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Resistência no tratamento de mastite: por que é importante monitorar?

EDUCAPOINT

EM 07/08/2019

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A mastite bovina pode ser considerada como a causa mais frequente de uso de antibióticos em vacas leiteiras. Devido ao uso não racional dos antibióticos em muitos casos, o tratamento também é apontado como a principal causa de ocorrência de resíduos de antibióticos no leite. Especula-se, adicionalmente, que o uso indiscriminado e sem fundamentação técnica de antibióticos para o tratamento de doenças de origem bacteriana seja uma possível causa de desenvolvimento de resistência microbiana.

Desta forma, mesmo considerando a grande importância do uso dos antibióticos para a manutenção da saúde, do bem estar animal e da produtividade, diversas preocupações surgem quando não é feito o uso responsável e adequado dos antibióticos, o que não é interessante pois reduz o potencial de utilização de uma droga, quando se considera o longo prazo.

A emergência de resistência bacteriana entre patógenos associados com doenças nos animais tem sido uma grande preocupação na medicina veterinária. Neste cenário, os microrganismos resistentes aos antimicrobianos de origem dos animais são frequentemente incriminados como um potencial risco para a saúde humana. Particularmente preocupante tem sido o uso em muitos casos de esquemas de tratamentos em doses subterapêuticas em animais de produção. Tanto que a mastite é considerada como a doença que isoladamente tem sido mais objeto de resistência bacteriana. Além disso, os tratamentos recomendados para mastite apresentam diversas características que aumentam o seu potencial de desenvolvimento de resistência:

a) Normalmente os esquemas de tratamentos para mastite são de curta duração;
b) Com exceção da cefapirina, a maioria dos beta-lactâmicos (os mais usados para tratamentos de mastite) apresenta pouca atividade contra os microrganismos Gram-negativos;
c) A terapia da vaca seca é uma estratégia largamente usada que aumenta a exposição entre bactéria e antibiótico;
d) A eficácia geral dos antibióticos usados no tratamento de mastite é geralmente menor que 50%, em especial para as infecções crônicas.

As substâncias antimicrobianas corriqueiramente utilizadas para tratamento e prevenção de infecções bacterianas em animais são em grande parte das mesmas classes que aquelas utilizadas na medicina humana. Um estudo realizado na União Europeia observou que foram utilizadas em 1997 cerca de 3500 toneladas de antimicrobianos por ano, sendo que os mais utilizadas na medicina veterinária foram as tetraciclinas (2294 t), os macrolídeos (424 t), as penicilinas (322 t), os aminoglicosídeos (154t), sulfamidas+trimetropim (75 t), e fluorquinolonas (43t).

Na maioria dos países, os estudos mais recentes indicam que a mastite clínica é causada principalmente por patógenos ambientais, dentre os quais, os grupos dos estreptococos ambientais e estafilococos coagulase-negativa são os mais frequentemente isolados. A prevenção ou tratamento de mastites são as principais razões do uso de antibióticos em vacas leiteiras. Porém, o uso crescente e não prudente desses na produção leiteira pode estimular a resistência aos antimicrobianos, assim como aumentar o risco de transmissão dos genes responsáveis pela resistência para a microbiota dos seres humanos.

A resistência aos antimicrobianos dos patógenos causadores de mastites pode ser medida por meio de testes laboratoriais de sensibilidade fenotípica, frente a concentrações pré-determinadas de antimicrobianos para inibir o crescimento de bactérias. Podem ser utilizados os testes de disco difusão (antibiograma), diluição em ágar e microdiluição em caldo. Para interpretação dos resultados existem comitês internacionais que estabelecem critérios de interpretação (sensível, intermediário e resistente) para os métodos de antibiograma e também os pontos de inibição no caso da microdiluição (MIC). Os dois principais comitês internacionais são o CLSI (2013) dos EUA e EUCAST (2015) da Europa.

