
A Fazenda Paraíso, em São João da Boa Vista (SP), é das mais tradicionais representantes da raça Holandesa no Brasil, com mais de meio século de atividade. A tradição, além de garantir um rebanho selecionado e de reconhecida qualidade, não impediu que a fazenda modernizasse sua gestão e alcançasse índices de produtividade que a colocam entre as mais eficientes do país. Mas não foi sempre assim: há 4 anos atrás, a fazenda considerou encerrar as atividades caso não vislumbrasse um horizonte melhor para a atividade. Quem comandou a virada foi o médico veterinário Angelo Carluccio Neto, gerente da empresa, contratado com a missão de colocar a Paraíso na rota do lucro, fazendo jus à sua grande tradição. Carluccio é médico veterinário formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRJ, em 1985, com pós-graduação em administração de empresas pela FAAP, em 1999. Atuou como veterinário da cooperativa de Santa Rita do Sapucaí (MG), de 1986 a 1987, posteriormente trabalhou junto ao departamento técnico da empresa Lagoa da Serra (1987 a 1989), atuou em um período como autônomo (1989 a 1992), foi gerente de rebanho da Companhia Agrícola Nova América (1992 a 1998) e, desde então, é gerente da Fazenda Paraíso.
Em entrevista exclusiva, Carluccio conta o que ocorreu nestes 4 anos à frente da fazenda e também aproveita para "desabafar", frente ao difícil momento que a pecuária leiteira vive no país, sem deixar de dar suas sugestões para que o setor saia da crise em que se encontra.
A Fazenda Paraíso possui grande tradição e faz parte da história da pecuária de leite no Brasil, especialmente da raça holandesa. O Sr. pode nos contar um pouco desta trajetória ?
ACN: A história da fazenda junto à raça holandesa data de 1947, através da compra de um touro Holandês que cobria as vacas sem raça definida. Logo depois, foram adquiridas matrizes da raça Holandesa, tanto no Brasil como no exterior.
Todos os recursos disponíveis para garantir o melhoramento genético passaram a ser utilizados, tanto que a fazenda foi pioneira na utilização da inseminação artificial, participando das primeiras investidas da técnica no Brasil, no tempo em que o sêmen nem era congelado. Há mais de 30 anos se faz controle leiteiro e registro genealógico. Tudo isso fez com que a Fazenda Paraíso conquistasse um espaço sólido entre os criadores, chegando a conquistar a posição de Melhor Criador Nacional na EXPOHOL (Exposição Nacional da Raça) de 1987. Hoje 100% dos animais da Raça Holandesa são PO (puro de origem).
Em 1992, a empresa decidiu aumentar a escala de produção e transformou os 4 estábulos de manejo, que abrigavam cerca de 300 matrizes em produção, mais suas crias, em um único centro de manejo, aumentando a capacidade para então abrigar e ordenhar 500 vacas, fora suas crias. Nesta ocasião, a fazenda deixou de vender animais, para aumentar seu rebanho. A decisão, à época, foi de crescer sem comprar nenhum animal.
No ano passado, ordenhamos em média 480 vacas em lactação, com média anual de produção diária total próxima de 14.000 litros. O rebanho total é de 1100 cabeças, todas PO. Neste ano, o rebanho se estabilizou e a fazenda voltará a comercializar fêmeas do mesmo nível genético e com grande quantidade. Para isto, iniciamos um grande e arrojado programa de multiplicação genética através de transferência de embriões. Nosso objetivo é vender anualmente 400 matrizes e 200 tourinhos, a partir de 2003.
Qual é o sistema de produção adotado ?
ACN: Utilizamos, para as vacas em produção, o sistema de confinamento total em barracão do tipo "Freestall", com camas de areia, divisórias em "U", canzis de contenção, solário para observação de cio, caixas de decantação para separar e utilizar o esterco sólido na lavoura, etc. O sistema de controle de estresse térmico é realizado com ventiladores de 0,5 CV posicionados a cada 10 metros, em linha, sobre as camas e sobre os canzis, e nebulização de água em gotas pequenas.
