Pastagens multiespecíficas em ambientes subtropicais e temperados: desafios e oportunidades

Se o objetivo for pontuar os benefícios de pastagens multiespecíficas em relação a monoculturas, a lista de benefícios é vasta.

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O texto discute a utilização de pastagens multiespecíficas em regiões subtropicais, destacando os benefícios em relação às monoculturas, como aumento do desempenho animal e redução de emissões de metano. No entanto, a adoção é limitada devido à falta de persistência das espécies, dificuldades de manejo e a percepção dos produtores sobre viabilidade. Misturas viáveis incluem gramíneas perenes e leguminosas, e há esforços em pesquisa para superar os desafios atuais. A diversificação pode ocorrer em diferentes escalas, visando aumentar a resiliência do sistema.
*Este texto está estruturado de acordo com a palestra de mesmo título apresentada durante o 32º SMP. 

Ambientes de clima subtropical: de onde estamos falando?

Na classificação climática de Köppen-Geiger, a classe C, correspondente aos climas temperados, é a quarta mais comum no planeta e reúne nove sub-classificações. Para esta análise, o recorte considera apenas as regiões classificadas como temperadas (C), sem estação seca (f) e com verões quentes (a) ou amenos (b) (Peel et al., 2007).

Esse recorte abrange importantes regiões de produção pecuária à base de pasto, incluindo a Nova Zelândia, França, Irlanda e partes da Argentina, do Uruguai, da Austrália, dos Estados Unidos e da Região Sul do Brasil.

Afinal, porque misturar espécies?

A diversidade pode gerar vantagens que nenhuma espécie consegue oferecer isoladamente. Se o objetivo for pontuar os benefícios de pastagens multiespecíficas em relação a monoculturas, a lista de benefícios é vasta, apenas para citar alguns:

  • aumento no desempenho animal (Beaucarne et al., 2025);
  • redução da intensidade de emissão de metano (Dwan et al., 2026);
  • possibilidade de redução do aporte de nitrogênio nas pastagens (Jezequel et al., 2024);
  • maior estabilidade na produção de forragem (Duchini et al., 2019) entre outros.

Então por que quase ninguém usa? Quais os desafios?  

Embora algumas misturas sejam consolidadas, como o uso de azevém perene e trevo branco na Nova Zelândia, na região subtropical do Brasil o uso de pastagens mistas ainda é limitado. A razão para isso é difícil de ser pontuada de maneira categórica, mas a revisão realizada por Sollenberger e Dubeux Junior (2022) lança luz sobre este tema já que os autores apontam como entraves:

  • a falta de persistência das espécies na mistura, especialmente das leguminosas;
  • dificuldades no estabelecimento, especialmente relacionado à baixa disponibilidade/alto custo de sementes;
  • ausência de recomendações de manejo específicas para alguns consórcios e/ou dificuldade de acesso a estas informações por parte de produtores e técnicos;
  • e, por fim, questões relacionadas a definição de espécies compatíveis.

Que características a mistura deve possuir para viabilizar sua adoção?

Os entraves apontados pela revisão citada acima nos direciona sobre a resposta. Entretanto, Thielecke et al. (2026) aprofundaram a questão e aplicaram um questionário a 690 produtores de oito países europeus para entenderem “quais fatores determinavam a intenção dos produtores em utilizar misturas de sementes para estabelecer pastagens multiespecíficas". 

O principal determinante da intenção de adoção foi o “comportamento de controle percebido”, em outras palavras: “eu consigo utilizar essa tecnologia na minha propriedade?”. Além disso, entre todas as variáveis analisadas, destaca-se que “a mistura precisa ser compatível com a infraestrutura e com a rotina operacional da propriedade”, ou seja, a adoção de pastagens multiespecíficas depende menos de demonstrar seus benefícios e mais de mostrar ao produtor que ele conseguirá utilizá-las dentro da realidade da sua propriedade.

Quais espécies são candidatas viáveis para comporem misturas?

Considerando o descrito até o momento, resumidamente as misturas devem ser viáveis de implantar, capazes de gerar maior quantidade de produtos por unidade de recurso investido e que o manejo necessário para persistência da mistura seja compatível com a dinâmica da fazenda. Nesse contexto, algumas misturas têm reunido estes predicados, como as citadas abaixo. 

Duchini et al. (2019) demonstraram, em um experimento conduzido em Lages (SC), o potencial de um consórcio de três gramíneas perenes de inverno: dáctilis (Dactylis glomerata), festuca (Festuca arundinacea) e aveia perene (Arrhenatherum elatius). Manejado sob alta fertilidade e desfolha racional — com entrada dos animais aos 20 cm e saída aos 10 cm —, o consórcio produziu tanto quanto a melhor monocultura e apresentou maior estabilidade de produção ao longo do ano, evidenciando a complementaridade temporal entre as espécies.

Em um consórcio de festuca e capim-quicuiu (espécies perenes de inverno e de verão, respectivamente) uma sequência de estudos demonstrou que o manejo define quais espécies persistem ao longo do tempo. O pastejo a 17 cm favoreceu a dominância da festuca mesmo no verão (Miqueloto et al., 2020), enquanto uma intervenção estratégica — um único pastejo severo (6 cm) na primavera, associado à adubação nitrogenada — restabeleceu a participação do capim-quicuiu na mistura e aumentou a produção anual de forragem em cerca de 10% (Winter et al., 2025).

