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Escore de posição do útero e seus efeitos na reprodução de vacas leiteiras mestiças

VÁRIOS AUTORES

JOSÉ LUIZ M.VASCONCELOS E RICARDA MARIA DOS SANTOS

EM 15/10/2020

7 MIN DE LEITURA

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Estudos anteriores mostraram que a posição do trato reprodutivo – medida por diâmetro, volume, tamanho uterino e posição do útero – está associada à fertilidade de novilhas, vacas de corte (Holm et al., 2009, Gutierrez et al., 2014) e vacas leiteiras (Stevenson et al., 2008, Young et al., 2010, Baez et al., 2016,). Young et al. (2017) criaram uma classificação da posição uterina de acordo com o tamanho e posição do útero e verificaram a influência desse escore na prenhez por inseminação artificial (P/IA) das vacas holandesas. Os autores definiram o escore uterino como "tamanho e escore de posição" (SPS) e o classificaram como SPS1 (útero pequeno localizado na cavidade pélvica), SPS2 (útero médio localizado na transição entre as cavidades abdominais e pélvicas) e SPS3 (útero grande localizado na cavidade abdominal). Eles verificaram que as vacas classificadas como SPS1 apresentaram P/IA maior do que as vacas SPS2 e SPS3.

Baseado nesse resultados, o objetivo com este estudo foi avaliar a relação da ocorrência de doença uterina pós-parto, ordem de lactação e escore de condição corporal (ECC) com o escore uterino e sua influência na P/IA no primeiro serviço pós-parto de vacas leiteiras mestiças.

O estudo foi realizado em 20 fazendas leiterias comerciais na região de Alto Paranaíba, Minas Gerais, Brasil. Os rebanhos eram compostos de vacas leiteiras mestiças com composições genéticas variando de 3/4 a 7/8 Holandês. Os dados foram coletados de novembro de 2018 a maio de 2019. Os animais eram alojados em sistema Compost Barn ao longo do ano e alimentados com ração total composta por silagem de milho, concentrados de acordo com a produção de leite, minerais e ad libitum de água. Todas as dietas estavam de acordo com as recomendações do NRC (2001).

O número de vacas lactantes das fazendas participantes variou de 70 a 230 e ordem de lactação 1 a 7. As vacas lactantes eram ordenhadas mecanicamente de 2 a 3 vezes por dia, dependendo da fazenda, e a produção média de leite era de 20-38 kg de leite por vaca por dia.

As vacas foram monitoradas durante os primeiros 35 dias pós-parto (DPP) para verificar a ocorrência da doença pós-parto. Para diagnosticar a retenção de placenta (RP), as vacas foram avaliadas imediatamente após o parto e, quando possível, durante o parto. Aquelas que não liberaram a placenta nas primeiras 12h após a expulsão fetal foram considerados casos positivos de RP.

A metrite puerperal foi diagnosticada nos primeiros 20 DPP. Útero aumentado e a presença de descarga uterina aguada, seguida de sinais sistêmicos, como febre, apatia e redução da ingestão alimentar, foram utilizados para diagnosticar metrite, de acordo com as definições de Sheldon et al. (2006). As vacas diagnosticadas com metrite foram tratadas aleatoriamente com uma das duas opções tratamento antibiótico sistêmico. A primeira opção de tratamento foi de 20 mg/kg de oxitetraciclina intramuscular de longa ação administrada com injeções únicas ou duplas com 48h de intervalo. A segunda opção de tratamento foi uma única injeção subcutânea ou intramuscular de 1 mg/kg ceftiofur por dia durante 3-5 dias. A temperatura retal da vaca foi medida por meio de um termômetro digital, e aquelas com temperatura corporal acima de 39,5 °C foram tratadas com injeções intramusculares de 20 mg/kg dipirona, uma droga com efeitos antipiréticos e analgésicos, duas vezes por dia durante dois dias.

A endometrite clínica foi diagnosticada após 21 DPP, e a descarga vaginal foi coletada usando o dispositivo Metricheck® (Simcro, Hamilton, Nova Zelândia). Útero completamente involuído, com presença de descarga uterina purulenta (>50% pus) na vagina na ausência de sinais sistêmicos foram utilizados para diagnosticar essa doença (Sheldon et al., 2008). Vacas com endometrite clínica foram tratadas aleatoriamente com uma das duas opções de antibióticos (oxitetraciclina de longa ação ou ceftiofur) seguindo as mesmas recomendações do tratamento da metrite, juntamente com uma única dose de prostaglandina F2α. As vacas foram posteriormente reavaliadas até o final do período de espera voluntária.

O manejo reprodutivo foi realizado em intervalos de 15 ou 30 dias. As vacas foram avaliadas por ultrassonografia equipada com transdutor linear retal de 7,5 MHz (DP2200vet® ou DP10vet®, Mindray do Brasil, São Paulo, SP, Brasil) para diagnóstico de condições uterinas e ovarianas. Foram avaliados os ovários e o útero de todas as vacas. O escore de posição do trato reprodutivo foi determinado entre 35 e 65 DPP, seguindo a classificação proposta por Young et al. (2017), conforme descrito anteriormente. Foram coletados dados de ordem de lactação e ECC. O ECC foi estimado de acordo com uma escala de 1 (muito magro) a 5 (obeso), proposta por Edmonson et al. (1989.

