Intoxicação por monensina em pequenos ruminantes

A monensina é considerada segura quando usada em espécies-alvo, dentro das dosagens recomendada pelo fabricante, e é rapidamente excretada após sua ingestão, com mínimo acúmulo nos tecidos. O uso inadequado desse antibiótico tem, no entanto, causado intoxicação em animais, com o falso conceito de que aumentando a dose recomendada, maior será o ganho de peso.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 3
Ícone para curtir artigo 0

As doenças existentes que afetam o rebanho, muitas delas estão relacionadas com a alimentação. O manejo nutricional na propriedade tem que ser realizado de maneira correta, desde da escolha das matérias-primas até a forma como é oferecida para o rebanho.

A capacidade do aparelho digestivo em promover a digestão dos alimentos depende das suas funções motora e secretora. Em vários casos, a atividade da microflora é modificada, de modo que a digestão se torna anormal ou cessa. O fornecimento de uma dieta inadequada que ocorre em casos de uma formulação erronia, principalmente na adição de aditivos, com o objetivo de melhorar o desempenho de ganho de peso, acabam levando a um quadro de intoxicação.

A monensina é um antibiótico ionóforo sintetizado pelo fungo Streptomyces cinnamonenesis, sendo utilizada como aditivo na dieta de ruminantes para controlar a coccidiose e estimular o crescimento e ganho de peso. Essa droga é um poliéter carboxílico que forma complexos lipossolúveis com cátions, facilitando assim o transporte de íons através de membranas biológicas e induzindo distúrbios celulares fisiológicos e morfológicos devidos ao desequilíbrio iônico.

A monensina é considerada segura quando usada em espécies-alvo, dentro das dosagens recomendada pelo fabricante, e é rapidamente excretada após sua ingestão, com mínimo acúmulo nos tecidos. O uso inadequado desse antibiótico tem, no entanto, causado intoxicação em animais, com o falso conceito de que aumentando a dose recomendada, maior será o ganho de peso.

O consumo de doses tóxicas de monensina pode estar ligada em erro na mistura do premix na ração ou mistura heterogênia; uso concomitante com drogas que potencializa a ação da monensina (exemplos: tiamulin, cloranfenicol e eritromicina); alimentação de ruminantes com esterco de galinha ( vale lembrar que é proibido o fornecimento de esterco de galinha/cama de frango na alimentação animal) tratadas com esse ionóforo; e ingestão excessiva por animais vorazes com dominância social. A maior parte dos problemas de intoxicação dá-se no período inicial de adição do ionóforo à dieta.

A dose tóxica varia consideravelmente dependendo da categoria animal. A DL50 (dose letal capaz de matar 50% dos indivíduos de um lote) de monensina é de 12mg/kg, enquanto a DL0 dessa mesma droga é de 4mg/kg.

Sinais clínicos

O estado clínico da intoxicação varia de acordo com a intensidade da dose e o tempo de ingestão. As mortes podem ser súbitas ou o animal pode apresentar quadro superagudo, agudo, subagudo e crônico. Os tecidos primariamente afetados são o muscular estriado cardíaco e o esquelético.

A doença clínica em pequenos ruminantes, na qual o aparecimento dos sinais clínicos varia entre 18 horas e 4 dias. Nos casos agudos caracterizam-se por tremores musculares (principalmente da cabeça), hiperestesia e convulsões, durante as quais pode ocorrer a morte. Inicialmente, o quadro clínico inicia por sinais como recusa ao alimento, diarreia, parada ruminal e depressão, seguidos de tremores, fraqueza muscular, andar com arrastamento das pinças e decúbito. O animal pode vir a óbito agudamente, logo após o aparecimento desses sinais clínicos, por insuficiência cardíaca. Nos casos crônicos há atrofia muscular, principalmente dos posteriores, sinais de insuficiência cardíaca, edema de peito, fezes amolecidas ou liquidas e distúrbios respiratórios. Nesses casos, as mortes podem ocorrer em semanas ou até meses após a suspensão da monensina.

Diagnóstico

Os casos de intoxicação podem ser sugeridos pelo histórico da propriedade, quadro clínico e achados de necropsia.

