2011: o ano do leite no Uruguai
Em um ano em que muitos setores agropecuários mostraram resultados medíocres em seus volumes de produção, o setor leiteiro do Uruguai alcançou o melhor registro de sua história em termos físicos, financeiros, em porcentagens de crescimento, em exportações, em preços, em qualquer indicador que se utilize para medir um setor de atividade.
Publicado por: MilkPoint
Publicado em: - 6 minutos de leitura
A produção em 2011 deu um salto alto, mas a produção de leite no Uruguai vem crescendo de forma sustentada há cerca de quarenta anos. A produção se multiplicou por seis desde então, mais que triplicou nas últimas duas décadas e meia e, exclusivamente pelos avanços na produtividade, já que não aumentaram a área destinada ao setor nem o número de animais nesse período. O que ocorreu de fato foi o contrário: diminuiu a superfície leiteira em 300 mil hectares entre o final dos anos noventa e os últimos anos (de 1,1 milhão para 800 mil) e o número de vacas subiu em apenas 20% nos últimos 25 anos. A produção por hectare aumentou em 300% em 25 anos e a produção de leite diária por vaca passou de menos de 10 litros - até o fim da década de oitenta - para mais de 16 litros atualmente.
Simultaneamente, foi baixando o número de produtores, os estabelecimentos foram se tornando maiores em área e em volumes produzidos. Essas tendências concentradoras parecem ter se moderado nos últimos anos.
O grande competidor pela terra nos últimos exercícios tem sido o setor agrícola, que agora está dando sinais de exaustão.
Em 2011, os aumentos produtivos foram obtidos sem que tenha havido um clima particularmente favorável, já que as áreas mais propriamente leiteiras do país sofreram uma severa seca no verão passado, com a sequela inevitável de perdas forrageiras, aumentos de custos de produção e acometimento no estado e produtividade do rebanho.
No entanto, os produtores de leite, estimulados pelo aumento do preço do leite, trabalharam para obter volumes utilizando ferramentas tecnológicas que desenvolveram para lutar contra os cenários adversos.
Também há outros fatores envolvidos. O mais importante é o conceito de permanência e continuidade que tem incorporado os produtores e a indústria leiteira. Essa consciência de que os tempos ruins são também passageiros os obriga a defender suas trincheiras e fortalezas, sem se desarmar, esperando a volta.
Assim, superaram a grave crise de preços e também climática que sofreram a partir de meados de 2008, que chegou a provocar uma queda na produção e redução nos fundos nas caixas dos estabelecimentos. O setor já não sofre o pesado endividamento que o asfixiou durante muito tempo e, por isso, pode sair rapidamente da grave situação que se forçou há três anos.
A recuperação tem sido notável: em 2011 o aumento da remissão de leite às plantas sejam da ordem de 20%, uns 310 milhões de litros a mais, com o que alcançaria, 1,86 bilhão de litros no ano. Se a produção que se processa ou se consome nos mesmos estabelecimentos, ou seja, a que não vai às plantas industriais, subir na mesma proporção, a produção total do país chegaria a 2,22 bilhões de litros.
As exportações absorvem dois terços desse total, o que esse ano equivaleria a cerca de 1,44 bilhão de litros, independentemente de se embarcarem efetivamente nesse exercício ou ficarem em estoque como produtos processados, vendidos nos próximos meses.
O mercado interno, que capta cerca de 35% da produção total de leite, inclusive no ano passado de volumes recordes, mostra um dinamismo destacável, baseado na melhora da renda das famílias e também, perigosamente, no baixo valor do dólar em relação ao peso uruguaio.
O consumidor local absorve os produtos de maior valor e mais alta margem, de forma que representa cerca da metade do faturamento total da indústria, ainda que, como se explica mais adiante, absorva custos importantes em sua elaboração e distribuição.
As empresas, os produtores e a indústria se mostram sólidos, capitalizados, sem problemas de endividamento à vista, e aproveitam ao máximo esses bons momentos; asseguram suas posições, desenvolvem planos de expansão, o que permite esperar o prolongamento do crescimento no futuro.
