Especial Técnicos: "conhecimento só tem valor quando consegue ajudar o produtor de leite"

Augusto Cossolino Aboin defende uma ideia simples: não existe receita pronta para produzir leite.

Publicado em: - 7 minutos de leitura

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Na produção de leite, o técnico desempenha papel crucial ao transformar informações e dados em decisões práticas adequadas à realidade de cada propriedade. Augusto Aboin, zootecnista, enfatiza que não há uma receita única para a produção leiteira, sendo vital compreender a estrutura e desafios de cada fazenda. A assistência técnica deve também incluir a formação da equipe e a aplicação de novas tecnologias. Além disso, produtores que buscam constantemente aprender e conhecem seus próprios números tendem a evoluir mais. A adaptação do conhecimento técnico ao contexto local é essencial para construir confiança entre técnicos e produtores.
Na produção de leite, informação não falta. Pesquisas avançam, novas tecnologias chegam às propriedades e os dados gerados dentro das fazendas se multiplicam. O desafio, muitas vezes, está em transformar tudo isso em decisões que façam sentido para cada realidade.

É justamente nesse ponto que entra o trabalho do técnico. Para Augusto Cossolino Aboin, zootecnista com graduação e mestrado pela UNESP de Botucatu e atuação em Passos e na região Sudoeste de Minas Gerais, a assistência técnica não se resume a conhecer a recomendação mais atual ou acompanhar os indicadores de uma propriedade. É preciso entender quem está do outro lado, conhecer a realidade da fazenda e encontrar maneiras de transformar conhecimento em prática.

Indicado por profissionais do setor ao Especial Técnicos, série criada pelo MilkPoint para reconhecer quem contribui, por meio da assistência e do conhecimento técnico, para o desenvolvimento da produção de leite brasileira, Augusto defende uma ideia simples: não existe receita pronta para produzir leite.

Augusto Cossolino Aboin

Antes da recomendação, vem a realidade da fazenda

Cada propriedade tem uma história, uma estrutura, um nível de investimento e uma forma de trabalhar. Por isso, para Augusto, qualquer recomendação técnica precisa partir de uma compreensão profunda desse cenário. “Eu sempre falo que, na produção de leite, não existe receita de bolo. Cada fazenda tem a sua realidade, suas necessidades, suas particularidades e seus desafios.”

Na prática, isso significa que o papel do técnico começa antes da indicação de uma tecnologia, de um manejo ou de uma mudança de processo. “Antes de querer mudar alguma coisa, precisamos entender o produtor e como aquela propriedade funciona.”

É a partir dessa leitura que o conhecimento técnico passa a ter utilidade. Em vez de simplesmente reproduzir uma recomendação, o profissional precisa avaliar como determinada solução pode ser incorporada à rotina daquela fazenda — e se, de fato, é a melhor alternativa para aquele produtor. “Nosso papel é buscar as melhores soluções e, principalmente, fazer com que elas se encaixem na realidade do produtor de leite e da propriedade.”

Essa capacidade de fazer a ponte entre o que a ciência produz e aquilo que o campo consegue executar é, para Augusto, uma das características que definem uma assistência técnica capaz de gerar transformação.

Augusto Cossolino Aboin

Uma vaca caída e uma lição que ficou

Algumas histórias profissionais permanecem justamente porque mostram, de maneira concreta, por que o conhecimento técnico importa. A de Augusto aconteceu praticamente no início da carreira, no segundo dia de trabalho, logo depois de concluir o mestrado.

Ele foi visitar uma propriedade em São João Batista do Glória (MG) e encontrou uma vaca caída. O produtor não sabia como proceder e, diante dos sinais apresentados pelo animal, Augusto identificou a possibilidade de um caso de febre do leite. Orientou o tratamento e conseguiu ajudar naquele momento.

O episódio poderia ter sido apenas mais uma ocorrência dentro da rotina de assistência. Não foi. Anos depois, o produtor ainda se lembra daquele dia quando encontra Augusto. Embora tenha deixado a atividade leiteira, ele carrega aquela lembrança — e o técnico também.

A experiência acabou se tornando uma das histórias mais marcantes de sua trajetória, não necessariamente pelo caso clínico em si, mas pelo que ele representou. “Fazenda de leite é feita por pessoas.”

Para Augusto, é justamente aí que o conhecimento técnico ganha outra dimensão. Estudar, acompanhar pesquisas e buscar informação são necessidades permanentes de quem trabalha com assistência, mas o conhecimento só cumpre seu papel quando consegue chegar à fazenda e ajudar alguém a resolver um problema real. “Nosso conhecimento técnico é fundamental, mas ele ganha ainda mais valor quando conseguimos utilizá-lo para ajudar alguém.”

A lembrança daquele segundo dia de trabalho também reforçou uma convicção que acompanha sua carreira: quanto maior o conhecimento acumulado pelo profissional, maior sua capacidade de estar preparado quando o produtor precisar. “Precisamos continuar estudando, aprendendo e buscando informação, porque quanto mais conhecimento temos, mais preparados estamos para ajudar o produtor.”

