Nitrogênio ureico do leite elevado: estou perdendo dinheiro?

Dietas desbalanceadas elevam o NUL no leite, indicam desperdício de proteína e aumentam custos. Saiba como monitorar e interpretar esse indicador.

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A alimentação representa 50-70% dos custos na produção de leite, com perdas econômicas significativas devido à ineficiência no uso de alimentos proteicos. Análises de nitrogênio ureico no leite (NUL) mostram que 49% das amostras apresentam NUL acima de 12 mg/dL, indicando desperdício de proteína e impactos na fertilidade. O excesso de NUL também contribui para a poluição ambiental. O manejo nutricional adequado é crucial para otimizar a eficiência alimentar e reduzir custos.

Apesar de ser amplamente conhecido que a alimentação animal tem a maior proporção dos custos (50-70%) da produção de leite, perdas econômicas relacionadas à nutrição das vacas de leite ainda são negligenciadas, como no caso da baixa eficiência do uso dos alimentos proteicos. Em casos de desbalanços na relação carboidrato:proteína, há uma eliminação excessiva de nitrogênio ureico no leite (NUL), urina e fezes. Em outras palavras, isso significa que há um desperdício de proteína da dieta. 

A falta ou o excesso de proteína na dieta, assim como a inclusão de carboidratos, podem diminuir a eficiência alimentar, a produção de leite e aumentar os custos com alimentação. Dessa maneira, a análise de NUL é uma ferramenta utilizada no monitoramento da eficiência do consumo e uso de proteína (ex. farelo de soja, caroço de algodão e DDG) e carboidratos (ex. milho moído, polpa cítrica e melaço) pelas vacas e na identificação de problemas no gerenciamento nutricional do rebanho.

Valores adequados de NUL variam entre 8 e 12 mg/dL para o leite do tanque (Nousiainen et al., 2004; Colmenero & Broderick, 2006). No primeiro semestre de 2025, foram analisadas aproximadamente 658 mil amostras de leite de tanque na Clínica do Leite. Dessas, 2,1% apresentaram teor de NUL inferior a 8mg/dL (Figura 1), o que afeta negativamente a produção de leite e a reprodução das vacas.

Cerca de 49% das amostras tiveram NUL acima de 12mg/dL (Figura 1), indicando perdas econômicas devido ao excesso de NUL e consequente desperdício de proteína da dieta. Além disso, 11,9% das amostras tiveram resultados de NUL maiores ou iguais a 18 mg/dL, o que também reduz a fertilidade e aumenta o gasto energético das vacas para eliminar o excesso de nitrogênio.

Vale ressaltar que o excesso de NUL também representa uma maior poluição do meio ambiente devido a maior excreção de nitrogênio na urina, que é transformado em amônia e óxido nitroso (gás até 300 vezes mais potente que o dióxido de carbono para o aquecimento global).   

Figura 1. Distribuição dos resultados de nitrogênio ureico (NUL, mg/dL) em amostras de leite do tanque analisadas no primeiro semestre de 2025 na Clínica do Leite. 

Figura 1

Fonte: Clínica do Leite, 2025

 

Impactos econômicos do excesso de NUL

Pelo olhar econômico, os ingredientes que são fonte de proteína na dieta, como o farelo de soja, são os mais caros na alimentação animal. Em um rebanho com vacas pesando em média 750 kg, estima-se que o aumento de 1 mg/dL de NUL representa um aumento na excreção urinária de 19,4 g de nitrogênio/dia/vaca (Kauffman & Pierre, 2001). Convertendo esse número para o equivalente em farelo de soja com 44% de proteína bruta (PB) estaríamos falando de um aumento na excreção urinária de 280 g/dia/vaca (Tabela 1). Esse cálculo foi realizado considerando que 1 g de PB possui 16% de nitrogênio. 

Agora vamos imaginar uma fazenda com 100 vacas, com NUL do leite do tanque igual a 16 mg/dL. Considerando o limite de referência superior de NUL (12 mg/dL), haveria um excesso de 4 mg/dL por vaca/dia, o que equivale a 1,10 kg/vaca/dia de farelo de soja (Tabela 1). Isso totalizaria 110 kg de farelo de soja por dia e 3.300 kg por mês. Dado um custo médio de R$2,50/kg do farelo de soja, a perda neste cenário seria de R$275,00/dia e R$8.250,00/mês.  

