O que o Sudeste Asiático me ensinou sobre leite

Diana Jank mostra como o comportamento de consumo em Singapura pode inspirar novas estratégias para o leite no Brasil, unindo propósito e leveza.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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A autora, bolsista do Programa Nuffield, relata sua experiência em Singapura, onde constatou que mais de 90% dos produtos alimentares são importados e que o consumo de leite é baixo devido à intolerância à lactose. Observou a predominância de leite importado, especialmente da Austrália. A visita à ANZ destacou que, enquanto no Ocidente o foco é na integridade dos produtos, na Ásia é mais sobre sabor e preço. A reflexão sugere a importância de conectar com o consumidor de forma leve e divertida, em vez de se perder em discursos defensivos sobre o leite.

Recentemente estive em Singapura como parte da visita do Programa Nuffield, do qual sou uma bolsista do ano de 2025.

Antes de chegar ao supermercado para analisar a gôndola de leite - como sempre faço não importa aonde eu esteja no mundo (risos) - eu já estava esperando duas realidades. A primeira é que eu não encontraria nenhuma produção local, afinal, estamos falando de uma ilha menor do que a cidade de São Paulo, com limitadíssimo acesso a recursos naturais e à terra. Mais de 90% dos produtos consumidos pelos singapurianos são importados e o governo possui um plano ousado de produzir localmente 30% da demanda nutricional do país até 2030. A segunda é que o espaço dedicado ao leite seria pequeno. Os orientais tendem a ser mais intolerantes e apresentarem maiores dificuldades de digestão da proteína do leite, portanto, o consumo - de forma geral - é muito menor se comparado a Europa, por exemplo.

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De fato, visitei alguns supermercados e não havia nenhuma marca de leite local. Por outro lado, fiquei surpresa ao encontrar inúmeras garrafas e caixinhas de leite 100% fresco produzidos na Austrália, China e Indonésia. Encontrei também uma grande variedade de leite A2, bastante alinhado à necessidade asiática sobre melhor digestibilidade. Qualquer produto oriundo da Austrália tem uma excelente reputação e é visto como premium, portanto o preço é sempre mais alto. A máxima vale para diferentes categorias além do leite como carnes, vinhos e frutas por exemplo.

Figura 1. Leite A2 Australiano

Figura 1

 

Figura 2. Leite chines

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Figura 3. Leite indonésio
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As gôndolas refrigeradas destinadas a leites e derivados eram realmente pequenas. Especialmente quando comparamos com os Estados Unidos no momento atual que vive um aumento no consumo de leite associado a uma super valorização de alimentos frescos, básicos e minimamente processados.

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Diferentemente de outras visitas a outros supermercados e em outros países, o que mais chamou minha atenção não foi uma tendência específica, um rótulo diferente ou um sabor inovador, e sim o que podemos aprender com o comportamento de consumo do singapuriano. A lição veio do mercado de carnes, mas se aplica perfeitamente ao leite porque acredito que produções de alimentos de origem animal acabam enfrentando dificuldades parecidas.

Durante meu tempo em Singapura, tive a oportunidade de visitar a sede da ANZ (Australia and New Zeland Banking Group) e de entender melhor sobre o setor de carnes, de grãos, de trade e dos principais números sobre os países que fazem parte do Sudeste Asiático. O que mais me marcou foi a verdadeira aula dada por Andrew Cox - Diretor da MLA (Meat&Livestock Australia - a organização da indústria de carne vermelha da Austrália que atua como uma ponte entre produtores, indústria e consumidores, garantindo que a carne bovina, ovina e caprina do país seja competitiva, sustentável e valorizada no mundo todo) sobre marketing e consumo.

A tomada de decisão - especialmente no mercado de nicho - no Ocidente está mais relacionada à integridade do que será consumido, enquanto na Ásia é sobre sabor, preço e segurança alimentar. Esqueça orgânico, grass-fed ou carbono zero, inclusive para público A/B. Andrew trouxe a importância de focar na mensagem e nos consumidores. Gastar milhões para se defender e convencer pessoas que não gostam do que você produz, não faz sentido. É muito mais importante falar sobre sabor, ensinar diferentes formas de consumo e criar memórias familiares ao redor da comida do que qualquer outro ponto. A fala dele veio carregada de leveza.

