As vacas são resistentes a antibióticos?

Conceitos de resistência bacteriana a antimicrobianos e o porque o produtor de leite deve se preocupar com isso.

Publicado em: - Atualizado em: - 3 minutos de leitura

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Você já teve uma vaca ou já prestou consultoria para algum produtor que tem um animal constantemente acometido por infecções (muitas vezes na glândula mamária, a famosa mastite) e no qual o tratamento com antibióticos não funciona? É comum até ouvirmos as pessoas dizerem “essa vaca aí não adianta tratar, já ficou resistente”.

De fato, a resistência a antimicrobianos é um dos fatores que podem influenciar na resposta adequada a um tratamento, mas será que é a vaca quem fica resistente aos antibióticos?

Para respondermos essa pergunta, é preciso entender o conceito de resistência. O termo correto é resistência bacteriana a antimicrobianos e, só com isso, já matamos a charada: quem são resistentes são as bactérias. Isso também vale para nós humanos: quando estamos com aquela dor de garganta e algum antibiótico não funciona, não somos nós que estamos resistentes, mas sim as bactérias causadoras da infecção.
 

Mas por que isso é importante para a pecuária leiteira?

Em se tratando de saúde animal no Brasil, não há controle adequado da venda e uso de princípios antimicrobianos para produção animal. Ou seja, o produtor de leite (ou outro pecuarista) pode adquirir os antibióticos e utilizar como bem entender. A utilização sem critérios de antimicrobianos está diretamente relacionada com o fenômeno de resistência bacteriana.
 

Como ocorre a resistência bacteriana em vacas leiteiras?

Contando com a ajuda do nosso amigo Darwin, é tudo uma questão de evolução e de seleção natural. Lembra daquela famosa frase (que infelizmente tem sido bastante usada nesta pandemia), “os mais fortes sobrevivem”? Pois bem, acontece a chamada “pressão de seleção”.

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De maneira simples, pressão seletiva é um conceito da genética que diz que quando uma comunidade de indivíduos é constantemente exposta a um fator limitante, podem ocorrer alterações que favoreçam a sobrevivência dos indivíduos naquele meio. Trazendo para o nosso contexto, uma comunidade de bactérias que é constantemente submetida a antimicrobianos terá uma pressão que pode fazê-las evoluir, até que sobrevivam apenas os indivíduos resistentes, pois, mas uma vez, “os fortes sobrevivem”.
 

Não pode usar antibióticos em vacas leiteiras? 

Não é isso, precisamos usá-los de forma racional. A resistência a antimicrobianos é um fenômeno natural, mas que é potencialmente acelerado pelo uso indiscriminado de antibióticos, sobretudo na produção animal.

Mais didaticamente: imaginem que uma vaca está com mastite. Ou seja, sua glândula mamária está infectada por bactérias (na maior parte das vezes). O ordenhador faz o teste da caneca, detecta os grumos. Vamos para o protocolo usual: bisnaga de antibiótico durante três dias, descarte do leite. E toda vez que o animal apresenta mastite, o padrão se repete, sem nenhum critério.

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Imaginem agora que no meio dessas bactérias que estão colonizando a glândula existam umas que são mais resistentes que as outras. Quando as submetemos aos antibióticos, as “mais fracas” vão morrer, enquanto as resistentes vão sobreviver e multiplicar, até que tenhamos uma comunidade toda de bactérias resistentes. É assim que “a vaca se torna resistente”, podendo ainda contaminar outros animais no rebanho e gerar um problema ainda maior.

Por isso, o uso de antimicrobianos deve ter critério. O ideal é que seja feita a cultura microbiológica do leite e o antibiograma, para que o veterinário consiga definir o melhor protocolo a ser utilizado. Segundo o Prof. Marcos Veiga, no Brasil, 40% das culturas microbiológicas de leite de animais com mastite têm resultado negativo (grande parte atribuído à cura espontânea) e esperar cerca de 24 a 48h para fazer a intervenção terapêutica não traz prejuízos para o animal (desde que não seja um caso super-agudo). Ou seja, em muitos casos, estamos utilizando antibióticos sem necessidade. 

Logo, é responsabilidade nossa usar os recursos mais sabiamente. A saúde animal está diretamente relacionada à saúde humana, logo, o que fazemos na pecuária pode ter impactos significativos na população.

Hoje já existem as chamadas super-bactérias, que são resistentes a TODOS antibióticos existentes. Imaginem só: uma simples infecção pode causar a morte de pessoas e animais por falta de medicamentos que sejam eficazes. Vamos literalmente voltar ao início do século XX!

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já atribui grande parte das mortes nos próximos anos a infecções por bactérias super-resistentes. Além da questão saúde, a diminuição da utilização de antibióticos também significa redução de custos para o produtor.

Diante de tudo isso, vamos fazer a nossa parte. A saúde é única! 

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Material escrito por:

Maysa Serpa

Maysa Serpa

Médica Veterinária, MSc. e doutoranda em Sanidade Animal pela UFLA.

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Everton Daniel Goelzer
EVERTON DANIEL GOELZER

QUINZE DE NOVEMBRO - RIO GRANDE DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 18/05/2020

Em animais jovens(1 ou 2 lactacoes) é fácil o tratamento da mastite e sua cura ,já em animais mais velhos ( de 3 lactacoes ou +) a cura se torna cada vez mais difícil. Animais jovens tem imunidade alta. A pergunta que fica é a seguinte: como ter animais longevos e saudáveis?.... A longevidade das vacas é o foco da propriedade mas a MASTITE não permite.
Qual a sua dúvida hoje?