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Dicas e cuidados com o manejo da alimentação visando o aumento da produção de leite - parte I de II

POR COWTECH - CONSULTORIA E PLANEJAMENTO

COWTECH

EM 03/07/2019

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João Paulo V. Alves dos Santos, Engenheiro Agrônomo da Cowtech Consultoria e Planejamento Ltda.

No decorrer de anos atuando no mercado de consultoria técnica específica em fazendas de leite nos deparamos, sempre, com a solicitação de mudanças de dietas como a melhor forma para a solução de problemas associados à queda de produção ou necessidade da produção de leite.

A pergunta que costumamos realizar, quando somos acionados para tal demanda é: há, realmente, a necessidade de correção de uma dada formulação? Como é realizado o manejo da alimentação na propriedade? Quais são os fatores envolvidos em diferentes etapas da rotina de alimentação das nossas vacas que, de fato, podem comprometer os resultados?

O que constatamos, na prática, é que há uma série de confusões no momento da tomada de decisão, quando o assunto é: manejo da alimentação. O que podemos garantir é que, dentro de uma lista de itens a serem avaliados a formulação da dieta é um tópico que vai para o final da lista em ordem de importância. A decisão de não alterar formulações nem sempre é compreendida e bem aceita por muitos pecuaristas, gerentes e até mesmo técnicos envolvidos no trabalho de nutrir, diariamente, animais em produção.

O objetivo desse artigo é chamar atenção para diferentes etapas do manejo da alimentação de vacas em produção e elencar alguns indicadores importantes para aumentar a eficiência da produção e garantir bons resultados. Paralelamente, oferecer subsídios corretos para eventuais mudanças em formulações e/ou propostas dietas.

1) Leite é água:

Por mais elementar que seja esse conceito, a primeira pergunta que realizamos quando somos acionados para solução e “cases” envolvendo o manejo da alimentação é:

“Qual é a origem, qualidade, quantidade e disponibilidade de água para o rebanho da fazenda?”

A questão da água e manejo da mesma em propriedades, infelizmente, em muitos casos é negligenciada. Não podemos nunca esquecer que, cerca de 90% da composição do leite é água. Além disso para pleno funcionamento do rúmen (motilidade) dependemos de uma boa ingestão de água. No verão a demanda por água aumenta significativamente e o produtor deve estar atento a essa questão. Notem que perguntamos sobre origem, ou seja, de onde vem (mina, poço, captação superficial), sobre a quantidade, ou seja, saber se a fazenda tem boa oferta de água e disponibilidade que é um conceito confundido com oferta. Existem propriedades com ótima quantidade de água, porém não disponível (seja em lençol freático não explorado) ou mesmo ineficiência de captação (em qualquer sistema) ou erros em relação à locação e quantidade de bebedouros disponíveis.

Não adentraremos, em detalhes e questões específicas envolvendo, o fornecimento de água, mas sim destacarmos pontos importantes que devemos prestar atenção no fornecimento de água para os animais.  Partindo do pressuposto de que “leite é água”, quanto maior a oferta, disponibilidade e consumo, maior será a chance de aumentarmos a produção de leite. Uma vaca em produção consome cerca de 3 litros de água para cada litro de leite produzido. No verão essa proporção pode mudar para 4:1. Logo, uma vaca produzindo 30 litros pode consumir até 120 litros de água/dia.

Anote:

a) verifique se você atende, corretamente a demanda esperada de consumo de água das suas vacas;

b) crie meios de mensurar o consumo efetivo de água e confira se suas vacas estão bebendo o suficiente para produzirem o que deseja;

c) garanta oferta de água de qualidade, em abundância e em locais corretos. Sala de espera e saída de ordenha são locais interessantíssimos de se oferecer água para os animais, principalmente no pós-ordenha, no trajeto até cocho de alimentação ou piquete (no caso de pastejo).

2) Pesagem do leite e divisão de lotes:

Já fui chamado para visitar clientes, recebendo o seguinte questionamento:

“Há cerca de 2 meses passou um técnico aqui, da empresa tal que me ofereceu um produto muito interessante para o aumento da produção. Um produto excelente que promove isso, mais aquilo e muito mais... além disso achou que eu deveria mudar da dieta pois estava tudo meio fora... Como a produção estava baixa, mudei para testar...”

Acreditamos que, muitos colegas, produtores e demais envolvidos coma atividade já tenham ouvido pelo menos uma vez na vida, relatos semelhantes. Então surge a pergunta:

“Sim, então: houve melhoria com as mudanças? Qual foi a resposta produtiva? O colega avaliou o controle leiteiro dos animais (pesagem do leite)? Avaliou a divisão de lotes?”

Pois bem, vamos lá: não existe o conceito de “mudei para testar”... ou temos convicção e certeza daquilo que fazemos, fundamentados em dados claros e objetivos ou nem devemos implementar uma “incerteza”. A produção de leite não é uma bateria de “testes”, mas sim uma atividade que requer profissionalismo e muitos cuidados para não darmos margem à tomada de decisões erradas como esse exemplo, usual.