Pode soar bastante óbvio, mas me deixou bastante reflexiva. Preciso afirmar que, grande parte do meu tempo à frente de uma marca de leite de alto valor agregado no Brasil, é gasto pensando em posicionamento de marca. É impossível, para mim, pensar na conexão com o meu consumidor sem falar de sustentabilidade, bem-estar animal ou certificação. E, indiscutivelmente, essas pautas são essenciais. Além da parte prática e óbvia de ser fundamental pensarmos sobre isso para um futuro ambiental, social e economicamente saudável, já está comprovado que esse consumidor esclarecido está disposto a pagar mais pela garantia de estar consumindo um alimento `do bem` e ir muito além do valor nutricional, se conectando com os propósitos, valores e essência da marca em questão.

A verdade é que, por mais que seja muito importante evidenciar a missão de uma marca, jamais podemos nos esquecer de make it fun. 

O conteúdo divertido engaja, conecta, aproxima e é imprescindível para a construção de um bom storytelling. Em tempo, acredito que já vivemos anos mais turbulentos em relação à imagem do leite no Brasil e que, como setor, ainda é possível fazer muito mais - de forma organizada e potente - , mas talvez o comportamento de consumo mais descomplicado do Sudeste Asiático esteja aí para nos lembrar de que jamais devemos nos esquecer de quem realmente gosta e valoriza o leite. Não podemos nos perder no pessimismo, na insegurança e no discurso reativo, investindo tempo e dinheiro para defender obviedades. Tem gente que não gosta de leite e está tudo bem. A icônica campanha da Got Milk? Sintetiza bastante essa linha de pensamento: se conecta com o público por meio de um conteúdo jovial, moderno, divertido e bonito. Vai muito além da pautas sobre saudabilidade e não perde tempo com discursos cansativos defendendo a importância do leite na vida do ser-humano.

Que não deixemos de seguir tendências dinamarquesas, mas que a gente não se esqueça do Sudeste Asiático. Me parece uma combinação de sucesso para um Brasil que respira diversidade.

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Altegno Dornellas
ALTEGNO DORNELLAS

UNAÍ - MINAS GERAIS - INDÚSTRIA DE LATICÍNIOS

EM 12/10/2025

A tradição nos ensina como se deve fazer produtos, a modernidade nos cobra entregar propósitos. A régua que mede as duas propostas traça linhas paralelas em busca de satisfação e, como tal, nao se encontram. O esforço de convergência se compara a convencer alguém que é apreciador de etilicos que existe um outro caminho, poder se embriagar por exemplo, tomando cerveja zero álcool.
Juliano Alarcon Fabricio
JULIANO ALARCON FABRICIO

FRANCISCO BELTRÃO - PARANÁ - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 01/10/2025

Oi, Diana!
Acabei de ler o seu artigo sobre o que o Sudeste Asiático pode ensinar sobre o leite e achei riquíssimo. Gostei muito da forma como você trouxe a visão de consumo com leveza e propósito, especialmente quando destaca que não adianta gastar energia defendendo quem não gosta, mas sim encantar quem já valoriza.

Eu trabalho diretamente com produtores de leite aqui no Brasil e fiquei com várias reflexões sobre como podemos aplicar isso na prática. Obrigado por compartilhar sua experiência!

Um forte abraço.
Marcelo Pereira de Carvalho
MARCELO PEREIRA DE CARVALHO

PIRACICABA - SÃO PAULO - PROFISSIONAIS DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS

EM 01/10/2025

Ótima reflexão, Diana. De fato, como já dizia Maquiavel, é perda de tempo tentar convencer detratores. Por outro lado, grande parte do público-alvo desconhece a atividade, e é ao mesmo tempo influenciada negativamente. Esses são potenciais consumidores e simpatizantes, mas podem se tornar detratores. Temos que fazer a lição de casa anyway! Talvez o caminho seja o equilíbrio entre fun, conveniência, sabor, e princípios de ESG, além de affordability.
Danilo Hamdan de Andrade
DANILO HAMDAN DE ANDRADE

NOVA LIMA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 01/10/2025

Texto bem escrito. Muito bacana a reflexão, Diana!
Qual a sua dúvida hoje?