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Os custos de alimentação subiram, e agora o que fazer?

POR LEONARDO DANTAS DA SILVA

COWTECH

EM 03/12/2020

9 MIN DE LEITURA

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Atualizado em 03/12/2020

Todo produtor de leite precisa, para ser eficiente, ser um bom agricultor. Até aí, nenhuma novidade. Mas em anos como 2020, onde nenhuma previsão logrou êxito (nem climática, nem de mercado de insumos, nem de mercado de leite), o cenário exige mais que isso.

Houve um momento no início da pandemia em que os laticínios pediram aos produtores que diminuíssem a produção pois não tinham como manter os preços, nem mesmo garantiam a compra do leite. As sugestões dadas foram: secar as vacas, diminuir a ração, passar de 3 para 2 ordenhas, parar uso de bST... Naquele momento, o caos se instalou pois era um momento inédito para todos: uma pandemia obrigava a população que ficasse em casa. Sem crianças nas escolas, uma onda de demissões ocorrendo, um medo generalizado e justificado pela falta de perspectivas pelo que viria.

Menos de 2 meses após, já com o auxílio emergencial sendo disponibilizado aos desempregados, com as famílias comprando leite (e estocando em casa), com aumento no consumo de derivados do leite (iogurtes e queijos) e com a alta do dólar, inviabilizando importações de lácteos mas favorecendo exportações de commodities agrícolas (milho e soja), tivemos um cenário até então inédito: a escalada nos preços dos alimentos e ao mesmo tempo aumento importante no preço do leite. Parecia que um equilíbrio se estabelecia, que a relação de troca seria suficiente para manter o produtor confiante e motivado a continuar firme na atividade.

Mas 2020 é um ano diferente, desgraça pouca é bobagem! Uma seca das mais severas atinge o país, com queimadas descontroladas no Pantanal, na Amazônia..., mas que interrompe o ciclo de produção de alimentos, principalmente na região Sul do País; atrasa o início do plantio da soja no Centro Oeste e consequentemente cria o cenário apocalíptico para a produção de milho safrinha! Ao mesmo tempo, recordes no preço da arroba do boi, abate de fêmeas leiteiras, estoques de volumosos acabando nas propriedades.... Quem iria imaginar tudo isso, no prazo de 6 meses!! Mas ainda não acabou.

Temos agora o fantasma dos preços de insumos (milho e soja) que não irão baixar, pois as vendas futuras com preços altos dos mesmos já contabilizam mais da metade de todo potencial de produção. Temos uma demanda por carne que direciona ao descarte de matrizes leiteiras. O futuro do leite no Brasil está sendo desenhado, de forma acelerada, para a produção eficiente. Mas, como se manter eficiente com alta tão importante dos insumos, se metade do custo de produção vem da alimentação?

Bom, se metade do custo de produção vem da alimentação, tem uma outra metade que vem de outros itens, como mão de obra, energia, ordenha, reparo de máquinas e equipamentos, etc. Mas também é preciso lembrar que essa proporção de custos é dinâmica, ou seja, diminuindo ou aumentando um item de custo, muda a proporção dos outros itens de custo. Já sobre a receita, aumentar ou diminuir a produção das vacas leva a mudança proporcional dos custos de produção. Ou seja, nesse cenário de crise é preciso lidar com os números para diminuir gastos proporcionalmente e aumentar o rendimento das vacas.

Os custos alimentares diários das vacas de alta produção atualmente estão na casa de R$ 25,00 ou mais. Se a vaca produz menos de 12 litros ao dia (recebendo bST), ela não paga sua diária dentro do rebanho, considerando o preço do litro de leite a R$ 2,00) e ainda acaba consumindo o escasso estoque de volumosos. Se na fazenda não há condições de manter uma vaca seca sem uso de concentrados (ou seja um bom pasto limpo, com sombras, sem carrapatos e com qualidade nutricional para mantença dessas vacas), esse animal acaba sendo direcionado ao descarte!! Se ela estiver prenha, é preciso fazer o balanço entre manter no leite (comendo o escasso volumoso) e manter no pasto (correndo risco de perda de condição corporal e prejudicando a lactação futura). A decisão é por conta de cada fazenda.

