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Lesões abomasais: fatores de risco para bezerros em aleitamento

POR POLYANA PIZZI ROTTA

E KELLEN RIBEIRO DE OLIVEIRA

FAMÍLIA DO LEITE

EM 12/02/2021

6 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 11/02/2021

Lesões abomasais são caracterizadas por danos na parede interna do abomaso, conhecido como o estômago químico dos ruminantes, funcionalmente semelhante ao estômago de monogástricos.

Sendo que estas podem ser classificadas em:

  • Erosões, quando há apenas dano superficial, que não atingiu a camada muscular;
  • Úlceras não perfurantes, quando atinge a submucosa ;
  • Úlceras perfurantes, caracterizada por lesão que atinge a serosa, podendo causar peritonite localizada ou difusa e, por consequência, infecções sistêmicas e hemorragia;
  • Cicatrizes, formadas por tecido conjuntivo e acredita-se serem úlceras curadas. 

Esta afecção é responsável por dor e incômodo abdominal com tendência a escoicear o abdômen. Leva a queda de consumo e redução do crescimento, porém não apresenta sinais clínicos característicos e patognomônicos, comumente os animais são encontrados mortos devido hemorragia intensa e sepse ou, na maioria dos casos as lesões são encontradas somente após o abate. 

A etiologia desta afecção é multifatorial e acredita-se estar fortemente relacionada com o consumo exclusivo de substituto do leite de baixa qualidade em apenas duas refeições. Há divergências entre estudos sobre o uso de substitutos de leite, uma vez que a capacidade de coagulação deste no abomaso é dependente de sua composição e produtos de qualidade inferior, muito distintos do leite comum, não coagulam bem e comprometem a degradação química. 

O fornecimento exclusivo de dieta líquida acarreta redução acentuada de pH abomasal, com aumento da ação da pepsina, lesando a barreira protetora ou mesmo impedindo a formação desta, além de reduzir a secreção de mucina, um muco responsável por impedir a degradação da parede abomasal. 

Acredita-se que o fornecimento de leite em várias refeições em quantidades menores seja benéfico à saúde do bezerro. Isto é, o animal passa mais tempo se alimentando, o que aumenta o tempo de sucção estimulando a secreção de saliva, responsável pelo aumento do pH abomasal nesta fase. Além disso, o animal ocupa seu tempo e diminui a incidência de comportamentos estereotipados. 

Lensink et al. (2000) defendem que a interação humano-animal está interligada a menor incidência de lesões, assim há menor secreção de ácidos gástricos. No entanto, comportamentos estereotipados, muito associados com ambientes estressantes e supressão de atividades orais, como tongue rolling, caracterizado pela rotação da língua, assim como maior tempo de sucção, aumenta a produção de saliva. Desta forma, há um aumento da capacidade tamponante no abomaso nesta fase da vida do animal

O melhor desenvolvimento ruminal está intimamente relacionado com o menor risco de desenvolvimento de lesões abomasais (Webb et al., 2013). Deste modo, o fornecimento de alimentos menos fibrosos, como concentrados, produz ácidos graxos voláteis (AGVs) e estimula o desenvolvimento das papilas ruminais, responsáveis por sua absorção.

Quando fornecidas altas quantidades de alimentos volumosos, há um aumento de tamanho do rúmen, mas não de sua capacidade absortiva. Assim, à medida que o rúmen se desenvolve, partículas de alimentos são fermentadas e chegam ao abomaso menos grosseiras lesando menos a mucosa, sendo, então, considerado um fator de proteção. 

No entanto, estudos sustentam que o fornecimento de altos níveis de concentrado, como 20:80 (volumoso:concentrado) ou mais, diminui a ingestão de leite e é responsável por maior queda de pH abomasal, gerando lesões. Ainda, a ingestão de alimentos sólidos é estimulada pelo consumo de água ao facilitar a mastigação e deglutição, logo, a ingestão de água tem efeito linear no consumo de matéria seca. Logo, tão importante quanto o fornecimento de concentrado e volumoso, é o fornecimento de água de qualidade para estímulo do desenvolvimento ruminal e menor risco de ocorrência de lesões abomasais. 

Estudos demonstraram que animais com deficiências minerais, em especial cobre, selênio (Mills et al., 1990; Marshall, 2009) e ferro (Webb et al., 2013) têm maior incidência de perfurações abomasais. Este fato pode ser sustentado pela função essencial do cobre na ativação de neutrófilos, primeira linha de defesa do organismo, responsável por fagocitose, sinalização e controle de infecções. 

