Por que tantas fazendas leiteiras no estado do Rio Grande do Sul estão robotizando a ordenha?

Acompanhe como a robotização da ordenha está transformando as fazendas leiteiras no RS, com dados inéditos sobre marcas, regiões e sistemas adotados!

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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Todo o dia quando recebia uma noticia que mais uma fazenda leiteira iria robotizar a ordenha eu me fazia essa pergunta que utilizei no titulo desse artigo.

Obviamente, como estou dentro da academia, envolvido com alunos de graduação, pós-graduação, pesquisa e atendendo muitas fazendas leiteiras na consultoria eu conseguia trocar ideias com o aluno, filho do produtor que comprou o robô de ordenha, ou o técnico que atendia a fazenda em questão, ou propriamente com a família durante minhas consultorias diárias. Nestas conversas e visitas o que mais me chamou a atenção foi um trecho das falas: “não conseguimos mais dar conta de tudo, falta gente para trabalhar. Contratar funcionários não dá, investimos ou paramos com a atividade”.

De fato, eles tinham razão na fala, os produtores de leite daqui, na maior parte são de descendência italiana e polonesa. Eles são determinados, acordam cedo e se recolhem para dentro de suas casas para descansar depois que escurece, não têm medo do trabalho, independente do dia da semana. E assim construíram suas famílias e fazendas ao longo dos anos. Na média estas fazendas tem 15 a 20 anos de atividade, é uma boa parte das suas vidas!

Os pais já estão com idade avançada (60 anos) e os filhos cresceram (30 anos), alguns ficaram na fazenda para ajudar e outros foram estudar para um possível retorno. Enfim, quem ficou teve que se organizar para poder realizar todas as tarefas que acumularam durante o dia. A ordenha, na maioria das vezes, é designada para as mulheres. Porém, elas têm outros afazeres durante o dia: alimentar as bezerras e higienizar o ambiente, tarefas da casa, café, almoço e janta, que também toma muito tempo.

Poderia citar muitos argumentos aqui para entender melhor todo esse contexto, mas o que resume o investimento na robotização da ordenha é “não conseguimos mais dar conta de tudo, falta gente para trabalhar. Contratar funcionários não dá, investimos ou paramos com a atividade”.

Contatei o professor Marcos Neves Pereira e contei para ele desse crescimento tão rápido dos robôs aqui no RS e decidimos levantar essas informações iniciais dos números de box de robô em atividade para registrar este fato e contribuir para as futuras pesquisas na área de manejo, reprodução e nutrição de vacas nesse sistema de ordenha.

Criamos um formulário, juntamente com dois alunos da graduação do curso de agronomia da Faculdade CESURG Marau e submetemos para as empresas que estavam presentes no estado comercializando os robôs. Eles responderam e nos enviaram de volta com as informações que precisávamos para concluir o estudo.

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Segundo nosso levantamento, 206 boxes de Sistemas de Ordenha Robotizada (SOR) estavam em atividade em propriedades leiteiras no RS em julho de 2022. Não tivemos acesso ao número de fazendas envolvidas. Os boxes da marca DeLaval® se destacaram com maior porcentagem de utilização (67,97%), seguido pelas marcas Lely® (21,84%) e GEA® (10,19%) (Figura 1).

Figura 1. Boxes de ordenha robotizada por marca no Rio Grande do Sul em julho de 2022.

Boxes de ordenha robotizada por marca no Rio Grande do Sul em julho de 2022.

Os 206 boxes de SOR em funcionamento em julho de 2022 estavam nas regiões Noroeste Rio-Grandense, Nordeste Rio-Grandense, Região Metropolitana de Porto Alegre e Centro-Oriental Rio-Grandense (Figura 2). A região Noroeste Rio-Grandense apresentou a maior porcentagem do total de equipamentos de ordenha, sendo 63,19% da marca DeLaval®, 13,59% da marca Lely® e 8,25% da GEA®, o que resultou em 85,03% do total de boxes SOR comercializados (Figura 2).

Isto provavelmente ocorreu porque a pecuária leiteira do Rio Grande do Sul se deslocou da região Metropolitana de Porto Alegre para o Noroeste Rio-grandense a partir de 1980 (ALMEIDA et al. 2022). Atualmente, a região é considerada uma das bacias leiteiras mais produtivas do Brasil, com emprego de alta tecnologia, inclusive com adoção de ordenhas mecanizadas e robóticas (VILELA et al. 2017).

Figura 2. Boxes de ordenha robotizada por marca no Rio Grande do Sul em julho de 2022.

Boxes de ordenha robotizada por marca no Rio Grande do Sul em julho de 2022.

Apenas a empresa Lely® esteve presente nas regiões Metropolitana de Porto Alegre e Centro-Oriental Rio-Grandense (Figura 2), mas em baixa proporção ao tomar como base os 206 boxes reportados no RS.

A adoção de sistemas robotizados é uma realidade frente à redução da mão de obra empregada na pecuária leiteira, nas últimas décadas, especialmente no contexto da agricultura familiar (RODENBURG, 2017). Adicionalmente, a robótica está alinhada ao conceito de “pecuária de precisão”, na qual o desempenho animal é considerado individualmente ao invés da perspectiva de rebanhos ou lotes. Assim, regiões de bacia leiteira, como o Noroeste Rio-grandense, têm adotado cada vez mais tecnologia em seus processos produtivos (VILELA et al. 2017).

