Olá pessoal, tudo bem com vocês? E aí o frio já chegou?
Assunto importante e delicado ao mesmo tempo. O inverno chegando e o que eu faço com minhas vacas... mudo o manejo, a dieta ou algo mais? Em se tratando de produções de leite em pasto ou confinamento, o manejo se torna um pouco diferente.
Frio no sistema no confinamento
Ao pensarmos em sistemas de produção de leite em confinamento, a dieta não mudará muito, com exceção talvez de um pouquinho mais de energia (NDT), para compensarmos as perdas calóricas pelo frio. No entanto, esta “diferença” deve ser muito bem calculada. Por se tratar de um sistema em galpões, o frio excessivo por sobre os animais é minimizado, mas, por se tratar de construções com mais concreto e ferragens, o frio pode ser aumentado, principalmente a sensação térmica, já pensaram nisso? Então, mesmo debaixo de instalações o comportamento animal deve ser revisado. Em se tratando de estresse, o animal sente estresse pelos dois lados, ou seja, pelo frio e pelo calor. Frio demais para raças pouco especializadas em frio, como a Gir, o frio pode causar prejuízos semelhantes ao calor.
Construções adequadas podem permitir que o animal desempenhe mais o seu potencial, porém não é exagero, adaptarmos algumas instalações às determinadas regiões que atuarmos.
Em resumo, o uso de instalações como o Free stall, que são adaptadas a regiões mais frias, serviriam para o Brasil?
Será que é correto fazer uma cobertura para o animal e depois gastar energia para esfriá-lo?
O pensamento é o mesmo para estas instalações para verão e inverno, ok?
Baixas temperaturas no sistema à pasto
Em pastagem, com certeza por manterem o animal no pasto ou a beira de cochos em áreas de descanso, sob sombras de árvores ou sombrites, o pensamento é o mesmo, ou seja, se tenho uma instalação “fresca” durante o verão, ela será fria no inverno?
Geralmente as pastagens são o palco dos animais no verão, e em alguns casos no inverno. Sim, mesmo no inverno os animais em regiões mais frias, conseguem pastejar uma pastagem de inverno, como a aveia e azevém, em função do clima. Regiões sulinas, ou até mesmo em São Paulo, como região de São Carlos ou Botucatu, conseguem fazer a sobressemeadura de gramíneas temperadas sobre as pastagens de verão obtendo produções consideráveis no inverno, mantendo parte ou grande parte dos animais em pastejo.
Daqueles sistemas que não detém desta possibilidade, o fornecimento de alimento volumoso no cocho é imprescindível no suprimento da falta de pastagem.
Bom pessoal, tudo isso é com certeza uma necessidade de adaptação. São dois exemplos muito simples e claros que tentei pontuar para vocês a necessidade de ajustarmos. Tudo na produção de leite deve ser levado em consideração.
Planejamento: a chave para enfrentar o clima
Como ainda não contei uma história, vamos lá. Já cheguei em propriedades onde, ao perguntar ao produtor sobre os efeitos do calor e do frio nas vacas, ouvi a seguinte resposta:
“Não me preocupo com isso, porque os animais vivem no pasto e são rústicos.”
Antes de rebater esse tipo de pensamento, quero propor uma reflexão. Hoje em dia, é comum ouvirmos por aí:
“O clima tá doido, né?”
Mas, na verdade, o clima não está louco. Ele está mudando. E eu pergunto a vocês: mudanças são normais?
Sim, são. Estão previstas. E mais importante ainda: podemos — e devemos — nos adaptar a elas.
Quem prevê mudanças, sai na frente. E é aí que eu quero chegar. Esse preparo está:
- No planejamento alimentar, com o plantio de áreas de volumosos;
- Na compra antecipada de insumos;
- Na escolha de animais adaptados à realidade da região;
- Na construção de instalações adequadas;
- No plantio de árvores para sombra ou como barreiras contra o frio;
- No manejo diário, bem feito, com atenção aos detalhes.
Voltando àquele produtor que dizia que as vacas já estavam acostumadas com o clima... É verdade que, assim como nós, os animais se adaptam ao ambiente. Mas cada um tem seu tempo, sua capacidade.
Quedas bruscas de temperatura em instalações mal planejadas podem ser fatais.
Erros de manejo geram perdas irreparáveis. Às vezes, já na próxima ordenha. Às vezes, na perda de um animal.
E aí vem a pergunta:
“Como assim o leite perdido é irreparável?”
Ora, pessoal, leite derramado não volta mais, certo?
Mas aqui não estamos falando de leite derramado — e sim de leite não produzido. E esse é pior ainda: é o leite que nem chegou a existir.
Pra encerrar, quero fazer uma comparação simples com os cachorros. Já viu um cachorro do Alasca, daquela região de muito gelo? E já comparou com o seu cachorro, que vive aqui no Brasil, em uma região mais quente? Veja a imagem abaixo:
Fonte: google.com.br/imagens
Sabe por que o cachorro do frio aguenta temperaturas tão baixas? Porque ele consome uma dieta rica em gordura animal — altamente energética. Já o nosso cachorro come uma ração bem menos calórica.
O do frio tem pelos grossos e densos. Os nossos, nem sempre.
O do frio convive com neve. Os nossos, nunca viram uma.
Então, posso tratar os dois do mesmo jeito? Claro que não.
Com vacas leiteiras, o raciocínio é o mesmo.
É preciso adaptar as instalações, ajustar a dieta, se planejar.
É guardar comida, intensificar o manejo, observar o comportamento dos animais.
Lembro de uma reportagem com um menino gaúcho. Ele contava que, durante a geada ou a neve — que ele descrevia como “bolinhas de ureia caindo, bem redondinhas” —, as vacas não queriam entrar na estrebaria. Os tetos rachavam e as vacas reclamavam.
E a produção dele? Como está?
Bem. As vacas estão saudáveis, acostumadas ao sistema, com instalações adequadas, dieta ajustada, horários de ordenha bem definidos.
E o café? No fogão a lenha, quentinho. Como deve ser.
Pensem nisso.