O primeiro cuidado que o produtor deve ter para poder aplicar conceitos nutricionais corretos é a rotina de pesagem de leite. Deve ser realizada com a frequência mínima mensal. Sem a realização do controle leiteiro é impossível realizamos um correto manejo da alimentação. O produtor pode tentar, porém trabalhará no “achismo” que não combina com a atividade. É necessário saber:

a) Quantos animais estão em cada lote?

b) Qual é o espaçamento de cocho por animal de cada lote?

c) Qual é o período de lactação médio do rebanho (dias e lactação: DEL) e de cada lote?

d) O que está sendo oferecido para cada lote, como é realizado o carregamento e distribuição e mistura do alimento para cada lote (se houver)?

e) Qual é a quantidade de sobra que está havendo, em média, em cada lote xs quantidade de alimento oferecida para mensuramos o consumo efetivo;


f) Uma vez sabendo o consumo como está a eficiência alimentar, ou seja, quantos kg de alimento são necessários para produção de 1 kg de leite?

Após realizarmos este levantamento inicial, precisamos verificar se o critério de divisão de lotes está correto. As vacas (multíparas), estão separadas das novilhas (primíparas)? Os animais estão separados por produção de leite e por DEL? Quantos tratos são realizados por dia? Os horários dos tratos acompanham as ordenhas?

Anote:

a) Produção de leite depende muito de conforto, quantidade e qualidade de alimento misturado e fornecido: verifique se está havendo consumo efetivo. Meça sobras. Entenda a sobra de cada lote;

b) Capacite pelo menos um colaborador, na fazenda, para a leitura de cocho. Acompanhar as oscilações de consumo animal é fundamental para otimização da produção;

c) Atente para a composição de lotes correta (divisão). Primíparas devem, sempre, estar separadas. Avalie o manejo pré e pós-parto, verifique se há manejo de transição (dietas);

d) Dê atenção ao correto espaçamento de cocho, garanta mínimo de 0,75 m/vaca em free-stalls ou 0,65 m/vaca em sistemas robotizados.

3) Conceito de dieta total (TMR):

Independentemente do sistema de produção em vigor: confinamento total, misto (semi-confinamento) ou pastejo, a suplementação alimentar faz parte da rotina de uma fazenda produtora de leite.

Com exceção de sistemas de alimentação, efetivamente, a pasto em baixas latitudes, com suplementação, exclusiva com concentrado, apenas, é muito comum o fornecimento de volumosos suplementares com concentrado. Em sistemas mistos, devemos atentar ao impacto que a suplementação pode trazer ao consumo efetivo de pastagem (depressão). Na maioria dos casos o produtor acaba “se animando” com os benefícios da suplementação sem levar em consideração a provável depressão no consumo de forragem oriunda da pastagem. Se o pasto é o seu alimento mais barato, deve atentar à resposta obtida com a suplementação.

Sob o ponto de vista técnico recomendamos, sempre que possível, a suplementação combinada (forragem + concentrado) e no caso de sistemas confinados o conceito “full” de TMR’s (total mix ration). Por mais elementar que seja o princípio de uma TMR (evitar seleção e garantir a proporcionalidade da ingestão de nutrientes na melhor condição de ambiente ruminal), muitos produtores pecam realizando alterações parciais em dietas aumentando somente dosagem de concentrados e mantendo fixa a quantidade de  volumoso, com consequências desastrosas. Reduções ou aumento de fornecimento de alimento via TMR devem ser proporcionais e, para tal, o produtor deve ser muito criterioso na pesagem e carregamento de ingredientes de uma dada formulação. Por este motivo que há, no mercado, uma boa oferta de equipamentos munidos de balanças programáveis para pesagem de cada alimento e distribuição dos mesmos de forma correta, em cada cocho.

Infelizmente, são muitas as fazendas equipadas com vagões TMR’s programáveis, porém com uso indevido e/ou pouco eficiente dos mesmos. Muitos pecuaristas acabam “comprando” a ideia de que o investimento e aquisição de um vagão TMR possa ser a solução para seus  problemas, porém se esquece que para tal, precisa ser utilizado corretamente! Num primeiro momento, um vagão TMR tende a trazer resultados em fazendas por promover uma melhor mistura dos ingredientes, no entanto aumentamos a chance de êxito ao utilizarmos todos os seus recursos.

Anote:

a) Avalie sempre a possibilidade de alimentar suas vacas com vagão TMR;

b) Dê preferência para vagões auto-carregáveis equipados com balança programáveis;

c) Programe a sua balança. Se não sabe como, procure quem possa fazer!

d) Garanta o correto carregamento de cada ingrediente e distribuição das dietas nos cochos.

Confira em breve a segunda parte deste artigo que abordará:

  • Produção, consumo e conforto animal;
  • Alternativas inteligentes para otimizar o rendimento do manejo da alimentação e;
  • Relatórios gerenciais. 

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