Mas as oportunidades precisam ser encontradas em outros setores: temos fatores não nutricionais que podem levar ao aumento na eficiência alimentar dos animais. Vou aqui elencar alguns que considero os principais. Cabe a cada produtor elencar em qual deles poderá ter o máximo retorno.
 

1. Combate ao estresse térmico:

É assunto de discussão em qualquer roda de produtores: vacas estressadas produzem menos, emprenham menos, ficam mais doentes. Resfriamento na sala de espera não é apenas para produtores de vacas especializadas: toda vaca produtora de leite, quando aglomerada em um espaço de 2 metros quadrados, sem ventilação, sem acesso a bebedouro, em pé acaba tendo uma hipertermia relacionada ao estresse térmico. Vale para sistemas confinados e a pasto. PORTANTO: quer aumentar de 1,5 a 2 litros de leite por vaca por dia, monte um sistema eficiente de resfriamento na sala de espera. Suas vacas agradecerão e devolverão em leite, sem que seja necessário aumento demasiado no consumo de alimento! Sim, isso é o mais importante, pois mais da metade na queda de produção de leite pelo estresse térmico ocorre por diminuição na eficiência alimentar, uma porção menor ocorre por queda de consumo. 

Quer melhorar também a eficiência reprodutiva e a imunidade? Monte um sistema de resfriamento pensando na necessidade das vacas. É preciso evitar que as vacas tenham hipertermia – muito mais eficiente que esperar as vacas esquentarem para depois resfriar. Para isso, é necessário dar de 6 a 8 banhos diários, lembrando que diário quer dizer nas 24 horas do dia: a noite também é preciso dar banho. Por volta de 20:00hs é o horário em que os produtores acreditam que, pela diminuição da temperatura ambiente, as vacas estarão em conforto térmico. Porém, é o momento em que o calor acumulado do metabolismo da vaca ao longo do dia é maior e ocorre hipertermia (temperatura corporal acima de 39,1 graus C). 

A diferença de resultados entre resfriar ao longo do dia e fazer banhos apenas na sala de espera, antes das ordenhas se mostra nas taxas de concepção: 15 a 20% sem resfriamento vs 35 a 40% com resfriamento!


2. Mastite Clínica e Contagem de Células Somáticas (CCS):

Vacas com mastite produzem menos, vacas com alta CCS produzem menos. Simples assim! É preciso combater essa doença no rebanho, diariamente. Além disso, baixar a CCS do rebanho traz o benefício adicional de aumento no valor do litro de leite, sem que a vaca coma a mais para isso!!

Vacas com mastite e vacas com alta CCS tem a eficiência reprodutiva piorada. Gastam medicamentos, aumentam risco de perda de leite com antibióticos, tomam tempo dos funcionários... Portanto, quer aumentar a eficiência alimentar no rebanho, cuide da saúde da glândula mamária.


3. Número de ordenhas:

Em um cenário em que as vacas “boas” dão lucro e as vacas “ruins” dão muito prejuízo, nada mais acertado que migrar todo o rebanho para o grupo de vacas “boas”.

Passar de 2 para 3 ordenhas leva a custos adicionais de mão de obra, insumos de ordenha, energia elétrica e aumento de consumo de alimentos, porém promove aumento da ordem de 2,5 a 3 litros por vaca, principalmente nas recém-paridas. 

A conta deve ser feita em cada fazenda, considerando também a questão organizacional (turnos de ordenha). Dica: se o rebanho tem alta CCS, relacionada a agentes contagiosos, NÃO passe para 3 ordenhas,  pois aumentará o risco de transmissão de mastites entre as vacas!
 

4. Casqueamento/escore de locomoção:

Vacas mancas andam menos, comem menos, emprenham menos e produzem menos. Dão mais trabalho, gastam medicamentos, tem maior chance de serem descartadas ou morrer precocemente no rebanho.

Portanto, em tempos de crise não podemos esquecer de manter a saúde dos cascos em dia! O casqueamento preventivo, uso de pedilúvio, tratamento imediato das doenças dos cascos não podem ser considerados fatores secundários no sistema de produção. Uma vaca manca é um animal que sofre e mostra que tem algo errado no ambiente, que o conforto não está adequado. A vaca manca clama por ajuda! Coloque uma bota de borracha e passe um dia com as vacas. Ao final do dia você será capaz de identificar os pontos de correção no manejo das vacas para evitar dores de cabeça com vacas mancas!