Além dos métodos genotípicos, podem também ser usados métodos genotípicos, os quais baseiam-se na detecção de genes relacionados à resistência frente a uma classe de antibióticos. Neste caso, os testes identificam se a bactéria em avaliação possui em seu material genético um determinado gene que codifica uma característica de resistência aos antibióticos.

Embora a prevalência de resistência à maioria dos antimicrobianos utilizados para os tratamentos de mastite ainda seja considerada baixa, é importante o monitoramento desta resistência para garantir a continuidade da saúde dos animais e dos seres humanos.

Em 2012, foi realizada uma pesquisa (Andrade, 2012) sobre a distribuição dos tipos específicos de Staphylococcus aureus em vacas com mastites subclínicas no Distrito Federal e Entorno. Esses dados são importantes, pois, é estimado que para cada vaca com mastite clínica em uma propriedade existam 14 casos de mastite subclínica.

Foram obtidas amostras de 116 animais, sendo 40 derivadas de visita nas propriedades e 76 enviadas diretamente ao laboratório. As amostras vieram de dez diferentes núcleos rurais (cooperativas e pequenos produtores) do Distrito Federal e Entorno.

As amostras foram testadas para as seguintes drogas: amoxicilina + ácido clavulânico, ampicilina, bacitracina, cefalexina, cefazolina, ceftiofur, enrofloxacina, espiramicina, gentamicina, lincomicina, neomicina, norfloxacina, oxacilina, penicilina, tetraciclina e tobramicina.

Das 116 amostras coletadas foram isolados 334 microrganismos, destes 47 era Staphylococcus aureus. Para a realização do antibiograma além das 47 cepas isoladas neste trabalho, adicionou 28 amostras de S. aureus do banco de germoplasma do Laboratório de MicroMedVet. da UnB. Todas provenientes de mastites subclínicas de bovinos do Distrito Federal e Entorno, chegando a um total de 75 amostras.



Os medicamentos que tiveram maior porcentagem de resistência para Staphylococcus aureus no presente estudo foram à penicilina (71,2%), ampicilina (52,9%) e enrofloxacina (39,9%), (Fig. 01). A resistência para penicilina neste estudo foi similar à encontrada por diversos outros estudos, alcançaram um indicador de resistência próximo a 70%.

Costa et al. (2013), analisou um total de 2.492 animais da região sul do estado de Minas Gerais, no Brasil, no período de 2004 a 2008. Foram usados no estudo 352 isolados caracterizados fenotípica e genotipicamente como Staphylococcus aureus.

As amostras foram submetidas a testes de antibiograma. Os antibióticos testados foram: ampicilina, cefalotina, cefotaxima, cefoperazona, ceftiofur, cloranfenicol, enrofloxacino, florfenicol, gentamicina, lincomicina, neomicina, nitrofurantoína, novobiocina, polimixina B, penicilina G, oxacilina, sulfazotrim, tetraciclina e cefquinoma, associações de penicilina, nafcilina e dihidroestreptomicina e de neomicina, bacitracina e tetraciclina.

Os índices de resistência para enrofloxacino e florfenicol, com valores de 0,26 e 0,40%, respectivamente foram considerados baixos, e para o grupo das cefalosporinas, com valores de 0, 0,28 e 0,40% para cefquinoma, cefalotina e ceftiofur, respectivamente. Dentre os aminoglicosídeos, encontraram números de resistência de 1,69% para gentamicina e 3,35% para neomicina.

Apesar das diferentes amostras apresentarem uma sensibilidade muito próxima para a maioria dos antibióticos avaliados, observou-se variações nos perfis de resistência para alguns medicamentos que são utilizados no tratamento da mastite, tais como tetraciclina, lincomicina, cefoperazona e sulfazotrim. Alguns rebanhos foram observados até cinco padrões de resistência.