A sala de ordenha é uma poligonal 6x4, com 24 unidades de ordenha simultânea. Esta máquina pode não ser a mais moderna, mas permite que 2 ordenhadores por turno (são 3 turnos fazendo 3 ordenhas diárias), realizem a ordenha de todo o rebanho e façam a limpeza e a manutenção preventiva. Utilizamos também extrator automático de teteiras e controle informatizado de coleta de dados.
Quais as principais vantagens e desvantagens deste sistema ?
ACN: A grande vantagem é a facilidade operacional. Estou muito satisfeito com a qualidade da construção, pois ela permite que 17 colaboradores, ligados ao manejo do rebanho, com um reduzido número de horas extras e incluindo o cobridor de férias (isto inclui os trabalhos na Fábrica de Ração e criação) explorem muito bem o potencial produtivo das vacas. Hoje, nossas 560 matrizes têm média de 10.100 kg de Equivalente Adulto, em 305 dias, pelo controle oficial de dezembro de 2001. Outros sistemas, em condições tropicais, não permitem este nível de performance. Para nós, que conduzimos um trabalho de melhoramento genético, é fundamental localizar os melhores indivíduos e reproduzi-los para reposição de nosso rebanho e disponibilizá-los no mercado. A grande desvantagem é a necessidade de grande capital para investimento.
Que índices de eficiência a fazenda monitora e com que freqüência ?
ACN: Dividimos nosso controle em administrativo e zootécnico. Monitoramos os custos de produção e resultados financeiros através de um plano de contas, que nos fornece informações confiáveis para tomarmos decisões. Estas informações são compartilhadas com todos os colaboradores, já que nosso "Prêmio de Remuneração por Resultado" tem base em índices financeiros e não índices técnicos. Os índices técnicos servem de indicadores para nos orientar sobre estarmos ou não no rumo correto para alcançar os índices financeiros prometidos nas previsões orçamentárias.
Estes índices zootécnicos são atualizados diariamente e expostos para todos os funcionários, no que chamamos de "Placar". Esta planilha contém:
a- produção total diária;
b- média de produção diária;
c- consumo diário, por lote;
d- conversão alimentar;
e- índice de mastite;
f- número de partos;
g- taxa de partos ajudados e natimortos;
h- taxa de problema de casco;
i- ocorrência das principais doenças, como por exemplo retenção de placenta, problemas metabólicos, tristeza bovina, diarréia, pneumonia;
Em 1998, houve uma alteração gerencial significativa na propriedade. Porque ela ocorreu e o que exatamente vem sendo feito desde esta data ?
ACN: A principal razão para a alteração gerencial foi profissionalizar a administração. A performance produtiva não estava compatível com o potencial genético do rebanho e consultores diagnosticaram que o problema era de manejo e aplicação de técnicas. Com baixa produtividade e várias operações ineficientes e desnecessárias, os prejuízos eram muito altos, mesmo nas fases de preços de leite melhores.
Quais foram as principais evoluções obtidas desde então ?
ACN:Os níveis de produção médios estavam em torno de 22 kg de leite por vaca em lactação por dia, na média do ano. Quando assumimos a fazenda, eram ordenhadas cerca de 380 vacas, produzindo 18 kg de leite/vaca/dia. Em 30 dias, a média subiu para 25 kg e agora atravessamos o ano passado com média diária anual de 30 kg/vaca em lactação/dia. Anteriormente, havia 30 funcionários em toda a estrutura, sem folga "formal" e fazendo 2 ordenhas por dia.
A contratação de técnicos agrícolas comprometidos com os resultados da empresa para os cargos gerenciais, a modernização de técnicas de manejo nutricional e sanitário, e um programa contínuo de treinamento da mão-de-obra, foram os grandes diferenciais.
Há o interesse de aumentar ainda mais a escala de produção ?
ACN: No momento em que os produtores de leite vivem as consequências de uma grande falha na estrutura da cadeia produtiva de leite, existente há dezenas de anos, não pensamos em ampliar. Entendemos que 4.500.000 de litros por ano é suficiente, mas a ampliação pode ocorrer a qualquer momento, desde que as garantias socio/politico/econômicas do país nos acenem positivamente.
Com os atuais custos de insumos e preços recebidos pelo leite, é possível dizer que, funcionando da forma anterior, a fazenda teria parado de produzir leite ?