As vacas foram submetidas ao seguinte protocolo de IATF: dia 0, inserção de um dispositivo intravaginal que libera 1,0 g de progesterona  e injeção intramuscular de 2,0 mg benzoato estradiol; dia 7, uma injeção intramuscular de 12,5 mg PGF2α; dia 9, retirada do dispositivo intravaginal, injeção intramuscular de 1,0 mg (0,5 mL) de cipionato de estradiol e outra injeção intramuscular de 12,5 mg de PGF2α; dia 11, IATF. Todas as injeções e inseminações foram realizadas pela manhã. O diagnóstico de gestação foi realizado 32 ± 4 dias pós-IATF por ultrassonografia.

As análises estatísticas foram realizadas utilizando-se o SAS Studio (SAS Institute Inc., Cary, NC). A ordem de lactação foi categorizada como primeira, segunda, terceira e quarta ou mais lactações. As categorias ECC foram baixas (≤2,5), moderadas (>2,5 a ≤3,5) e altas (>3,5). As relações entre os parâmetros avaliados (ocorrência da doença uterina pós-parto, ordem de lactação e ECC) e escore uterino foram analisadas utilizando-se o PROC FREQ. A P/IA no primeiro serviço pós-parto foi analisada por meio da regressão logística. Como o número de observações no grupo SPS3 foi pequeno (n=74), essas observações foram agrupadas com as do grupo SPS2 (n=171) para analisar a relação entre escore uterino e P/IA no primeiro serviço pós-parto. A significância estatística foi definida como P≤0,05 e tendência foi definida como 0,05<P≤0,10.

Durante o período foram avaliadas 588 vacas leiteiras mestiças lactantes, das quais 170 desenvolveram pelo menos uma doença uterina pós-parto (RP, metrite ou endometrite clínica) resultando em incidência geral da doença de 28,9%; 14,9% (88/588) apresentaram mais de uma doença. As incidências de RP, metrite puerperal aguda e endometrite clínica foram de 22,6% (133/588), 14,3% (84/588) e 11,9% (70/588), respectivamente.

O escore uterino foi relacionado à ocorrência de doença uterina pós-parto (P<0,0001; Tabela 1). Das vacas que não foram afetadas por doenças uterinas pós-parto 71,3% foram classificadas como SPS1. O número de casos clínicos de doença uterina também foi relacionado ao escore uterino de vacas leiteiras cruzadas (P<0,0001; Tabela 1).

A ordem de lactação das vacas leiteiras mestiças foi relacionada ao escore uterino (P<0,0001; Tabela 1). A maioria das vacas na primeira e segunda lactação foram classificadas como SPS1. O ECC das vacas, avaliado entre 35 a 65 DPP, também apresentou relação com a classificação uterina (P<0,0001; Tabela 1). As vacas SPS2 e SPS3 tenderam a apresentar P/AI mais baixa, no primeiro serviço pós-parto, em comparação com as vacas SPS1 (P = 0,09; Tabela 2).

Nosso estudo avaliou se as vacas afetadas por doenças uterinas pós-parto tinham trato reprodutivo maior e na cavidade abdominal no final de um período de espera voluntária. Nossas análises não foram delineadas para determinar se essas vacas eram mais propensas a desenvolver doenças uterinas pós-parto porque seu trato reprodutivo já tinha posições anatômicas anormais antes da concepção anterior. No entanto, nossos resultados mostraram que a avaliação da posição e tamanho do trato reprodutivo em vacas leiteiras mestiças poderia ser usada para ajudar a identificar vacas com menor fertilidade. Essas informações podem ser úteis para decisões de manejo como, por exemplo, o uso de sêmen mais caro em vacas com útero pequeno e pélvico.

Em conclusão, à ocorrência de doença uterina pós-parto, ordem de lactação e ECC tem relação com o escore uterino avaliado de 35 a 65 DPP. Além disso, as vacas leiteiras mestiças com útero menor e pélvico tendem a ter melhor P/IA no primeiro serviço pós-parto.

Tabela 1. Distribuição do escore uterino avaliado entre 35 e 65 dias pós-parto de acordo com a ocorrência de doença uterina pós-parto, número de casos de doença uterina pós-parto, ordem de lactação e ECC em vacas leiteiras mestiças, na região do Alto Paranaíba.

Tabela 2. Prenhez por inseminação artificial (P/IA) no primeiro serviço pós-parto de acordo com a classificação do escore uterino avaliado entre 35 a 65 dias pós-parto, de vacas leiteiras mestiças, na região do Alto Paranaíba, Minas Gerais, Brasil, 2019.

*Este texto é parte do artigo: Factors related to uterine score and its influence on pregnancy per artificial insemination in crossbred dairy cows, Publicado na revista Livestock Science (https://doi.org/10.1016/j.livsci.2020.104231) por Estevão Vieira de Rezende, Carla Cristian Campos, Giovanna Faria de Moraes e Ricarda Maria dos Santos.

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ESTEVÃO VIEIRA DE REZENDE

CARLA CRISTIAN CAMPOS

Médica Veterinária, Doutoranda no Programa de Ciências Veterinárias da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

GIOVANNA FARIA DE MORAES

RICARDA MARIA DOS SANTOS

Professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia.
Médica veterinária formada pela FMVZ-UNESP de Botucatu em 1995, com doutorado em Medicina Veterinária pela FCAV-UNESP de Jaboticabal em 2005.

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