O desafio da mão de obra também passa pelo conhecimento

Entre os principais desafios da produção de leite brasileira, Augusto aponta uma questão que aparece cada vez mais nas propriedades: a dificuldade de encontrar e manter mão de obra. Para ele, porém, a assistência técnica também pode contribuir para enfrentar esse cenário.

Isso passa por estar próximo não apenas do produtor, mas também das pessoas que executam diariamente as tarefas da fazenda. Treinamento e conhecimento podem mudar a forma como uma atividade é realizada quando o trabalhador entende não apenas o que precisa fazer, mas por que aquilo é importante. “Quando uma pessoa entende por que determinada tarefa precisa ser feita e percebe a importância do trabalho dela para o resultado da fazenda, a forma como ela executa aquele trabalho muda.”

A percepção amplia o papel do técnico. Mais do que transmitir uma orientação ao proprietário, é preciso ajudar a construir entendimento dentro da equipe. E essa relação entre conhecimento, pessoas e execução tende a ganhar ainda mais importância à medida que as propriedades se tornam mais tecnificadas.

Augusto Cossolino Aboin

Mais dados, mais decisões — e uma nova fronteira para a assistência

Se a mão de obra aparece como um dos grandes desafios atuais, Augusto enxerga na tecnologia uma das principais oportunidades para os próximos anos. Especialmente na integração da inteligência artificial com a produção de leite.

As fazendas já geram uma quantidade crescente de informações. Sensores, softwares, equipamentos, sistemas de gestão e ferramentas de monitoramento ampliam a capacidade de acompanhar diferentes aspectos da produção.

Para Augusto, o próximo passo não será simplesmente ter mais dados, mas conseguir utilizá-los melhor. “Vamos ter cada vez mais informações disponíveis dentro das fazendas. E acredito que a grande oportunidade estará justamente em transformar essas informações em decisões melhores, mais rápidas e mais assertivas.”

Nesse cenário, o técnico também precisará acompanhar essa transformação. A tecnologia pode ampliar a capacidade de análise, mas continua existindo a necessidade de interpretar as informações dentro do contexto de cada propriedade.

Mais dados não significam automaticamente melhores decisões. É preciso saber quais informações importam, o que elas estão indicando e, principalmente, o que pode ser feito a partir delas.

O produtor que conhece os próprios números

Se não existe receita de bolo para as propriedades, também não existe um modelo único de produtor que evolui.

Mas Augusto identifica um comportamento recorrente entre aqueles que conseguem melhorar continuamente: a disposição para aprender. “Para mim, os produtores que mais evoluem são aqueles que nunca param de buscar informação e melhoria.”

São produtores que perguntam, conversam, discutem, trocam experiências com outros produtores e procuram compreender cada vez mais o próprio negócio. Essa abertura para aprender, porém, precisa vir acompanhada de uma característica que Augusto considera fundamental: conhecer os números da própria fazenda.

A comparação com o vizinho pode trazer referências e estimular novas ideias, mas não substitui a análise da própria realidade. “Não adianta olhar apenas para o que está acontecendo na propriedade do vizinho. O produtor precisa conhecer os seus indicadores, entender onde está indo bem e onde precisa melhorar.”

No fim, a evolução passa por uma combinação de curiosidade e gestão: buscar informação, mas também saber o que os próprios dados estão dizendo.

Se tivesse que resumir em uma única característica aquilo que considera decisivo para a evolução de um produtor, Augusto escolheria justamente essa capacidade de conhecer o próprio negócio por meio dos números e manter uma busca constante por melhoria.

O conhecimento que chega ao campo

Essa mesma lógica vale para quem está do outro lado da relação: o profissional de assistência técnica. A recomendação de Augusto para quem está começando é direta: não parar de estudar.

A pesquisa em produção de leite avança continuamente e produz uma quantidade enorme de conhecimento. Para acompanhar esse movimento, o técnico precisa manter uma rotina permanente de atualização. Mas, para ele, existe uma diferença importante entre conhecer uma informação e saber utilizá-la. “Não basta ter conhecimento técnico. Precisamos saber transformar esse conhecimento em algo que possa ser aplicado dentro da fazenda.”

É nesse ponto que a capacidade de adaptação volta a ser essencial. Uma recomendação pode ser tecnicamente correta e, ainda assim, não ser adequada para determinada propriedade naquele momento. O profissional precisa compreender as condições existentes, as necessidades do produtor e os limites daquela realidade para encontrar a melhor maneira de aplicar aquilo que aprendeu. “Cada propriedade tem uma realidade diferente.”

Por isso, na visão de Augusto, o profissional que constrói uma carreira de confiança não é necessariamente aquele que chega à fazenda com a informação mais nova. É aquele que consegue transformar essa informação em uma solução possível, coerente e útil. “É isso que, ao longo do tempo, também ajuda a construir confiança entre técnico e produtor.”

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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