Chagas et al. (2012), realizaram um estudo em uma propriedade rural produtora de leite tipo B no município de Indianópolis, estado de Minas Gerais, no período de 2009 a 2010, em um total de seis coletas de leite. Foram avaliadas 85 vacas em lactação, que foram submetidas ao teste CMT.

Do total de 85 vacas avaliadas, foram obtidas 1.608 amostras de leite. Dessas, 937 (58,3%) apresentaram resultados negativos e 671 (41,7%) positivos. Na primeira coleta foi observado que trinta vacas, (53,0%) apresentavam mastite subclínica e nove, (16,0%) mastite clínica. Ocorreu aumento de vacas com mastite subclínica, especialmente, entre janeiro a abril de 2010. Este fato pode ser explicado pela existência de patógenos contagiosos e ambientais presentes no rebanho e também por falha na higienização dos utensílios usados para fazer a ordenha pelos funcionários, que foi observado nos dias da primeira coleta das amostras, além da terapia da vaca seca que não era adotada de forma eficaz. De modo geral, a mastite subclínica permaneceu com maior presença durante todas as coletas frente à mastite clínica.

No estudo realizado por Chagas et al. (2012) o agente com maior prevalência foi Staphylococcus aureus (45,0%), seguido de Staphylococcus epidermidis (10,0%). Os estafilococos coagulase negativa totalizaram 15,0% das estirpes e os estafilococos coagulase positiva, 10,0%.

Das 118 estirpes de estafilococos isoladas, evidenciou sensibilidade a maioria das drogas testadas. Contudo, foi observado um perfil de resistência de Staphylococcus sp de 61,8% à penicilina, 15,2% à oxalina e 9,3% à tetraciclina, (Fig. 02).



Transferência de genes

A transferência de genes de resistência aos antimicrobianos a partir de patógenos causadores de mastites pode ser uma fonte potencial de transmissão desses genes para a população microbiana.

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Wisconsin, EUA, realizou um estudo que comparou as características de resistência fenotípica dos patógenos Gram positivos causadores de mastite com ocorrência de genes relacionados à resistência aos antimicrobianos.

Foram selecionados quatro diferentes genes relacionados com a resistência à penicilina (gene blaZ), tetraciclinas (tetM e tetK) e eritromicinas e lincosamidas (ermC), sendo que nas mesmas bactérias foi realizado o teste de concentração inibitória mínima (MIC) para os antibióticos ampicilina, ceftiofur, cefalotina, enrofloxacina, eritromicina, florfenicol, oxacilina, penicilina, penicilina+novobiocina, pirlimicina, sulfadimexotine e tetraciclina.

Foram utilizados agentes causadores de mastite clínica de 50 rebanhos, dentre os quais: Staphylococcus aureus, estafilococos coagulase-negativa, Streptococcus spp., Streptococcus uberis, Streptococcus dysgalactiae e um grupo de não-streptococcus (Aerococcus viridians, Enterococcus durans, Enterococcus faecium e Lactococcus lactis).

Resultados de sensibilidade aos antimicrobianos

Os antibióticos com os maiores índices de sensibilidade foram o ceftiofur, cefalotina, penicilina+novobiocina e penicilina, os quais apresentaram 100% de sensibilidade para todos os isolados testados. Os resultados com menor índice de sensibilidade foram encontrados para isolados de Staphylococcus aureus e Estafilococos coagulase-negativa em relação à eritromicina e florfenicol. No grupo dos Streptocococcus spp foram encontrados os menores índices de sensibilidade para enrofloxacina, tetraciclina e sulfadimexotim. Deve-se destacar que estes resultados de sensibilidade foram obtidos para testes in vitro, sendo que não seria recomendável esperar estes mesmos resultados para escolhas de antibióticos para tratamento de mastite.

