produzido.
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As informações são do Valores do RS.