O sal é um ingrediente presente em praticamente todos os tipos de queijos — dos frescos aos mais curados, dos artesanais aos industriais. Apesar de seu uso milenar no preparo e conservação dos alimentos, o sódio passou a ser uma das substâncias mais questionadas nas últimas décadas, especialmente, por seu potencial impacto na saúde cardiovascular.
No entanto, é importante entender que, muito além de realçar o sabor, o sal exerce funções tecnológicas fundamentais na fabricação de queijos:
- Atua como conservante natural, inibindo o crescimento de microrganismos indesejados, inclusive alguns patógenos;
- regula a fermentação, modulando a atividade das bactérias lácticas;
- interfere na ação de enzimas envolvidas na proteólise e lipólise durante a maturação;
- auxilia na sinérese da coalhada, contribuindo para a firmeza da massa;
- Exerce papel sensorial essencial, equilibrando o conjunto de sabores do queijo.
O sal também é um importante aliado no controle do amargor, especialmente em queijos submetidos à intensa proteólise, como os queijos de casca mofada. Quando o teor de sal é muito baixo, ocorre desequilíbrio na estrutura da caseína, expondo resíduos de β-caseína que são rapidamente degradados, liberando peptídeos amargos. Esse processo é agravado em queijos com massa muito úmida ou baixo teor de gordura, já que os peptídeos hidrofóbicos se difundem com mais facilidade.
Cada tipo de queijo exige uma concentração de sal adequada para manter esse equilíbrio. Em queijos azuis, por exemplo, o sal regula a atividade do Penicillium roqueforti, evitando que a proteólise se torne excessiva. Em queijos de massa cozida, como o Parmigiano Reggiano, o sal penetra lentamente após a imersão em salmoura, ajudando na formação da crosta. Já o Feta, é armazenado imerso em salmoura, para aumentar sua vida útil, por ser um queijo de alta umidade.
Imagem 1. Salga a seco
A seguir, um quadro com o teor médio de sal em diferentes tipos de queijo, para ilustrar como a própria tecnologia de fabricação determina essa concentração:
Tabela 1. Teor de sal em diferentes tipos de queijo (valores aproximados por 100 g)
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Queijo |
Teor de sal (g) |
Observações |
|---|---|---|
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Feta |
2,5 – 3,5 |
Armazenado em salmoura |
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Roquefort |
3,0 – 3,5 |
O sal colabora com o desenvolvimento do mofo azul e a evitar contaminantes |
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Pecorino Romano |
2,7 – 3,0 |
Queijo de ovelha, tradicionalmente mais salgado |
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Muçarela (industrial) |
1,5 – 2,5 |
Pode ter adição de sal na massa e/ou na salmoura |
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Brie / Camembert |
1,5 – 1,8 |
Salga a seco, influencia a flora da crosta |
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Parmigiano Reggiano |
1,5 – 1,7 |
Salga lenta por imersão em salmoura |
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Queijo Minas Padrão |
1,0 – 2,0 |
Varia conforme o tempo de maturação |
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Emmental / Gruyère |
0,5 – 1,2 |
Menor teor de sal para favorecer a fermentação propiônica |
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Queijos frescos (ricota, minas frescal) |
0,3 – 0,7 |
Baixo teor, porém vida útil muito curta |
Fontes: dados médios de literatura técnica e rótulos comerciais brasileiros e europeus.
Atualmente, o sal é um dos principais alvos de preocupação do consumidor. O aumento dos casos de hipertensão e doenças cardiovasculares levou à disseminação de campanhas para redução do consumo de sódio. Os queijos, frequentemente, aparecem na lista de alimentos a serem evitados — muitas vezes sem a devida contextualização nutricional. Em resposta a essa tendência, alguns fabricantes têm buscado reduzir o teor de sal em seus produtos, utilizando substitutos como o cloreto de potássio ou explorando técnicas de fabricação com menor adição de sal. No entanto, essas mudanças exigem cuidado técnico, uma vez que reduções bruscas de sal podem comprometer a segurança microbiológica, o sabor e a textura do queijo.
Além disso, é importante considerar a qualidade nutricional dos queijos. Em geral, eles são alimentos minimamente processados, com elevado valor biológico, rico em cálcio, proteínas e diversos micronutrientes. Em uma dieta equilibrada, a presença de queijos — mesmo os mais salgados — pode perfeitamente ser compatível com um estilo de vida saudável, especialmente quando comparados a produtos ultraprocessados, cuja adição sódio não apresenta função tecnológica legítima.
Consumidores que buscam queijos sem conservantes, por vezes, esquecem que o sal é, na verdade, um dos mais antigos e eficazes conservantes naturais. Queijos com baixo teor de sal, caso não forem corretamente manejados, tornam-se mais vulneráveis à contaminação, especialmente quando há ausência de refrigeração ou condições controladas de maturação.
Reduzir o sal em alimentos industrializados com alto teor de sódio e baixo valor nutricional é, sem dúvida, uma medida positiva. Contudo, no caso dos queijos, é fundamental compreender que o sal não está presente apenas por uma questão de sabor — ele é um elemento funcional essencial, que contribui para a segurança microbiológica e para a definição das características sensoriais do queijo.