A otimização dos custos com alimentação é um dos principais desafios na pecuária leiteira. Enquanto as despesas com alimentação totalizam de 50-60% dos custos totais da produção de leite, cerca de 30-40% das receitas são comprometidas com concentrados.
Além dos equívocos nas quantidades fornecidas de concentrado, como a já bem estabelecida de regra de 1 kg de ração pra 3L de leite, da qual tratamos em outro artigo aqui nesse portal (Ebert, Silveira, 2025), a seleção da ração é outro problema dominante no campo.
Enquanto profissionais, pesquisadores, nutricionistas e produtores mais profissionais discutem uso de aditivos, ionóforos, balanceamento de aminoácidos, amido, etc., no campo, predomina a escolha de ração pelo seu teor de proteína bruta, sem nenhum tipo de ajuste nutricional mínimo. Fórmulas de ração se espalham nas redes sociais como receitas mágicas que produziriam mais leite (como as fórmulas de ração 25%, amplamente distribuídas ou comercializadas).
A ideia, consolidada entre esse público, de que mais proteína no concentrado é sempre a melhor solução é um grande equívoco. A verdade é que a escolha de rações com alta proteína, geralmente mais caras, pode levar ao desperdício de recursos financeiros e, inclusive, causar prejuízos à saúde do rebanho em determinadas situações.
Esse artigo, portanto, tem como objetivo desmistificar a seleção de concentrados e apresentar uma abordagem estratégica baseada no equilíbrio nutricional da dieta total. Não se pretende substituir a atuação de um profissional da nutrição, que pode propor um ajuste muito mais refinado, mas sair desse senso comum, propor um raciocínio mais qualificado para escolha da ração concentrada, inclusive, visando qualificar a discussão do produtor com seu nutricionista, ao partir de conceitos mais adequados do que os difundidos no campo.
O paradigma da proteína elevada: um erro comum
Não existe uma fórmula de ração que seja universalmente eficaz, para todos os cenários, todas as vacas, todas as dietas, níveis produtivos, etc. etc. e etc. São inúmeros os fatores que influenciam essa seleção e que, serão considerados por nutricionistas a partir de cálculos baseados em parâmetros previamente definidos, cruzados com o cenário atual da propriedade.
No entanto, o ponto de partida para uma suplementação concentrada reside na análise do principal componente da dieta dos animais: a forragem.
A percepção de que rações "mais fortes" ou com maior teor de proteína bruta (PB) são superiores, geralmente se origina da experiência prática. Em sistemas onde o volumoso é de baixa qualidade nutricional, a introdução de uma ração com 22% ou 25% de PB pode, de fato, resultar em um aumento na produção de leite. Isso ocorre porque a forragem estava deficiente em proteína, e o concentrado mais proteico, corrigiu essa falha.
A repetição de casos como esses fortaleceu a crença de que concentrados proteicos são “melhores”, sendo hoje, inclusive, difícil de encontrar rações comerciais mais energéticas e menos proteicas, que seriam mais adequadas para sistemas baseados em pastagens de alta qualidade, onde a proteína degradável no rúmen (PDR), já é encontrada em quantidades consideráveis. Ao reduzir a proteína do concentrado (ex: farelo de soja), geralmente se aumenta a participação de ingredientes energéticos (ex: milho), que são fundamentais para a produção de leite.
Em situações de campo, é comum encontrar casos onde a ração fornecida é de 22% de PB e, a partir de cálculos nutricionais, precisa ser substituída por de apenas 8% (farelo de milho e mineral), resultando em aumento da produtividade. Por outro lado, em sistemas com forragens nutricionalmente pobres, (pastagens mais fibrosas, silagens passadas ou de capins de baixa qualidade), ser necessário elevar a proteína do concentrado para mais de 25% a fim de manter ou recuperar o desempenho animal. Portanto, não há fórmula mágica de ração melhor para leite!
Podemos, então, resumir que, a necessidade de proteína no concentrado é inversamente proporcional à qualidade do volumoso.
O princípio fundamental: a dieta total
O erro central na escolha da ração é focar exclusivamente em seu percentual de proteína, ignorando o valor nutritivo do volumoso consumido pelos animais. Uma dieta de vacas em lactação balanceada atinge, geralmente, teores de 14% a 17% de proteína bruta no total. Essa variação ocorre pelos demais fatores que afetam a proteína metabolizável. Agora, não considerar a proteína advinda da forragem e escolher a ração só por sua proteína é um erro crasso, que pode levar a uma superdosagem ou subdosagem de proteína, resultando em prejuízo financeiro.
Investir no manejo de pastagens e na produção de forragens conservadas de alta qualidade é uma estratégia mais inteligente. Ao fornecer proteína de alta qualidade e baixo custo através do pasto, o produtor pode suplementar o rebanho com concentrados mais energéticos e menos proteicos, que são mais baratos. Por exemplo, no sul do Brasil, pastagens de inverno podem superar 25% de PB, enquanto no verão, pastagens anuais e perenes tropicais bem manejadas ultrapassam 18% de PB. O alto consumo de pastagens com esses níveis de composição bromatológica permitem atingir elevados níveis de produtividade, como relatado por Ebert, De Albuquerque Nunes e Carvalho (2023).