ACN: Sem a menor sombra de dúvidas. Tanto que o desafio do novo grupo de gestão era reverter a situação em um ano, caso contrário o rebanho seria liquidado. Fomos felizes por aplicar as reformas em um momento em que o preço do leite encontrava-se em níveis mais altos do que os atuais.
Como funciona o projeto de transferência de embriões mencionado ?
ACN: Nosso programa de TE para a Raça Holandesa já era bastante grande, com média de 40 coletas por mês, mas havia ainda disponibilidade de tempo para a equipe ser melhor utilizada. Desta forma, decidimos selecionar matrizes Holandesas de alta produção e fenótipo funcional (bom úbere e boas pernas), mas sem o "refinamento" solicitado pelos criadores da Raça Holandesa, e inseminá-las com os melhores touros da Raça Gir Leiteiro, segundo o teste de progênie da Embrapa. Desta forma, com o aumento da escala na produção de embriões, conseguimos reduzir os custos dos embriões e colocar no mercado gado girolando da mais alta qualidade, a custos comerciais e acessíveis para os criadores. Com isto, estamos contribuindo para mudar o parâmetro produtivo da raça Girolando no País.
A Fazenda Paraíso também está fazendo trabalhos com parceiros para coletar doadoras (inclusive de outras raças) e fazer prenhez para outros criadores com embriões produzidos ou descongelados por nós. Este projeto consiste em receber em nossa fazenda as novilhas de recria dos colegas criadores. Aqui, nos responsabilizamos por todo o manejo e, no lugar de inseminarmos as novilhas, implantamos embriões de alto nível genético. Uma vez diagnosticada a prenhez e sexado o feto, devolvemos a novilha para seu criador. Isto permite um grande salto genético a custos surprendentemente baixos. Temos trabalhado com os criadores de Girolando que ficam sem saber com o que inseminar as novilhas ¾, para garantir a rusticidade e produtividade.
O Sr. acha que o futuro da produção de leite está nos animais mestiços, explorados a pasto, com utilização reduzida de insumos ? Em outras palavras, fazendas como a Paraíso estão em uma "armadilha tecnológica" ?
ACN: Como os projetos no Brasil têm que ser iniciados e mantidos com baixo capital investido, o sistema a pasto ou o semi intensivo apresenta condições mais vantajosas. Pensando assim, os animais mais rústicos podem ter melhor performance. Esta é uma linha que vem crescendo muito nos últimos tempos. Temos acompanhado esta evolução e acreditamos que com o grande desenvolvimento das técnicas de nutrição (incluindo manejo de pastagens) e manejo sanitário, em curtíssimo prazo de tempo, para não falar agora, o baixo potencial genético para produção, com comprovação técnica, será um limitante para os lucros dos produtores. Esta idéia é a que nos move a investir no Girolando. Certamente a Raça Holandesa sempre terá seu espaço nos módulos de manejo mais sofisticados e para servir de base para o Girolando.
A "armadilha" em que os produtores de leite se encontram não é tecnológica, mas mercadológica. A falta de equilíbrio de forças para a negociação entre produtores, laticínios e varejo, com a negligência de nossos governantes para o problema que é econômico, social e de saúde pública, gera rebaixamento de preços tão abusivos, que inviabiliza a exploração profissional da atividade. Desta forma, ficarão os oportunistas (safristas), amadores e informais. Esta estrutura nunca dará confiança para os potenciais compradores estrangeiros a pensarem em reduzir as medidas protecionistas para importarem lácteos brasileiros.
Como é a sensação de produzir leite de alta qualidade, em escala e com tecnologia, em um mercado que, em geral, não remunera os custos de produção ?
ACN: É frustrante saber que produzimos algo que será o caminho para o desenvolvimento da atividade, no futuro, mas este é jogado na vala comum dos produtores não profissionais, por descaso dos nossos dirigentes.
Fico triste por conhecer tantos e tantos produtores profissionais que liquidaram seus rebanhos, mesmo sem alternativas melhores, mas sem aguentarem os prejuízos. Será que a alta incidência de falências representa que todos os produtores profissionais são incompetentes, ou há algum erro na estrutura da cadeia produtiva? O perfil dos que ficam atende aos interesses nacionais?