Por outro lado, foi encontrada uma baixa correlação entre a ocorrência dos genes de resistência e a resistência fenotípica em todas bactérias avaliadas. Apenas foi encontrada correlação de 100% para isolados de Staphylococcus aureus e Estafilococos coagulase-negativa resistentes à penicilina, os quais apresentaram o gene blaZ e também uma correlação de 100% para o gene tetK em S. aureus com resistência intermediária à tetraciclina. Os demais antimicrobianos e suas respectivas correlações variaram de 0- 67%.

Estes resultados de baixa correlação entre a ocorrência de genes de resistência e os testes de sensibilidade in vitro indicam a necessidade de estudos adicionais para validação de critérios de interpretação das concentrações inibitórias mínimas para doenças específicas, como a mastite.

Atualmente, existem apenas três antimicrobianos com padrões de interpretação específicos para mastite, que são a pirlimicina, o ceftiofur e a penicilina+novabiocina. A interpretação dos resultados de antibiograma, por exemplo, dos demais antibióticos é feita com base em padrões de outros tecidos (como doença respiratória em bovinos) ou mesmo outras espécies de animais, o que explica a baixa correlação entre os resultados dos teste de sensibilidade aos antimicrobianos in vitro e as taxas de cura dos tratamentos de mastite.

Por fim, recomenda-se sempre o emprego de antibióticos com racionalidade e responsabilidade, uma vez que o que hoje pode ser considerado uma ferramenta essencial para a saúde animal, pode passar a ter eficiência reduzida no futuro. Um caso exemplar, para não perder de vista a importância do uso racional de drogas veterinárias é o caso dos parasiticidas, em particular carrapaticidas e mosquicidas, dos quais atualmente, a grande maioria das bases não tem mais a eficiência que tinha quando da sua introdução no mercado.

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Fontes consultadas:

Resistência aos antimicrobianos de patógenos causadores de mastite (https://www.milkpoint.com.br/colunas/marco-veiga-dos-santos/resistencia-aos-antimicrobianos-de-patogenos-causadores-de-mastite-205906n.aspx)

Resistência aos antimicrobianos e controle de mastite (https://www.milkpoint.com.br/colunas/marco-veiga-dos-santos/resistencia-aos-antimicrobianos-e-controle-de-mastite-16219n.aspx)

AGENTES CAUSADORES DE MASTITE E RESISTÊNCIA BACTERIANA, MARCOS REI MAGELA DE OLIVEIRA e MARGARETI MEDEIROS, em REVET - Revista Científica de Medicina Veterinária - FACIPLAC Brasília - DF, v.2, n. 1, Dez 2015 (https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&cad=rja&uact=8&ved=2ahUKEwjT6Ly5i9DjAhWUJLkGHbIDD5YQFjAAegQIABAC&url=http%3A%2F%2Frevista.faciplac.edu.br%2Findex.php%2FRevet%2Farticle%2Fdownload%2F118%2F66&usg=AOvVaw3XgRW_Asiv94dqqA2ChnU1)

ANDRADE, H. H. Genotipagem de cepas de staphylococcus aureus isolados de mastites subclínicas bovina no distrito federal e entorno. Universidade de Brasília faculdade de agronomia e veterinária. Programa de pós-graduação em saúde animal. Brasília/DF, julho/2012.

CHAGAS, L. G. S.; MELO, P. C.; BARBOSA, N. G.; GUIMARÃES, E. C.; BRITO, D. V.
D. Ocorrência de mastite bovina causada por staphylococcus sp., streptococcus sp. e candida sp. em uma propriedade rural no município de Indianópolis – Minas Gerais, Brasil. Biosci. J., Uberlândia, v. 28, n. 6, p. 1007-1014, Nov./Dec. 2012.


COSTA, G. M.; BARROS, R. A.; CUSTÓDIO, et al. Resistência a antimicrobianos em Staphylococcus aureus isolados de mastite em bovinos leiteiros de Minas Gerais, Brasil. Arquivo Instituto de Biologia, São Paulo, v.80, n.3, p. 297-302, 2013




 

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