O fator estresse é um dos mais discutidos na atualidade, visto que o bem estar animal tornou-se uma grande preocupação e demanda dos consumidores. Çatik et al. (2015) propôs que ambientes estressantes predispõem a lesões abomasais por aumento da produção de ácidos gástricos, diminuindo o pH, aliado a menos movimentos peristálticos, passando de 6 a 7 para 0,5 a 2 movimentos por minuto.

Ambos, acarretam diminuição do fluxo sanguíneo local, gerando hipóxia dos tecidos, dano mecânico e diminuição de substâncias protetoras da mucosa, em especial as prostaglandinas E, responsáveis pela diminuição da produção de ácidos gástricos e aumento do tônus muscular do abomaso. 

Além destes fatores, a administração excessiva de antimicrobianos é causa frequente de desequilíbrio da flora gastrointestinal, quando associada a anti-inflamatórios não esteroidais há ainda uma imunossupressão, tornando o bezerro mais susceptível a diversas doenças. Walsh et al. (2016) encontraram ampla relação entre o uso de Ibuprofeno e incidência de úlceras abomasais, devido ao aumento da ação da pepsina, porém estudos com outros medicamentos precisam ser realizados. 

Ainda, estudos demonstram que o fator racial é importante para o desenvolvimento das lesões em bezerros. Os animais que têm maior crescimento e, por consequência, maior demanda energética e consumo, apresentando mais lesões. Em contrapartida, a estação do ano que apresenta menor incidência desta patologia é a primavera, fato este que pode ser explicado por consumo excessivo no inverno levando a sobrecarga e baixo consumo no verão, diminuindo o pH e deixando a mucosa vulnerável a ação de enzimas gástricas. 

Logo, a incidência de lesões abomasais é dependente do volume e número de refeições fornecidas de leite ou substituto, bem como velocidade de sucção e capacidade de coagulação deste leite no abomaso.

Assim como o fornecimento de água e dieta sólida de qualidade estão associadas ao desenvolvimento ruminal, fator de proteção ao abomaso. Além disso, fatores muito discutidos na atualidade, como bem estar animal e o uso racional de medicamentos são determinantes nas principais enfermidades da criação de bezerras. 

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Referências Bibliográficas
Bus, J. D., Stockhofe, N., & Webb, L. E. (2019). Invited review: Abomasal damage in veal calves. Journal of Dairy Science, 102(2), 943–960. https://doi.org/10.3168/jds.2018-15292

Çatik, S., M. Akbala, H. Kurt, and H. Salci. 2015. Abomasal ulcer and jejunal ileus caused by trichobezoar in a two-day-old calf. Ankara Univ. Vet. Fak. Derg. 62:139–145.

Lensink, B. J., X. Fernandez, X. Boivin, P. Pradel, P. Le Neindre, and I. Veissier. 2000. The impact of gentle contacts on ease of handling, welfare, and growth of calves and on quality of veal meat. J. Anim. Sci. 78:1219–1226. https: / / doi .org/ 10 .2527/ 2000 .7851219x.

Marshall, T. S. 2009. Abomasal ulceration and tympany of calves. Vet. Clin. North Am. Food Anim. Pract. 25:209–220. https: / / doi .org/ 10 .1016/ j .cvfa .2008 .10 .010.

Mills, K. W., J. L. Johnson, R. L. Jensen, L. F. Woodard, and A. R. Doster. 1990. Laboratory findings associated with abomasal ulcers/tympany in range calves. J. Vet. Diagn. Invest. 2:208–212. https: / / doi .org/ 10 .1177/ 104063879000200310.

Walsh, P., F. R. Carvallo Chaigneau, M. Anderson, N. Behrens, H. McEligot, B. Gunnarson, and L. J. Gershwin. 2016. Adverse ef- fects of a 10-day course of ibuprofen in Holstein calves. J. Vet. Pharmacol. Ther. 39:518–521. https: / / doi .org/ 10 .1111/ jvp .12295.

Webb, L. E., E. A. M. Bokkers, L. F. M. Heutinck, B. Engel, W. G. Buist, T. B. Rodenburg, N. Stockhofe-Zurwieden, and C. G. Van Reenen. 2013. Effects of roughage source, amount, and particle size on behavior and gastrointestinal health of veal calves. J. Dairy Sci. 96:7765–7776. https: / / doi .org/ 10 .3168/ jds .2012 -6135

POLYANA PIZZI ROTTA

Professora de Produção e Nutrição de Bovinos de Leite da UFV e coordenadora do Programa Família do Leite

KELLEN RIBEIRO DE OLIVEIRA

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RAFAEL

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - ESTUDANTE

EM 23/02/2021

Excelente artigo!
JOSE RIBEIRO DE CARVALHO

MANHUAÇU - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 18/02/2021

Parabens Polyana artigo muito bom esclareçi muitas duvidas sobri criaçao de bezerras;. desculpe os erros de portugues.
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