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Tabela 1. Estimativa de perdas equivalente em farelo de soja (44% de PB) do excesso de nitrogênio ureico no leite, em comparação ao valor de referência de 12 mg/dL

NUL

1Excreção de nitrogênio pela urina, g/d

2Excreção urinária equivalente em farelo de soja, kg/dia

3Perda de farelo de soja, kg/dia 

8

155

2,21

Valores de Referência

9

175

2,48

10

194

2,76

11

214

3,04

12

233

3,31

13

253

3,59

0,28

14

272

3,86

0,55

15

291

4,14

0,83

16

311

4,41

1,10

17

330

4,69

1,38

18

350

4,97

1,66

19

369

5,24

1,93

20

389

5,52

2,21

1 Estimado com base em Kauffman e Pierre (2001), em uma vaca com 750 kg

2 Em que 1g de PB = 16% de N

3 Em comparação a NUL = 12 mg/dL

 

 

Como interpretar o NUL em conjunto com a proteína do leite

Agora que conhecemos as consequências do excesso de NUL, vamos entender melhor o que ele nos informa. De maneira geral, valores menores que 8 mg/dL são indicativos de baixa ingestão proteica, o que pode limitar a produção de leite e o seu teor de proteína. Por outro lado, resultados maiores que 12 mg/dL estão relacionados ao excesso de proteína (proteína degradável no rúmen - PDR ou ureia) na dieta, o que afeta negativamente a eficiência alimentar e a rentabilidade do negócio.

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O metabolismo ruminal de carboidratos e proteínas pode ser melhor compreendido ao analisar teor de proteína do leite e NUL em conjunto (Figura 2). Dentre os seis diagnósticos do balanço ruminal de proteína e carboidratos apresentados pela Figura 2, o diagnóstico do quadrante inferior direito  é um dos mais comuns. O baixo teor de proteína do leite (< 3,30%) associado ao excesso de NUL (> 12 mg/dL) são sugestivos do excesso de PDR e da falta de carboidratos. Nesse cenário, uma boa opção é o uso da polpa cítrica e/ou melaço, já que não oferecem alto risco de acidose ruminal como o milho moído. 

Figura 2. Diagnóstico do balanço de carboidratos e proteína no rúmen com base nos resultados de NUL e proteína do leite.

Figura 2

Fonte: Painel da Qualidade da Clínica do Leite, 2025

 

Fatores de manejo que também afetam o NUL

Ainda que os resultados de NUL sejam relacionados ao déficit ou excesso de proteína na dieta, fatores do manejo também devem ser avaliados durante a identificação das causas do problema, como a pesagem dos ingredientes, qualidade da mistura do vagão, a seleção de alimentos pelos animais, competição e a sobra no cocho. Por isso, monitorar os níveis de NUL e revisar regularmente o manejo nutricional são passos fundamentais para reduzir desperdícios, melhorar a eficiência alimentar e garantir maior rentabilidade ao sistema de produção de leite.

Referências bibliográficas

Colmenero, J. J. O., G. A. Broderick. 2006. Effect of dietary crude protein concentration on milk production and nitrogen utilization in lactating dairy cows. J Dairy Sci., 89(5):1704-1712. https://doi.org/10.3168/jds.s0022-0302(06)72238-x 

Kauffman, J., N. R. St-Pierre. 2001.The relationship of milk urea nitrogen to urine nitrogen excretion in Holstein and Jersey Cows. J. Dairy Sci. 84:2284–2294. https://doi.org/10.3168/jds.s0022-0302(01)74675-9   

Nousiainen, J., K. J. Shingfield, P. Huhtanen. 2004. evaluation of milk urea nitrogen as a diagnostic of protein feeding. J. Dairy Sci. 87:386–398. https://doi.org/10.3168/jds.S0022-0302(04)73178-1

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Material escrito por:

Paulo Fernando Machado

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