Em relação aos efeitos da adubação nitrogenada em pastagens multiespecíficas de gramíneas e leguminosas em ambientes subtropicais, definir uma dose anual de nitrogênio que equilibre o acúmulo de forragem e a diversidade de espécies é um desafio. Este valor depende das condições específicas de clima, solo, espécies etc. Apesar disso, uma hipótese mais abrangente é que a coexistência entre gramíneas e leguminosas depende da manutenção das gramíneas em condição de limitação por nitrogênio, correspondente a valores de índice de nutrição nitrogenada (INN) entre aproximadamente 0,6 e 0,8 (Barreta et al., 2023). 

Quais são as oportunidades em relação ao uso de pastagens multiespecíficas?

As oportunidades estão no fato de que o setor de P&D (pesquisa e desenvolvimento) está empregando esforços em contornar os atuais entraves, como: definição dos melhores arranjos de plantas, desenvolvimento de recomendações de manejo claras, robustas e aplicáveis, redução do custo de sementes entre outros. Além disso, apesar do apelo pelas pastagens multiespecíficas, é importante reconhecer que a diversificação pode ocorrer em diferentes escalas. Em muitas propriedades, a estratégia mais factível talvez não seja aumentar a diversidade dentro de cada piquete, mas sim diversificar espécies em nível de sistema ou de paisagem. 

Em Santa Catarina, novilhos pastejando capim elefante cv. BRS Kurumi aumentaram o GMD de 0,7 para 1,0 kg/dia quando tiveram acesso matutino (~5h) a uma pastagem de amendoim forrageiro cv. Amarillo (Andrade et al., 2016). Em outro arranjo, na Austrália, a mistura de azevém perene, plantago e trevo branco (Lolium perenne, Trifolium repens, Plantago lanceolata) ou estas mesmas espécies cultivadas em faixas no interior do piquete não diferiram entre si em termos de produção animal individual (kg de leite dia) e ambas foram superiores a monocultura de azevém (Pembleton et al., 2016). 

Arriscando a própria pele!

Este é o título de um livro que trata resumidamente de “Quem toma decisões que afetam outras pessoas deveria também arcar com as consequências dessas decisões.” Traduzindo para nosso contexto: se me perguntassem se eu implantaria pastagens multiespecíficas na minha propriedade eu diria SIM. Mas provavelmente não em toda a propriedade. Eu buscaria compor um sistema diversificado, utilizando pastagens multiespecíficas onde seus benefícios fossem mais evidentes, entendendo a diversidade como uma estratégia para aumentar a resiliência do sistema e não como um objetivo em si. 

Fontes consultadas

Andrade, E. A. et al. Herbage intake, methane emissions and animal performance of steers grazing dwarf elephant grass versus dwarf elephant grass and peanut pastures. Animal, v.10 (10), 1684–1688, 2016.

Barreta, D. A. et al. Managing a mixed sward to maintain species and functional diversity. European Journal of Agronomy, v.149, 126883, 2023. 

Beaucarne, G. et al. Multispecies swards enhance animal performance in a co-grazing cattle and sheep production system. Animal, v.19, 101451, 2025.

Duchini, P. G. et al. Can a mixture of perennial grasses with contrasting growth strategies compose productive and stable swards? Agronomy Journal, v.111 (1), 224–232, 2019.

Dwan, C. et al. The effect of increasing sward species diversity on enteric methane emissions from Holstein-Friesian and Holstein-Friesian × Jersey crossbred dairy cows in a rotational grazing system. Journal of Dairy Science, v. 109, n.1, 2026.

Jezequel, A. Effect of sward species diversity combined with a reduction in nitrogen fertilizer on the performances of spring-calving grazing dairy cows. Journal of Dairy Science, v.107, n.12, 2024.

Miqueloto, T. et al. Canopy structure of mixed kikuyugrass–tall fescue pastures in response to grazing management. Crop Science, v. 60, 499-506, 2020.

Peel, M. C. et al. Hydrology and Earth System Sciences Updated world map of the Köppen-Geiger climate classification. Hydrololy and Earth System Sciences, v.11, 1633-1644, 2007.

Pembleton, K. G. et al. More milk from forage: Milk production, blood metabolites, and forage intake of dairy cows grazing pasture mixtures and spatially adjacent monocultures. Journal of Dairy Science, v.99 (5), 3512–3528, 2016.

Sollenberger, L. E., & Dubeux Junior, J. C. B. Warm-climate, legume-grass forage mixtures versus grass-only swards: An ecosystem services comparison. Revista Brasileira de Zootecnia, 51:e20210198, 2022.

Thielecke, D. et al. Multi- Species Seed Mixtures for Sustainable Grazing in Europe? Exploring Livestock Farmers' Intention. Grass and Forage Science, 81:e70055, 2026. 

Winter, F. L. et al. Forage production in tall fescue and kikuyugrass mixed swards subjected to different defoliation strategies. Crop Science, v.65, 21427, 2025.

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Material escrito por:

Daniel Augusto Barreta

Daniel Augusto Barreta

Zootecnista, Pesquisador da Epagri/Cepaf.

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