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Ficha de nascimento de bezerros e esquema para caracterização de causa de morte

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E MARIA EDUARDA REIS

CARLA BITTAR

EM 25/04/2019

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A criação de bezerras leiteiras na maioria das vezes é destinada para a reposição do rebanho, visto que esses animais apresentam potencial genético superior, contribuindo significativamente com o aumento da produtividade. Porém, as altas taxas de mortalidade nessa fase influenciam não só na futura produção, mas também afetam financeiramente o produtor, que terá de investir em novas concepções para reposição do rebanho.

As altas taxas de mortalidade de bezerras na maioria das vezes estão relacionadas com a susceptibilidade que esses animais apresentam a fatores externos, principalmente nas suas primeiras semanas de vida, pois dependem totalmente da imunidade passiva que é adquirida através do consumo adequado de colostro.

As principais causas de morte desses animais estão relacionadas com agentes enteropatológicos que se aproveitam da fragilidade do sistema imunológico para colonização indesejada. Esse fator se agrava quando os animais passam por situações de estresse como acontece com animais prematuros ou em período de desaleitamento.

Distúrbios como diarreia e pneumonia são algumas das principais causas responsáveis pela alta taxa mortalidade em bezerros.  Essas taxas poderiam ser diminuídas com a implantação de manejo sanitário correto, além do tratamento adequado, visto que essas afecções apresentam sinais clínicos característicos e são facilmente diagnosticadas. Para viabilizar essas práticas é necessário o constante treinamento de profissionais para realização de diagnóstico precoce e atenção voltada para cada indivíduo. Da mesma forma, adequado tratamento deve estar associado as ações de manejo.

O monitoramento e controle de informações desses animais na maioria das vezes é escasso, o que contribui ainda mais com os elevados índices de morbidade e mortalidade de bezerros. Uma solução para esse problema seria a implantação de uma ficha de controle individual, com informações como data de nascimento, número do animal, quantidade e qualidade do colostro, cura do umbigo além de outras informações que são acrescentadas de acordo com o manejo do local.

Um levantamento feito pelo departamento de agricultura dos Estados Unidos (USDA) em 2018, afirma que o sistema de produção do leite gera aproximadamente 9 milhões de bezerros por ano, desses animais cerca de 6% morrem no nascimento ou poucas horas após. Dos que sobrevivem, outros 6% não resistem ao período de desaleitamento. De acordo com os dados do sistema nacional de vigilância sanitária animal nos EUA (NAHS), quase 60% das mortes dos animais desaleitados estão relacionados com doenças do trato gastrointestinal e 24% à problemas respiratórios. Esses dois distúrbios são majoritariamente responsáveis pelas mortes dos animais desde 1991, período inicial dos estudos.

Mesmo com essas informações, as estimativas identificadas nos estudos do NAHMS podem ser melhoradas, isso porque elas representam médias de várias propriedades. Isso significa que alguns produtores apresentam melhores desempenho e sobrevivência de bezerros em relação as outras, portanto, a adoção de protocolos e manejos adequados poderiam auxiliar na saúde e sobrevivência de cada propriedade.

Para o mais recente estudo do NAHMS em 2014, quando foi solicitado aos produtores de leite relatarem as causas de morte de seus bezerros desaleitados durante o período de um ano, apenas cerca de 5% das mortes foram relatadas como causa desconhecida (USDA, 2018). A mesma pergunta foi feita para bezerros no período de aleitamento, e o valor da resposta foi de 25%, segunda maior porcentagem ficando atrás apenas das mortes consequentes de distúrbios do trato gastrointestinal (Urie et al., 2018).

Os bezerros que são tratados para condições específicas e morrem são frequentemente categorizados com base nos sinais clínicos e na razão do tratamento; isto é, a doença anterior. Isso significa que a causa de morte que são registradas são baseadas nas percepções dos proprietários ou dos funcionários, e não em informações mais precisas, como achados de necropsia.

Informações mais específicas sobre a causa e as circunstâncias relacionadas as mortes de bezerros seriam úteis para tomada de decisões e implementação de práticas para sua prevenção. Necropsia e testes de diagnóstico laboratorial são dois procedimentos que podem ser implementados para compreender melhor as causas da morte em bezerros leiteiros. No entanto, a necropsia desses animais não é um procedimento habitual nos Estados Unidos; no ano de 2013, 11,3% das propriedades realizaram necropsias em novilhas e em apenas 4,6% das mortes de novilhas o procedimento foi realizado (USDA, 2018).

Parece improvável que produtores e veterinários possam mudar radicalmente o hábito e passarem a realizar necropsia e diagnósticos mais precisos em um curto período de tempo. Como uma alternativa de solução para o problema, E. Lombard e colaboradores (2019) elaboraram um esquema em que é possível detalhar informações relacionadas ao local e manejos feitos no nascimento desses animais, além de um fluxograma com 15 principais categorias relacionada às causas de morte na criação de bezerros leiteiros (Figura 1). Essas ferramentas são entregues para os produtores e tem objetivo de orientá-los em relação às informações necessárias a serem monitoradas.

A adoção da ficha de nascimento (Figura 2) possibilita a anotação de informações desde o nascimento até uma possível necropsia. O artigo dos autores fornece recomendações sobre os dados a serem coletados, assim que esses animais nascem, como data de nascimento, identificação do animal, quantidade de colostro, cura de umbigo, entre outros. O registro dessas informações críticas é de extrema importância para averiguação das taxas de morbidade e mortalidade de determinadas afecções em bezerros leiteiros.