As empresas privadas da indústria de laticínios e varejo não estão erradas de se aproveitarem da fragilidade política dos produtores e da falta de regulamentação e fiscalização do governo. Eles estão fazendo a lição de casa corretamente. Nós, enquanto produtores e cidadãos brasileiros, é que temos que nos mobilizarmos com urgência para fazer valer nossos interesses. No lugar de criticarmos estas empresas, teríamos que tentar imitá-las, para criar equilíbrio de negociação. O Governo, conhecendo as dificuldades dos produtores, tem a obrigação de intervir. Não para proteger para sempre, mas para facilitar uma reação que instale o equilíbrio.
Não é fácil negociar um produto que não pode ficar em seu estoque mais que 48 horas. Não é fácil mobilizar politicamente em curto espaço de tempo, uma classe que faz parte de um povo culturalmente passivo politicamente e de formação acadêmica baixa. Ainda por cima composta por 1,8 milhão de produtores geograficamente espalhados em um país de extensões continentais, fornecendo para poucas dezenas de compradores.
A situação é grave! Pois temos estatísticas que mostram que a produção brasileira vem aumentando, mas não mostra que aumenta na informalidade, na clandestinidade e na contravenção. Isto é bom para quem?
Na sua opinião, qual a saída para a crise do setor ?
ACN: O Brasil tem grandes condições para ser o mais eficiente país do mundo em produção de leite e com isso gerar riqueza e trabalho para seu povo.
Um problema estrutural não é resolvido com uma ou duas ações, mas posso relacionar algumas sugestões focando os produtores profissionais:
1- Preço mínimo:
A aplicação do preço mínimo, ajustado com o mercado internacional de leite não subsidiado deveria ocorrer por um prazo limitado, negociado com os produtores, de forma que eles, junto com o governo, se organizem e enfrentem as leis de mercado em igualdade de condições com os outros elos da cadeia.
Sem esta medida emergencial, que impediria a falência do setor, ocorrerá o mesmo que no setor de energia elétrica, ou seja, perda total do controle. Em breve retornaremos aos níveis de importação anteriormente observados.
Os líderes têm que ter coragem de assumir que situações fora do controle podem demandar ações que contrariam os discursos econômicos modernos.
2- Reestruturação e Fomento ao Cooperativismo:
Esta é a única saída não protecionista. Porém, para que o cooperativismo tenha sucesso, haverá necessidade de educar os produtores a trabalharem pelo coletivo e envolver profissionais do setor, na gestão das entidades. Desta forma, os produtores ganhariam poder de barganha e possibilidade de entrada no mercado externo com produtos de maior valor agregado.
3- Mobilização Política dos Produtores:
Novamente um trabalho de educação sério deveria mostrar as vantagens de se articularem politicamente. As vantagens não seriam só para os produtores, mas para a economia do país e para a sociedade.
As soluções dos problemas do país esbarram sempre no crescimento da economia, mas o crescimento da economia brasileira, e não estrangeira.
4- Leite Nacional Para Planos do Governo:
É sabido que a população tem baixo poder aquisitivo, e não se alimenta corretamente. Assim, ao invés de abaixar o preço e a qualidade da matéria prima, para ajustar o valor de compra, o governo deveria oferecer subsídios para que esta parte da sociedade beba leite, aumentando a demanda do mercado interno;
5- Abertura de Mercado Internacional:
Melhorar a qualidade do leite brasileiro, para termos condições de certificar a origem de nosso produto e ter competitividade externa.
E o que os produtores devem fazer ?
ACN: Em curtíssimo prazo, sugiro que os produtores, mesmo os informais, procurem as entidades de representação de classe, ou as crie se não houver, como foi o caso da criação da LEITE SÃO PAULO, Associação dos Produtores de Leite de São Paulo, LEITE BRASIL e LÁCTEA BRASIL para transformarmos nossas reclamações em ações produtivas. Ofereço, enfim, os contatos com a Fazenda Paraíso para maiores informações sobre o rebanho ou sobre a LEITE SÃO PAULO.
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