 

5. Combate às moscas:

Um transtorno para muitas fazendas é a alta infestação do rebanho por moscas. Além de levarem à diminuição de consumo (principalmente as moscas hematófogas Stomoxys calcitrans), são transmissoras de doenças (entre elas, mastites e papilomatoses). O combate com tratamentos químicos é paliativo, já que moscas voam de longe (e rapidamente), logo as infestações voltam aos níveis anteriores aos tratamentos. O correto tratamento dos dejetos e de sobras de alimentos deve ser o foco principal no combate a esses insetos, eliminando os criadouros e diminuindo a população emergente de novas moscas. Além disso, dejetos bem manejados retornam ao sistema de produção como fertilizantes, diminuindo os custos da produção de volumosos.


6. Agrupamento de vacas:

A divisão do rebanho em lotes de produção pode ser feita de diversas maneiras, de acordo com a necessidade de cada fazenda. Porém há um grupo de vacas que responde, fortemente em produção de leite, quando se dá a atenção devida: são as primíparas. A separação delas das demais vacas do rebanho evita competição que além de limitar a produção de leite pode levar a acidentes em decorrência de brigas com vacas dominantes.

Outro grupo de vacas que precisa de uma atenção especial, em qualquer rebanho e em qualquer sistema de produção é o lote pré-parto. Iniciar a lactação com alguma doença pode resultar em perdas não reparáveis por toda a lactação (em produção de leite e reprodução). O início da lactação é fortemente influenciado pelo que ocorreu com as vacas nos 21 dias antes do parto. Portanto, NUNCA negligencie esse grupo de vacas, pois elas serão as responsáveis por produzir leite nos próximos 300 dias!

Continuando a divisão de grupos, mas não com menos importância, o lote pós-parto tem exigências específicas quanto a dieta, consumo de alimento e cuidados sanitários (a maior ocorrência de doenças em qualquer rebanho ocorre nesse grupo de animais). Promover rápido aumento na produção leiteira e rápido aumento no consumo de alimentos deve ser a meta, para garantir alto pico de produção de leite e rápido retorno a ciclicidade. Para cada litro adicional de leite no pico de produção teremos 200 a 250 litros adicionais de leite no restante da lactação. Portanto, NUNCA negligencie esse grupo de vacas no rebanho!!

Rotinas, rotinas e rotinas...

As vacas leiteiras respondem muito bem às rotinas bem feitas, e rotinas mal feitas ou ausência de rotinas levam a diminuição da expressão do potencial leiteiro. 

Nos itens acima comentados, para gerar aumento na produção de leite não é necessário alterar componentes da dieta. Esses fatores não nutricionais bem manejados direcionam para o produtor eficiente que poderá aproveitar os preços atuais do leite e conseguir até mesmo altos ganhos financeiros, por manter as vacas em alta produção leiteira. De forma inversa, as falhas nesses fatores não nutricionais levarão à baixas produções por vaca, inviabilizando a permanência na atividade.

Nos momentos de crises é possível diferenciar os produtores mais competentes dos menos competentes: de que lado você está atualmente?

 

Autor: Leonardo Dantas, médico veterinário e consultor da COWTECH.

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LEONARDO DANTAS DA SILVA

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SALVADOR ALVES MACIEL NETO

RIO PRETO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/12/2020

Belíssima postagem, concordo com tudo que tu falou, e acho que o resumo de sua postagem, foi na seguinte frase: Vaca boa da lucro, vaca ruim da um enorme prejuizo
JOÃO LEONARDO PIRES CARVALHO FARIA

MONTES CLAROS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/12/2020

Conforto, conforto, conforto, conforto......as vacas precisam de CONFORTO!
AFONSO VOLTAN

JALES - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 04/12/2020

Parabéns, Leonardo! Artigo muito oportuno, bem pensado, bem exposto e totalmente pertinente!
JUAREZ GONÇALVES MOREIRA

BANDEIRA DO SUL - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 03/12/2020

Parabéns
Melhor explicação, não há.
MilkPoint AgriPoint