Você já perdeu um bezerro aparentemente saudável, sem entender o motivo? Já tratou uma pneumonia com diferentes protocolos, e mesmo assim, o animal não se recuperou como deveria? Ou então: o bezerro nasce bem, mama, parece ativo, mas logo adoece de forma repentina, ou simplesmente não cresce e ganha peso como os demais. Em alguns casos, mesmo com os melhores antibióticos, o animal não melhora.
A explicação pode estar em algo que os olhos não veem: o pulmão da bezerra.
Hoje, a pneumonia é a segunda maior causa de morte em bezerros e uma das principais responsáveis por prejuízos silenciosos na pecuária leiteira e de corte. O desafio está no fato que nem sempre o animal com doença respiratória apresenta os clássicos sinais da doença como tosse, febre ou cansaço. E o mais preocupante: estudos mostram que aproximadamente 50% das bezerras com lesões pulmonares consolidadas não apresentam sinais clínicos visíveis, dificultando o diagnóstico apenas pelo exame tradicional (Exame físico e escore respiratório). Ou seja, a doença já está instalada, mas passa despercebida até que evolua para um quadro grave ou mesmo irreversível. Muitas vezes, o pulmão já está gravemente comprometido quando os primeiros sinais aparecem.
Mesmo com o uso de escores respiratórios, alguns animais passam despercebidos, dificultando o diagnóstico precoce. Isso representa um sério obstáculo: quanto mais tarde o diagnóstico, menor a chance de sucesso no tratamento. O resultado? Maior uso de antimicrobianos, mais tempo da equipe dedicado ao manejo dos doentes, perda do potencial produtivo da futura vaca e aumento da mortalidade.
Por isso, a chave do sucesso no bezerreiro é a prevenção aliada a um diagnóstico preciso, rápido e objetivo.
Já consolidada na medicina humana, a ultrassonografia torácica (UST) se destaca por ser simples, rápida, segura e com alta acurácia, sendo capaz de identificar aproximadamente 94% dos bebês com problemas respiratórios, já em bezerros a sensibilidade (capacidade de detectar animais verdadeiramente DOENTES) é de 79% e a especificidade (capacidade de detectar animais verdadeiramente SAUDÁVEIS) em torno de 94%, de acordo com estudos internacionais. A técnica permite identificar precocemente alterações pulmonares, mesmo antes do surgimento dos sinais clínicos. Isso possibilita iniciar o tratamento no momento certo, evitando o uso indiscriminado de antibióticos e, principalmente, reduzindo os prejuízos econômicos causados pela doença respiratória.
Mas e na prática? A ultrassonografia é viável nas fazendas? Quem pode aplicar? Como implementar na rotina?
A boa notícia é: sim, a ultrassonografia torácica é viável e acessível, já está sendo utilizada com sucesso em fazendas brasileiras e ao redor do mundo, em sistemas intensivos e extensivos. E o melhor: não é necessário ser especialista para aplicá-la. Com capacitação adequada e protocolos bem definidos, qualquer propriedade pode incorporar essa ferramenta ao seu manejo.
Ela não exige novos equipamentos caros. O mesmo aparelho portátil e a sonda linear transretal usada nos exames reprodutivos das vacas já são suficientes. Para iniciar, basta umedecer os pelos do tórax com álcool 70% ou isopropílico, sem necessidade de tricotomia, e posicionar o transdutor nos espaços intercostais: do décimo ao primeiro no lado direito e até o segundo no lado esquerdo. A anatomia do animal e as regiões a serem escaneadas estão apresentadas na imagem 1. A varredura completa leva de dois a cinco minutos por animal e revela uma imagem detalhada do estado pulmonar, indicando onde está a lesão, seu tamanho e o quanto do pulmão ainda está funcional.
Imagem 1. Imagem representativa da região a ser escaneada pelo Ultrassom.
Fonte: OLLIVETT, T. L. and BUCZINSKI, S. 2016. On-Farm Use of Ultrasonography for Bovine Respiratory Disease. Vet Clin Food Anim, n. 32, p. 19–35 http://dx.doi.org/10.1016/j.cvfa.2015.09.001
Mais do que uma ferramenta pontual, o ideal é que a ultrassonografia torácica seja incorporada como parte fixa do manejo sanitário da fazenda, com exames realizados de forma periódica. Assim como se monitora escore corporal, consumo de colostro ou taxa de prenhez, a UST pode ser usada para acompanhar a porcentagem de animais com lesões pulmonares ao longo do tempo. Esse tipo de monitoramento permite identificar qual o real desafio sanitário respiratório dentro da propriedade, estabelecer metas de prevenção e avaliar se os protocolos adotados estão realmente funcionando.
Terri Ollivett sugere a implementação da ultrassonografia em 4 pontos para avaliação pulmonar de bezerras.