Essa mesma lógica se aplica a regiões tropicais, onde pastagens em períodos de chuva ou sob irrigação atingem altos níveis de proteína. Um estudo conduzido Marina Danes em 2013, por exemplo, com capim-elefante em manejo intensivo, demonstrou que uma ração contendo apenas milho (8,6% de PB) foi suficiente para atender às necessidades de proteína das vacas, resultando na maior eficiência de uso do nitrogênio. Além disso, a avaliação conjunta de diversos experimentos com pastagens tropicais, trazida aqui pela pesquisadora (Danés 2020), nos mostra que em pastagens bem manejadas, com a suplementação concentrada adequada, é possível atingir altos níveis de produção. Segundo ela, ainda, a utilização de concentrados com elevado teor de PB deve ser questionada.
Diretrizes práticas para a seleção do concentrado
Para auxiliar na tomada de decisão, a tabela abaixo oferece uma orientação básica para a escolha da ração, com base no volumoso predominante na dieta.
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Tipo de Volumoso Predominante |
Proteína Bruta (PB) na Ração |
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Pastagens de alta qualidade (> 17% de PB) |
Usar ração com menos de 18% PB |
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Pastagens de qualidade inferior (< 14% de PB) |
Usar ração com mais de 20% PB |
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Silagens de milho ou capim (<13%PB) |
Usar ração com mais de 22% PB |
Fonte: Leandro Ebert, 2025.
OBS: Variações de níveis de inclusão e de qualidade da forragem impactam na seleção mais adequada do concentrado. É importante ressaltar que, caso outras fontes nutricionais sejam utilizadas, a entrada desses nutrientes deve ser considerada na seleção final da ração.
Estudo de caso: o impacto econômico do ajuste dietético
A aplicação correta desses conceitos gera resultados financeiros expressivos. Considere o exemplo prático recente de um produtor que, após adotar o Pastoreio Rotatínuo, aumentou o consumo de pasto pelo rebanho e observou um incremento inicial de 2 a 3 litros de leite por vaca, sem alterações na ração. O Pastoreio Rotatínuo foi abordado por Ebert, De Albuquerque Nunes e Carvalho (2023) no artigo: Pastoreio Rotatínuo: aumentando o consumo de pasto, aqui no MilkPoint.
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Ajuste Realizado: Com a maior ingestão de pasto de qualidade, a ração foi ajustada, reduzindo o teor de proteína de 22% para 16%.
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Resultado Financeiro:
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Economia na Ração: A mudança gerou uma economia de R$ 0,30 por quilo de ração. Para um consumo de 5 kg/vaca/dia, a economia foi de R$ 1,50 por animal ao dia. Em um rebanho de 20 vacas, isso representou uma economia mensal de R$ 900,00.
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Aumento de Faturamento: Após o ajuste fino da dieta, a produção aumentou em mais 3 litros por vaca/dia. Com o preço do leite a R$ 2,50, o faturamento adicional foi de R$ 4.500,00 no mês.
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Impacto Total: A combinação da economia com o aumento da receita resultou em um ganho líquido de R$ 5.400,00 por mês, demonstrando o poder de um ajuste dietético correto.
Pontos-chave para seleção de rações
A seleção da ração mais lucrativa para vacas de leite não se baseia em encontrar a fórmula com maior teor de proteína, mas sim em entender a interação entre o concentrado e o volumoso.
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O foco deve ser o equilíbrio da proteína na dieta total, não apenas no concentrado.
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O concentrado é um suplemento, e sua formulação deve ser escolhida de acordo com o volumoso que compõe a base da alimentação do rebanho.
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Investir na produção e no consumo de pasto de alta qualidade não só reduz o custo com a forragem, que é mais barata, mas também permite o uso de rações mais energéticas, menos proteicas e, consequentemente, mais econômicas.
É importante notar que a proteína bruta não é o único fator a ser considerado no balanceamento de dietas. Este artigo oferece um caminho inicial para otimizar a escolha do concentrado, mas não substitui a avaliação completa e o ajuste fino realizado por um profissional qualificado.
Use este conhecimento não como um ponto final, mas como o início de uma discussão mais qualificada com seu técnico, ou mesmo com o representante da empresa fornecedora de ração. Questione, analise sua forragem e, junto com o profissional, encontre a solução mais lucrativa para a sua realidade.
Referências bibliográficas
DANES, Marina A. de C.; BERNARDES, Thiago F.; RESENDE, Fernando D. de. Effect of protein supplementation on milk production and metabolism of dairy cows grazing tropical grass. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 42, n. 9, p. 647-654, 2013.
DANES, Marina A. de C. Limitações nutricionais de vacas em lactação mantidas em pastagens bem manejadas, Milkpoint, 2020. https://www.milkpoint.com.br/colunas/marina-danes/limitacoes-nutricionais-de-vacas-em-lactacao-mantidas-em-pastagens-bem-manejadas-219277
EBERT, DE ALBUQUERQUE NUNES, e CARVALHO. Pastoreio Rotatínuo: aumentando o consumo de pasto, Milkpoint, 2023. https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/pastejo-rotatinuo-aumentando-o-consumo-de-pasto-235194
EBERT, Leandro C., SILVEIRA, André F. da., Além da regra 3:1: uso inteligente da ração em sistemas a pasto, Milkpoint, 2025. https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/alem-da-regra-31-uso-inteligente-da-racao-em-sistemas-a-pasto-238813