Idealmente, o exame de necropsia auxilia na identificação da causa da morte, mas, mesmo sem a técnica, a atribuição da causa da morte pode ser melhorada apenas com a identificação dos fatores que elevam a taxa de mortalidade nos sistemas de registro nas fazendas. O fluxograma apresenta os principais distúrbios responsáveis pela morte desses animais. Em caso de óbito, os responsáveis identificam a causa da morte através da necropsia ou de sinais clínicos que o animal apresentava, e então os associam com uma das numerações presentes no fluxograma e na Tabela 1. Esse número selecionado corresponde a causa da morte e deve ser introduzido na ficha de nascimento. Recomendações são fornecidas para dados adicionais a serem coletados no momento da morte.

O registro e análise dos dados coletados na ficha de nascimento dos animais juntamente com os dados adicionais da necropsia permite uma melhor avaliação dos fatores que elevam a taxa de mortalidade. De modo geral, essas informações contribuem com os produtores e técnicos na busca de alternativas que possam reduzir a mortalidade de bezerros e consequentemente evitar prejuízos financeiros.

Tabela 1. Sugestão de números para identificação/classificação de causa de morte em bezerros.

Ficha de nascimento de bezerros e esquema para caracterização de causa de morte
Adaptado de Lombard et al., 2019


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Referências bibliográficas:
 

Lombard, J. E.; Garry, F. B.; Urie, N. J.; Mc Guirk, S. M.; Godden, S. M. Sterner,K.;Earleywine T. J.; Catherman, D.; Maas ,J. 2019.Proposed dairy calf birth certificate data and death loss categorization scheme . Journal of Dairy Science. ,102:1–9. https://doi.org/10.3168/jds.2018-15728.

Urie, N. J., J. E. Lombard, C. B. Shivley, C. A. Kopral, A. E. Adams, T. J. Earleywine, J. D. Olson, and F. B. Garry. 2018. Preweaned heifer management on US dairy operations: Part V. Factors as- sociated with morbidity and mortality in preweaned dairy heifer calves. J. Dairy Sci. 101:9229–9244. https://doi.org/10.3168/jds .2017-14019.

Comentários

A escrituração zootécnica ou o registro de ocorrências é de extrema importância para ajustes de manejo. Sem dados não se sabe qual é o problema, e portanto não se consegue solução para o mesmo. Assim, a ficha de nascimento de bezerros com todas as informações importantes é uma ferramenta que pode auxiliar no entendimento de pontos críticos em nível de propriedade. Da mesma forma, a padronização de escrituração poderá permitir o levantamento e caracterização em nível nacional deste tipo de informação. Infelizmente, poucas propriedades tem o hábito de anotar e controlar aspectos importantes que são determinantes no sucesso da criação como, por exemplo, a qualidade, o volume e a hora de fornecimento de colostro. Assim, o trabalho sugere uma ficha de nascimento de bezerros.

Da mesma forma, sugere-se um fluxograma que facilita a identificação da causa de morte de animais em crescimento, assim como uma numeração para sua identificação. No Brasil, uma importante causa de morte, principalmente em bezerros recém-desaleitados, é a tristeza parasitária bovina (TPB), a qual não está contemplada nesta sugestão de identificação. De todo modo, a anotação de informações importantes na ficha de nascimento e a padronização da escrituração traria muitos ganhos para a identificação dos problemas e suas soluções, assim como para a pecuária nacional, apontando para necessidade de treinamentos e pesquisa. 

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CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

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DANIEL SILVÉRIO

LAGOA FORMOSA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 02/05/2019

Muito interessante, vou ter implementar os conselhos dados ao meu sistema.
JOSÉ FERRÃO

LISBOA - LISBOA - MÉDICO VETERINÁRIO

EM 28/04/2019

Interessante, mas demasiado complexo para executar. Para mim existem dois tipos de mortalidade a evitar tal como o estudo refere, ao parto e nas 1as 24h (3 a 10%) que se evitam com correcta seleção de sémen e uso de sémen secado, e correctas pautas de assistência ao parto; e de seguida dos 1 a 60 dias essencialmente com origem em processos digestivos e depois respiratórios (quando existem pautas incorrectas de vacinação...normalmente vacina se demasiado tarde) os digestivos evitam se com bom colostro ( em alta produção e novilhas é uma raridade) administração de grandes quantidades o mais cedo possível, e o que faz tender para 0% a mortalidade nesta fase é a rapidez do tratamento e a qualidade do leite. Acho que se tem que investigar mais os primeiros 10dias de vida dos vitelos, qual o peso, crescimento nos 1os 10 dias, quantos são tratados, tecnologia de monotorização de movimentos como a da SCR ou outras também poderão ajudar no futuro.
BRUNO VICENTINI

LAVRAS - MINAS GERAIS

EM 25/04/2019

Excelente texto! Se esses números refletem a "realidade americana", mesmo considerando as variações que devem haver em função da média, imagine os números que seriam encontrados aqui no Brasil! Se considerarmos as variações regionais então...
Fico pensando os saltos em produtividade, qualidade e lucratividade, que poderiam ser dados, se a produção de leite fosse encarada/"administrada" de fato como um "empreendimento" e não como uma "atividade"...
ROSANE

SEROPEDICA - RIO DE JANEIRO - PESQUISA/ENSINO

EM 25/04/2019

Excelente texto. Sem o controle zootécnico fica difícil acompanhar o rebanho, identificando e resolvendo os gargalos. Parabéns.