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Terapia seletiva de vaca seca funciona?

POR MARCOS VEIGA SANTOS

MARCOS VEIGA DOS SANTOS

EM 24/10/2002

4 MIN DE LEITURA

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É ainda muito grande, para não falar impressionante, o número de produtores de leite do Brasil que desconhecem os benefícios e aplicações da terapia da vaca seca para o controle de mastite. Parte das causas para este quadro, podemos supor, ocorre devido à não compreensão da importância do período seco para a produção de leite de alta qualidade e com eficiência econômica. Não devemos nos esquecer também, que grande proporção das vacas em lactação, devido à baixa persistência, apresentam produção média muito baixa ou simplesmente "secam" com alguns meses antes do próximo parto. Verificamos através de um recente estudo feito na região de Pirassununga-SP, que grande parcela de produtores entrevistados (representativos da estrutura de produção leiteira da região) desconhecia por completo as principais causas da mastite e as medidas mais recomendadas para o seu controle. Por outro lado, em países como a Inglaterra cerca de 99% das vacas são submetidas ao tratamento de vaca seca.

Levando-se em conta a importância e a elevada relação custo:benefício da terapia da vaca seca, vale a pena apresentarmos um estudo recente sobre a terapia de vaca seca seletiva. Conceitualmente, a terapia de vaca seca é a infusão de uma bisnaga de produto específico para vaca seca em cada quarto do úbere no último dia da lactação, geralmente ao redor de 60 dias antes da data prevista do parto. Esta medida é a única que apresenta tanto função curativa - eliminando as infecções subclínicas existentes no momento da secagem, às quais não se recomenda o tratamento durante a lactação - quanto preventiva - pois atua na redução de novos casos de mastite durante o período seco. Lembramos ainda que esta é uma medida barata, com alta taxa de cura de mastite subclínica (em média 75%, dependendo do agente) e com mínimos riscos de resíduos de antibióticos no leite após o parto.

É crescente em muitos países a preocupação com o uso indiscriminado de antibióticos em animais de produção, o que resulta em grande pressão para a redução do emprego de antibióticos de forma desnecessária. Aliado a isto, observa-se em muitos rebanhos que após a implantação de medidas preventivas para o controle de mastite temos a redução substancial da contagem de células somáticas (CCS), o que pode se configurar um argumento contrário para o uso da terapia da vaca seca para todas as vacas. Nestes países tem sido proposto o emprego da terapia seletiva de vaca seca, que pode ser entendida como a aplicação do tratamento de vaca seca apenas em algumas vacas ou quartos, baseando-se na cultura microbiológica ou na CCS. Os defensores da terapia seletiva argumentam, desta forma, que somente vacas com mastite devem receber o tratamento de vaca seca.

Para avaliar o efeito do emprego da terapia seletiva de vaca seca foi desenvolvido um estudo no Reino Unido, usando-se 290 vacas, em quatro rebanhos diferentes. As vacas foram selecionadas em dois grupos: tratamento de vaca seca convencional e tratamento seletivo (sem tratamento), sendo que os animais dos dois grupos foram monitorados quanto à saúde da glândula mamária antes da secagem, durante o período seco e logo após o parto, através da realização de culturas microbiológicas das amostras de leite.

Não foi observado nenhum caso de mastite clínica durante o período seco no grupo de vacas que receberam o tratamento de vaca seca, enquanto que um número significativamente maior de casos de mastite clínica foi detectado nos animais que não receberam o tratamento de vaca seca. O número de novas infecções no momento do parto também foi significativamente maior nas vacas não tratadas, em todos os rebanhos estudados, o que demonstra o efeito preventivo da terapia da vaca seca sobre as novas infecções que ocorrem no período seco. O úbere durante o período seco é altamente suscetível a certas infecções, sendo que cerca de 50% das infecções que ocorrem durante esta período persistem até a próxima lactação, caso não seja feito o tratamento. É interessante notar que este efeito protetor do tratamento de vaca seca é observado tanto para vacas com baixa CCS quanto vacas com alta CCS.

Concomitantemente, os quartos não tratados no momento da secagem e que estavam infectados com Corynebacterium spp ou estafilococos coagulase-negativa apresentaram maiores riscos de infecções causadas por Streptococcus uberis ou coliformes. Neste estudo, não foi observado nenhum efeito protetor causado pela presença de Corynebacterium spp quanto à ocorrência de outras infecções intramamárias. Pode-se supor que a presença do Corynebacterium spp tem efeito negativo quanto ao fechamento da extremidade do teto, através de produção de enzimas, levando a maior ocorrência de infecções causadas por Streptococcus uberis ou coliformes, conforme foi observado.

Em resumo, os resultados apresentados mostram que a terapia da vaca seca reduz a taxa de novas infecções em aproximadamente 80%, além de atuar na cura das infecções existentes. Desta forma, o emprego da terapia da vaca seca deve ser utilizado em todos os rebanhos, como uma das principais medidas para controle de mastite, não sendo justificado o emprego da terapia seletiva.

Fonte: Journal of Dairy Science. Vol. 85 p.112-121, 2002.

MARCOS VEIGA SANTOS

Professor Associado da FMVZ-USP

Qualileite/FMVZ-USP
Laboratório de Pesquisa em Qualidade do Leite
Endereço: Rua Duque de Caxias Norte, 225
Departamento de Nutrição e Produção Animal-VNP
Pirassununga-SP 13635-900
19 3565 4260

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