Os especialistas que analisam o mercado internacional de lácteos, embora advirtam para alguns riscos, antecipam um futuro de firme demanda e preços em ascensão.
Atualmente, os produtores leiteiros uruguaios e a cadeia láctea em geral, vivem seu melhor momento em muito tempo. Os preços dos produtos nos mercados internacionais, ainda que não alcancem os picos máximos registrados em um breve período de 2008 - que se repetiu em 2011 - seguem sendo remuneradores.
No ano anterior, não se aumentou a produção por hectare e foi necessário absorver um aumento muito importante do custo dos insumos, mas o preço do leite médio no exercício foi de 37 centavos de dólar, 20% a mais que no ano anterior, o que explica a melhora no balanço. O preço médio pago ao produtor em 2011 certamente ficou em 41 centavos de dólar por litro, com o que provavelmente o próximo exercício tenha novamente um aumento de 10% adicional, em dólares correntes, com seu consequente reflexo nos resultados finais.
Os produtores de leite estão sempre inovando, reinvestindo suas receitas, atualizando seus equipamentos e seus procedimentos, de modo que as margens positivas obtidas nesse exercício deverão se manifestar em novos impulsos produtivos.
Nesse círculo virtuoso, têm nessa oportunidade alguns agregados importantes: em primeiro lugar, o clima ajudou - com uma excelente primavera -, o que permitiu não somente alcançar volumes de produção recorde, mas também, elaborar reservas forrageiras abundantes, que garantam folga para o futuro próximo.
Em segundo lugar, a baixa que ocorreu no preço dos grãos põe sobre o tapete a possibilidade de aumentar a porcentagem de suplementação na dieta de todas as categorias. A queda do preço do trigo, em particular, quando se está colhendo uma grande safra, faz afinar o lápis aos produtores e nutricionistas. Aos preços atuais, um agricultor um pouco longe de Nueva Palmira recebe US$ 160 por uma tonelada de trigo, 16 centavos o quilo, enquanto que um litro de leite se vende a 40 centavos, o que configura uma relação inédita a favor do leite.
Outro fator dinamizador que está presente na atualidade é a instalação de grandes empresas na produção de leite, já não somente na indústria. Não era aquele o setor que atraia os grandes investimentos estrangeiros, o que gerava os grandes empreendimentos. No explosivo processo de crescimento produtivo dessa última década, os capitais que entravam no setor agrícola preferiam a silvicultura, a agricultura em grande escala, inclusive há alguns exemplos de pecuária, mas com exceções, dentro das quais se destaca notoriamente a dos neozelandeses, não havia quase investimentos na produção leiteira.
Porém, recentemente, foram divulgados detalhes de vários megaprojetos, alguns já em pleno desenvolvimento e outros em fases mais iniciais. Nessa etapa, encontra-se o investimento do grupo Bulgheroni, em Durazno, que será a maior fazenda leiteira do Uruguai, com 9.000 vacas nos estábulos e uma planta de processamento de leite em pó, com capacidade para secar 16.000 toneladas por ano.
Em uma fase já consolidada, também se destaca o estabelecimento do empresário López Mena nas proximidades de Punta del Este, que visa ordenhar 1.500 vacas, também em regime de estabulação, e elaborar produtos premium para o mercado turístico e de exportação.
Muitos outros estabelecimentos de produtores uruguaios estão incorporando tecnologias próprias dos sistemas de produção ao galpão, ensaiando variantes em genética bovina, em suprimentos alimentícios de elaboração própria, em uma demonstração contundente de versatilidade e capacidade de adaptação característica de um setor em constante transformação.
No entanto, todavia, segue-se considerando, por parte da maioria dos técnicos e produtores, que a produção de base pastoril constitui a vantagem comparativa e competitiva insuperável do setor leiteiro do Uruguai e que os suplementos alimentícios com grãos e subprodutos agrícolas, assim como os manejos que incorporam elementos próprios dos sistemas de produção em confinamento, são complementares do sistema principal, no qual a vaca obtém no campo sua própria comida.
A reportagem é de Jorge Chouy, para o El País, traduzida, resumida e adaptada pela Equipe MilkPoint.
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