Nesse contexto, o objetivo dessa matéria é apresentar ao leitor a Dermatofitose, uma importante micose cutânea que pode acometer ovinos e caprinos.
Dermatofitose - Uma doença cosmopolita
As Dermatofitoses, conhecidas também como "Tinha, Dermatite Micótica, Micose dos Cordeiros ou Ringworm" são micoses cutâneas infecto-contagiosas de curso crônico determinadas por um grupo de fungos classificados como Dermatófitos, principalmente dos gêneros Microsporum e Trichophyton (PEREIRA e MEIRELES, 2001).
As micoses acometem animais de diferentes espécies, incluindo os bovinos, ovinos, caprinos, eqüinos, suínos, cães, gatos, aves, animais silvestres e até mesmo o homem, representando, portanto, uma zoonose (enfermidade que pode ser transmitida dos animais aos humanos) de ocorrência mundial.
A doença se manifesta principalmente em regiões de clima tropical e sub-tropical, particularmente em áreas quentes e úmidas, embora uma maior incidência de casos ocorra nos meses de inverno (RADOSTITS et al., 2002).
A transmissão da micose pode ocorrer de forma direta, através do contato com animais enfermos, ou indireta, veiculada a partir de material contaminado como escovas, tesouras, rinetas ou tosquiadeiras. A introdução de animais portadores no rebanho associada a fatores estressantes como alta lotação, queda da resistência devido a carência alimentar, estresse da desmama e mudança de alimentação favorecem o surgimento das micoses (Pereira e Meireles, 2001). Anderson et al., (2005) salientam que a alta freqüência de banhos e tosquias na preparação de animais para feiras ou exposições favorecem o desenvolvimento da doença, sobretudo nos animais mais jovens.
Após a introdução de animais doentes na propriedade ocorre a contaminação ambiental, tornando instalações e áreas de manejo como cochos, cercas e baias importantes fontes de infecção para os ovinos e caprinos.
Sinais clínicos da doença
O aparecimento de lesões predominantemente circulares na região da cabeça, orelhas e pescoço, que podem se alastrar para outras regiões e envolver grandes áreas do corpo do animal constituem o achado mais comum dos quadros de Dermatofitose em ovinos. De uma forma geral, as lesões circulares possuem de 1 a 3 cm de diâmetro podendo estar desprovidas de pêlos ou cobertas por crostas. Lesões semelhantes são observadas em caprinos, embora a doença tenha uma maior predisposição para se alastrar por todas as partes do corpo nessa espécie (RADOSTITS et al., 2002).

Figura 1: Dermatofitose em ovinos. A = extensa área de alopecia (queda dos pêlos) em região do dorso de ovelha. B= queda de pêlos e formação de crostas em orelha de ovino. Adaptado de Macêdo et al., (2008).
Os animais acometidos geralmente não apresentam grau considerável de prurido (coceira), embora o desconforto seja sempre evidente. Segundo Anderson et al., (2004), pode-se notar algum grau de prurido quando a infecção é causada pelo fungo Trichophyton spp, sendo que animais jovens são mais seriamente atingidos.

Figura 2: A= aspecto da lesão crostosa causada por Dermatófitos em região do flanco de ovino. B= fungos do gênero Microsporum spp isolados a partir de feridas de animais enfermos. C= lesões circulares em pescoço de cordeiro, características dos quadros de micose.
Tratamento e prevenção
Embora alguns animais portadores da Dermatofitose possam apresentar cura espontânea após 3 a 4 meses de infecção, o tratamento é amplamente praticado e recomendável por que reduz a contaminação do ambiente pelos animais enfermos (RADOSTITS et al., 2002).
Soluções tópicas de iodo (2 a 5%), clorexidina (2%), cal sulfurada (2 a 5%) e medicação antifúngica tópica (captan 3%) são efetivas no tratamento das lesões (ANDERSON et al., 2005).
A utilização de antifúngicos injetáveis é controversa e geralmente não recomendável, sendo que para infecções disseminadas em um grupo de animais (surtos de doença) preconizam-se os banhos ou pulverizações (STANNARD, 1994).
A Dermatofitose se dissemina por meio de material utilizado para tosquia, de mantas e de outros equipamentos. Portanto, a limpeza adequada do equipamento com soluções anti-sépticas após a utilização auxilia no controle da enfermidade (ANDERSON et al., 2005).
Outras medidas como isolamento dos animais infectados, desinfecção de instalações de manejo com soluções de formalina, Biocid ou hipoclorito de sódio e adequado suporte alimentar (tanto aos animais enfermos como àqueles que ainda não manifestaram a micose) são importantes no controle dos surtos da doença (RADOSTITS et al., 2002; PEREIRA e MEIRELES, 2001).
A suplementação de zinco à dieta (óxido de zinco na proporção de 1:5000 ou 200 gramas/1000kg de matéria seca) corresponde a uma alternativa eficaz para o tratamento de animais enfermos e para a prevenção do aparecimento de novos casos de Dermatofitose nos rebanhos (XYLOURI-FRAGIADAKI et al., 2002).
Em virtude do potencial zoonótico das Dermatofitoses (fácil transmissão entre os animais e o homem), funcionários, técnicos e pecuaristas devem sempre utilizar luvas de proteção durante o manejo ou tratamento dos animais doentes (ANDERSON et al., 2005).
Agradecimentos: Ao Prof. Dr. Franklin Riet-Correa que gentilmente cedeu parte das imagens apresentadas nessa matéria.
Referências
ANDERSON, D.E.; RINGS, D.M.; PUGH, D.G. Enfermidades do Sistema Tegumentar. In:___. Clínica de Ovinos e Caprinos. 1.ed. São Paulo: Editora Roca Ltda. v.1, p. 233-234, 2005.
MACÊDO, J.T.S.A; RIET-CORREA, F.; DANTAS, A.F.M. et al. Doenças da pele em caprinos e ovinos no semi-árido Brasileiro. Pesquisa Veterinária Brasileira, v.28, n. 12, p.633-642, 2008.
PEREIRA, D.B.; MEIRELES, M.C.A. Dermatofitoses. In:___. Doenças de Ruminantes e Eqüínos. 2.ed. São Paulo: Varela Editora e Livraria Ltda. v.1, p.367-373, 2001.
RADOSTITS, O.M.; GAY, C.C.; BLOOD, D.C. et al. Doenças Causadas por Algas e Fungos. In:___. Clínica Veterinária - Um tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e eqüinos. 9.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.A. v.1, p.1150-1152, 2002.
STANNARD, A.A. Moléstias micóticas. In:___.Tratado de Medicina Interna de Grandes Animais. 1.ed. São Paulo: Manole. v.2, 1262-1263, 1994.
XYLOURI-FRAGIADAKI, E.; PAPADOPOULO, C.V.; BRYONI, G. Can zinc be used for the treatment of Microsporum gypseum dermatitis in man as well as in sheep? International Journal of Antimicrobial Agents, v.20, p.230-231, 2002.