A ordenha robotiza pode trazer vantagens como ganhos na produção do leite, aumentar conversão alimentar devido ao manejo nutricional individual dos animais e reduzir custos com mão-de-obra e instalações zootécnicas (SIMÕES-FILHO et al. 2020).

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Os sistemas de tráfego são relatados na Figura 3. A empresa GEA® só comercializou boxes de ordenha em sistema de tráfego guiado, e a empresa Lely® somente vendeu sistemas com tráfego livre, enquanto a marca DeLaval® comercializou os dois sistemas. Do total de SOR vendidos, 41,75% foram de tráfego livre enquanto que 58,25% foram de tráfego guiado. Dentre os boxes da DeLaval®, 71,48% foram do tipo guiado e 28,57%, do tipo livre.

Figura 3. Boxes de ordenha robotizada por marca no Rio Grande do Sul em julho de 2022.

Boxes de ordenha robotizada por marca no Rio Grande do Sul em julho de 2022.

Os sistemas de tráfego guiado foram mais comercializados do que aqueles de tráfego livre (Figura 3), contrariando tendências europeias, canadenses e estadunidenses (TSE et al. 2017; SIEWERT et al., 2018). O uso de SOR com tráfego livre é mais comum nessas regiões, pois as vacas leiteiras escolhem livremente quando serão ordenhadas, fato que reduz o tempo de espera em salas de ordenha.

Produtores e pesquisadores dessas regiões acreditam que minimizar o tempo de ordenha é importante para prover bem-estar animal e reduzir problemas de laminite e, ou, claudicação (SOLANO ET al., 2022). A grande vantagem do sistema de tráfego guiado é a redução na busca manual de vacas que não se adaptam ao sistema (BACH et al., 2009).

No Brasil, a alta prevalência de SOR em sistema guiado pode ser a forte presença comercial da DeLaval® no país, com presença massiva de representantes para manutenção dos equipamentos mais distribuídos. O sistema de fluxo livre pode mudar o comportamento ingestivo do animal, levar à ingestão de grandes quantidades de concentrado de uma só vez, e em último caso, causar acidose ruminal pelo elevado consumo de carboidratos rapidamente fermentáveis (MENAJOVSKY et al., 2018). Apesar disso, é importante ressaltar que o SOR com fluxo livre também foi adotado com boa frequência no RS (Figura 3).

A comercialização de boxes de sistema de ordenha robotizada com sistema de tráfego guiado foi superior àquela de sistemas com tráfego livre (58,25% vs 41,75%) no Rio Grande do Sul. Em julho de 2022, a empresa DeLaval® representava 67,96% dos boxes de ordenha comercializados no RS.

Práticas de manejo geral e nutricional específicos para sistemas de fluxo guiado podem ter alto impacto nesta região do Brasil. Este estudo serve de base para pesquisas futuras sobre ordenhas robotizadas no RS, tendo em vista que, pela primeira vez, contabilizou o expressivo crescimento desta tecnologia nas fazendas leiteiras deste estado.

 

FONTE: Zadinello L., Luza J., Pereira M.N., Bordin Tiago. (2023). Flow systems in robotic milking at Rio Grande do Sul state, Brazil. Peer Review. 5. 76-84. 10.53660/1290.prw2817.

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Material escrito por:

Tiago Bordin

Tiago Bordin

Médico Veterinário Departamento de Produção e Nutrição Animal da Faculdade CESURG Marau

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Severino correia Cavalcante
SEVERINO CORREIA CAVALCANTE

TRAIPU - ALAGOAS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 08/01/2025

Aqui no nordeste não é diferente do sul,nos que produzidos alimentos estamos cada dia mais difíceis, muito difíceis, no meu estado 60% população vive de bolsa do governo,
Nelson Filho
NELSON FILHO

BARIRI - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/01/2025

Eu me chamo Nelson Demétrio Filho, produzi leite por longos anos, mas precisei parar com a atividade por falta de mão de obra, a verdade é uma mão de obra cara até pelos impostos e de péssima qualidade.

Fazíamos escala de 5x1, mas tinha dias de 6 funcionários trabalhando, apenas 3 apareciam.

Tentamos a escala de 5x2 e foi um desastre, pq algumas pessoas não apareciam pra trabalhar no dia seguinte a sua escala de folga.

Dinheiro pra proporcionar um robô na propriedade, pelo preço do leite sendo desde de 2019, e custo de produção aumentando de 100 a 120%, nos anos seguintes a pandemia, me levou a parar. Perca de muito dinheiro investido.

Mas o maior fator de parar foi da mão de obra. Os jovens de hj não querem estar na atividade leiteira ou como muitos vinham fazer entrevista e dizia mas tem que trabalhar de sábado e domingo. Sim tem mas a escala é 5x2.

Uma atividade linda mas hj difícil de continuar na atividade.

Sou do interior do estão de Sao Paulo.
Lucas caetano
LUCAS CAETANO

NOVA ANDRADINA - MATO GROSSO DO SUL - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 09/01/2025

Olá tenho 30 anos tiro leite desde que tinha 8 não sei o que é férias e nen mordomia soque sou um pequeno produtor na média de 450 litros dia no preço atual de 2.42 tiro leite no sistema cru de tudo só aguento por que sou novo estou querendo investir na estrutura mais tenho medo pois mão de obra esquece se não for da família
Qual a sua dúvida hoje?