Os músculos e o miocárdio devem ser examinados e os fragmentos desses órgãos devem ser colhidos em formalina a 10% para exame histológico. Uma dica para evitar artefatos é conservar os fragmentos de músculos em refrigeração até o desaparecimento do rigor mortis, antes de serem fixados em formol.

Controle

Infelizmente não existe tratamento específico. O tratamento com selênio e vitamina E não tem efeito após o inicio da intoxicação, mas o balanceamento desses ingredientes na dieta ajudam a reduzir os efeitos. Uma vez suspeitando ou diagnosticado a intoxicação por monensina, a alimentação deve ser suspensa e os animais que apresentam os sinais clínicos devem receber tratamento de suporte com fluidoterapia para uma possível recuperação.

Considerações finais

As doses a serem utilizadas na dieta variam com a idade e tamanho do animal, portanto, a administração deve seguir rigorosamente as recomendações do fabricante e/ou nutricionista. Os níveis aproximados para a ração é de 5-10ppm. Para o controle de coccidiose em cordeiros/cabritos pode ser utilizado de 11 a 22ppm na dieta completa.

Referências bibliográficas

PUGH, D.G. Sheep & Goat Medicine. Philadelphia - USA: Saunders Company, 2002, 468p.

RADOSTITS, O.M., GAY, C.C., BLOOD, D.C., HINCHCLIFF, K.W. Clinica Veterinária - Um tratado de Doenças dos Bovinos, Ovinos, Suinos, Caprinos e Equinos. Rio de Janeiro - RJ: Guanabara Koogan, 2002, 1737p.

RIET-CORREA, F., SCHILD, A.L., MÉNDEZ, M.D.C. Doenças de Ruminantes e Equinos. Pelotas - RS: Ed. Universitária, 1998, 651p.

SMITH, B.P. Medicina Interna de Grandes Animais. 3. Ed. Barueri - SP: Manole, 2006, 1728p.

SOUZA, T.S.; COSTA, J.N.; SILVA, A.E.; MOREIRA, E.L.T.; FERREIRA, M.M.; COSTA, A.F. Intoxicação por monensina em ovinos. Archives of Veterinary Science. v.13, n.4, p.280-84, 2008.

SALVADOR, I.S.; PESSOA, C.R.M.; SILVA, T.R.; ASSIS, A..C.O.; SANTOS, K.C.; MEDEIROS, J.M.A.; DANTAS, A.F.M. Intoxicação por monensina em ovinos no semi-árido Paraibano - Relato de caso. Ciência Animal Brasileira. Supl. 1 - Anais do VIII Congresso Brasileiro de Buiatria, 2009.
Ícone para ver comentários 3
Ícone para curtir artigo 0

Material escrito por:

MV Dr. Leandro Rodello, PhD

MV Dr. Leandro Rodello, PhD

Médico Veterinário (UNOESTE - Presidente Prudente), com Residência em Reprodução Animal (UNESP- Araçatuba) e Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado em Reprodução Animal (UNESP- Botucatu)

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Ana Kbrita
ANA KBRITA

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PESQUISA/ENSINO

EM 04/09/2021

Ois.
Boa Noite !
Quais os componentes da Monensina .
Existem Monensinas, em várias fórmulas .
Qual a monensina, que tem na sua formula a ureia protegida .
MV Dr. Leandro Rodello, PhD
MV DR. LEANDRO RODELLO, PHD

ARAGUAÍNA - TOCANTINS - PESQUISA/ENSINO

EM 03/10/2012

Prezado Sr. Elton Bock Correa,



Primeiramente obrigado por ter lido a matéria.



No caso a DL50 de 12mg/kg de peso vivo é quando utilizamos a monensina para fins terapeuticos , então você não pode atingir este nível.



No caso em ração/sal mineral, que são as formas, na qual a monensina é mais utilizada o Sr. não pode ultrapassar níveis entre 5-10ppm.



Att. Leandro
Elton Bock Correa
ELTON BOCK CORREA

MATO GROSSO DO SUL - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 03/10/2012

D DL 50 é 12mg/kg de peso vivo ou por kg de materia seca ingerida?

Qual a sua dúvida hoje?