“Na minha opinião, um profissional da área de agrárias tem que saber fazer o produtor ganhar mais dinheiro com a atividade leiteira. Ser um bom agrônomo, um bom zootecnista e um bom veterinário é uma obrigação, porém tem que ter visão gerencial de custos de produção de leite e de planejamento da empresa rural a médio e longo prazo”, afirma.
Para Thiago, é essa combinação entre conhecimento técnico e visão de gestão que permite ao profissional atuar como um verdadeiro agente de transformação dentro da fazenda. Em uma atividade marcada por margens apertadas e decisões que precisam considerar tanto o presente quanto o futuro, conhecer os custos e planejar os próximos passos da empresa rural passa a ser tão importante quanto dominar os aspectos produtivos.
De filho de produtor a formador de profissionais
A própria trajetória de Thiago ajuda a explicar essa visão sobre a assistência técnica. Filho de um pequeno produtor de leite, ele permaneceu ligado à atividade durante a graduação, período em que participou do PDPL (Programa de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira).
Segundo ele, a experiência teve papel decisivo em sua formação profissional. Depois de formado, passou a atuar com assistência técnica e gerencial a fazendas de leite pelo projeto Educampo/Sebrae, em Raul Soares (MG), e posteriormente teve a oportunidade de retornar ao PDPL como técnico.
Foi justamente essa passagem pelo programa que se tornou uma das grandes conquistas de sua carreira. “Minha grande conquista foi ser um filho de um pequeno produtor de leite e continuar trabalhando na atividade durante a graduação no estágio PDPL, que fez muita diferença para melhor. Depois de formado, dar assistência técnica e gerencial a fazendas de leite pelo projeto Educampo/Sebrae em Raul Soares-MG e, principalmente, ter a honra de ter sido técnico do PDPL e ter colaborado na formação de profissionais de centenas de estagiários que fizeram o PDPL, onde um dia também participei”, conta.
Para Thiago, participar da formação de outros profissionais que passaram pelo programa representa uma etapa da carreira da qual guarda especial orgulho. “Isso fez toda a diferença e me orgulho muito dessa fase da minha vida profissional”, destaca.
Sucessão familiar é um dos grandes desafios
Com quase 30 anos de experiência na pecuária leiteira, Thiago aponta a estrutura da produção como um dos principais desafios da cadeia leiteira. Para ele, o grande número de produtores com baixo volume de leite cria uma questão que vai além da eficiência produtiva: como garantir renda suficiente para que a próxima geração queira permanecer na atividade? “O maior desafio dessa cadeia tão complexa que é a pecuária leiteira é o grande número de pecuaristas com baixo volume de leite e como fazer uma sucessão familiar com tão pouca renda”, avalia.
Na sua percepção, esse cenário já pode ser observado no campo, com a depreciação de propriedades e a dificuldade de filhos darem continuidade ao trabalho construído por pais e avós.
É nesse ponto que Thiago enxerga uma relação direta entre tecnologia, assistência técnica e sucessão familiar. Ele resgata uma frase que costumava ouvir do professor Sebastião Teixeira Gomes, idealizador do PDPL e ex-professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV): “o pai que não aplica tecnologia, o filho não fica na atividade.”
Para Thiago, a frase resume uma questão central da pecuária leiteira: melhorar os resultados da propriedade é também criar condições para que a atividade continue sendo uma opção para a próxima geração. Nesse processo, produtor e técnico são interdependentes. De um lado, está o pecuarista disposto a buscar novas tecnologias e melhorar a gestão. Do outro, o profissional precisa ser capaz de traduzir conhecimento em soluções que façam sentido dentro da realidade econômica da fazenda.
Quem continua é quem busca assistência e tecnologia
Na avaliação de Thiago, as propriedades que conseguem permanecer na atividade têm em comum a disposição para buscar conhecimento e utilizar a assistência técnica e gerencial como ferramenta de evolução. “Os pecuaristas que continuam são os que acreditam na assistência técnica e gerencial e buscam novas tecnologias”, afirma.
A afirmação também reforça sua visão sobre o papel do profissional. A assistência não deve se limitar à recomendação de uma prática ou tecnologia, mas precisa contribuir para que o produtor compreenda o impacto das decisões sobre os resultados da empresa rural. Isso ganha ainda mais importância em um mercado no qual o preço do leite não é determinado individualmente pelo produtor.
A resposta está dentro da porteira
Para Thiago, a competitividade da atividade leiteira torna cada vez mais importante olhar para aquilo que pode ser controlado dentro da propriedade. “A cada dia o mercado é mais competitivo e o preço do leite é o mercado que define. Então a solução para ganhar dinheiro com a atividade leiteira está da porteira para dentro”, afirma.
Nesse cenário, custo de produção e gestão assumem papel central. A margem é apertada e, segundo ele, muitas vezes o lucro da atividade está nos centavos. Por isso, pequenas diferenças de eficiência podem fazer diferença no resultado final da propriedade. “Não existe almoço de graça”, resume. A assistência técnica-gerencial, portanto, pode ser uma ferramenta para identificar onde estão essas oportunidades dentro da fazenda, seja na produção, nos custos, no uso dos recursos ou no planejamento do negócio.
Para Thiago, o profissional que consegue unir conhecimento técnico, análise econômica e planejamento passa a ocupar uma posição estratégica na propriedade.
Formação começa ainda na graduação
Para quem pretende seguir carreira na assistência técnica, Thiago recomenda que a preparação comece antes mesmo da formação profissional terminar. “Para que os profissionais das agrárias que quiserem ficar na assistência tenham ainda na graduação que buscar um bom estágio na área e procurar informações e conhecimentos sobre custo de produção e gestão dentro das empresas rurais”, orienta.
Na visão dele, a formação acadêmica é fundamental, mas precisa ser complementada por experiências práticas e conhecimentos que permitam compreender a fazenda leiteira como uma empresa. Isso significa conhecer custos, analisar indicadores, entender o planejamento da propriedade e, principalmente, compreender como as decisões técnicas interferem no resultado econômico. “Tem que buscar algo complementar ao que a academia ensina”, destaca.
Depois de quase três décadas acompanhando a pecuária leiteira, Thiago resume sua visão sobre o futuro da assistência técnica em uma relação direta: quanto mais competitivo fica o mercado, maior é a necessidade de transformar conhecimento em resultado.
E, para isso, o técnico precisa estar preparado para olhar para a fazenda não apenas como um sistema de produção, mas como uma empresa rural que precisa gerar renda, sustentar famílias e criar condições para que a atividade continue de uma geração para outra.
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