Estratégia de Ultrassonografia em 4 Pontos para Avaliação Pulmonar de Bezerros
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Momento da Avaliação |
Pergunta-chave |
Meta / Objetivo |
Finalidade |
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1. Início da desmama |
Quantas bezerras já têm pneumonia no início da desmama? |
Menos de 15% com lesão pulmonar |
Verificar a condição pulmonar antes do estresse da desmama |
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2. Início do tratamento |
Quantos animais tinham escore >3 ou <2 ao serem tratados pela primeira vez? |
Menos de 15% fora da faixa ideal de detecção |
Avaliar se o tratamento está sendo feito na hora certa |
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3. 7 a 10 dias após o tratamento |
Quantos ainda têm escore >2 mesmo após o primeiro tratamento? |
Menos de 15% com lesão persistente |
Verificar a efetividade do tratamento |
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4. Rastreio 12×7 (12 animais, 7 em 7 dias) |
Em que idade os bezerros têm maior risco de desenvolver pneumonia? |
Identificar a faixa etária crítica |
Direcionar ações preventivas para o período de maior risco |
A associação de tecnologias é uma estratégia muito interessante para a triagem da doença respiratória. Os sistemas de monitoramento inteligentes, como brincos e colares, emitem alertas até dois a três dias antes do surgimento dos sinais clínicos visíveis. Alguns desses dispositivos detectam mudanças sutis, como a redução na força ou frequência de sucção durante a mamada, indicando possíveis quadros iniciais de enfermidade. Essa antecipação abre uma oportunidade valiosa: realizar a ultrassonografia torácica de forma direcionada, validando o alerta e permitindo um diagnóstico precoce, preciso e com maior chance de sucesso terapêutico.
Com essa visão mais estratégica, o produtor deixa de agir apenas quando o problema aparece e passa a tomar decisões baseadas em dados concretos. A UST, portanto, não serve apenas para tratar, sendo uma ferramenta de gestão de saúde, para mensurar, prevenir e melhorar continuamente o sistema de saúde do bezerreiro.
No dia a dia, a técnica também ajuda a separar as bezerras que realmente precisam de tratamento daqueles que podem ser apenas monitorados, além de acompanhar a evolução da lesão ao longo dos dias.
Quanto custa?
Em fazendas maiores, o exame pode ser inserido na rotina em conjunto com o manejo reprodutivo semanal, sem gerar aumento significativo no custo de deslocamento ou hora técnica. Em propriedades médias e pequenas, o exame pode ser feito quinzenalmente, ou semanalmente em períodos críticos, como estresse térmico por calor ou frio intenso e pós-desaleitamento. Em casos de surtos, produtores podem se organizar e dividir o serviço, viabilizando a prática mesmo em escalas menores.
É comum que, ao adotar a técnica, o número de bezerros diagnosticados aumente temporariamente. Afinal, os casos subclínicos começam a ser detectados. Esse aumento inicial de gastos pode assustar, mas nos meses seguintes, é possível observar queda na mortalidade, menor descarte involuntário de fêmeas e melhor desempenho dos animais. Tudo isso compensa o investimento.
Além disso, quando o veterinário coleta suabes nasais das bezerras com lesões detectadas por UST e envia para o laboratório, é possível identificar os principais agentes virais e bacterianos presentes na propriedade. Com essa informação, torna-se possível ajustar vacinas e implementar melhorias no ambiente, como ventilação, cama, colostragem e nutrição, auxiliando em um ciclo sanitário mais eficiente.
Mas se é tão bom, por que ainda não é tão utilizada?
Os principais obstáculos são a dependência da experiência do operador e o não conhecimento real sobre a doença respiratória. No entanto, a curva de aprendizado pode ser encurtada. Cursos teórico-práticos ensinam os principais padrões de imagem, como consolidações, linhas pleurais normais ou anormais e presença de líquido (edema), e como correlacioná-los com os sinais clínicos. A prática diária fortalece a interpretação e, com o tempo, o exame se torna tão natural quanto o uso do estetoscópio.
A ultrassonografia torácica substitui a incerteza do diagnóstico subjetivo por um mais assertivo e visual, realizado dentro do bezerreiro, com recursos já disponíveis na fazenda. Ao identificar precocemente as pneumonias, direcionar melhor os tratamentos e monitorar a recuperação, reduz custos, preserva o potencial produtivo dos animais e fortalece o compromisso da cadeia do leite com o bem-estar animal e a sustentabilidade.
A UST não é o futuro! Já é o presente de quem escolhe produzir com eficiência, responsabilidade e visão estratégica.
Referências bibliográficas
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Ana Carolina Araujo Abreu- Médica Veterinária ( UNICENTRO/PR) e doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Clínica Veterinária da FMVZ/USP.
Jobson Filipe de Paula Cajueiro
Médico Veterinário da Clínica de Bovinos de Garanhuns (CBG/UFRPE) e Doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Clínica Veterinária da FMVZ/USP.