FAZER LOGIN COM O FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

Diarreia viral bovina (BVD): qual o verdadeiro impacto?

POR VIVIANI GOMES

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 11/02/2016

7 MIN DE LEITURA

4
3

Atualizado em 30/12/2020

A diarreia viral bovina (BVD) é uma doença causada por vírus e recebeu este nome porque os mesmos foram inicialmente isolados em bovinos com diarreia. A BVD possui importância mundial devido ao impacto econômico causado pelas perdas produtivas e reprodutivas.

É considerada uma das principais viroses dos bovinos, especialmente nos países que erradicaram a febre aftosa. Testes sorológicos e pesquisas de anticorpos demonstram prevalência entre 60 a 85% de animais soropositivos.

 

Como ocorre a transmissão da BVD?

A transmissão do vírus ocorre antes ou após o nascimento. No primeiro caso, infecta a vaca prenhe, atravessa a placenta e atinge o feto. Já no segundo, é transmitido pelo contato direto entre doente e sadio, por meio de secreção nasal, lágrima, saliva, urina, fezes, leite e sêmen de animais infectados.

O vírus eliminado por estas vias sobrevive no meio ambiente por muitos dias e contamina equipamentos e materiais usados no manejo do rebanho, tais como: cabrestos, mamadeiras, formigas, agulhas, dentre outros. Procedimentos vinculados ao manejo reprodutivo como a transferência
de embriões (TE), inseminação artificial (IA) e palpação retal também são formas de transmissão.

 

Quais os sinais clínicos da BVD?

O quadro clínico provocado pela BVD é diversificado, vai de inaparente a fatal, dependendo do momento da infecção, status imune dos animais e virulência das cepas do vírus presentes no rebanho. A infecção em animais imunocompetentes induz a formação de anticorpos, responsáveis pela eliminação do vírus antes que ele alcance o sistema reprodutivo, pulmões e intestino. Neste caso, os bovinos apresentam doença branda e transitória associada com depressão, febre e diarreia leve.

Vacas infectadas durante o ciclo reprodutivo, com sistema imune enfraquecido, apresentam sérias consequências para si e seus conceptos. O vírus da BVD instala-se no sistema reprodutivo das fêmeas, sendo responsável por quadros de infertilidade, diminuição da taxa de concepção, baixa viabilidade do embrião e reabsorção embrionária da concepção aos 40 dias de gestação. Abortos podem ocorrer em qualquer período.

Bezerras com elevados níveis de anticorpos maternos, quando infectadas, também apresentam manifestações clínicas brandas da BVD. O problema é que entre dois a quatro meses de idade ocorre a queda dos anticorpos recebidos via colostro, o que torna as bezerras susceptíveis aos vírus da doença.

O agente da BVD é imunossupressor, pois infecta todas as células de defesa do organismo, o que torna os animais susceptíveis a outros vírus e bactérias, como os envolvidos na doença respiratória bovina – Herpesvírus Bovino tipo 1, Vírus Respiratório Sincicial Bovino, Parainfluenza tipo 3, Micoplasma spp., Pasteurella multocida e Mannheimia haemolytica.

O vírus da BVD também pode ser um agente primário da doença respiratória bovina, pois sua inoculação experimental no trato respiratório de bezerros resulta em febre, descarga nasal e pneumonia intersticial.




Alguns tipos do vírus da BVD também causam quadros hemorrágicos, pois infectam a medula óssea dos animais e destroem as células fundamentais para o sistema de coagulação sanguíneo.

 

Animais persistentemente infectados (PI)

A transmissão transplacentária do vírus da BVD, da mãe para o feto, entre 40 e 125 dias da gestação, origina animais persistentemente infectados (PI), tidos como os maiores vilões na transmissão da doença no rebanho. Neste momento, o feto não consegue produzir anticorpos para combater o vírus porque seu sistema imune ainda está em formação. Assim, os animais PIs nascem soronegativos (sem anticorpos) e clinicamente normais. Porém, eliminam grande quantidade de partículas virais em suas secreções e excreções.

 

 

O destino do PI no rebanho é variável, podendo passar a vida toda despercebido ou manifestar o quadro crônico da BVD, chamado de Doença das Mucosas (diarreia). A prevalência de animais PI nos rebanhos é de 1 a 2%, mas apesar de baixa, é suficiente para espalhar o vírus.

 

Infecções após 125 dias de gestação e após o nascimento

Entre 125 e 175 dias de gestação podem ocorrer malformações fetais, defeitos congênitos ou natimortos, com destaque para os quadros de Hipoplasia Cerebelar nos recém-nascidos, que causa tremor, incoordenação, andar trôpego, membros abertos e ausência de sucção para a mamada do colostro. Os defeitos são severos e, geralmente, as bezerras morrem.

Os fetos tornam-se imunocompetentes após 175 dias de gestação. A partir deste momento, apresentam infecção transitória, desenvolvem resposta imune, produzem anticorpos e eliminam o vírus antes ou após o nascimento. A presença de anticorpos específicos para o vírus da BVD no sangue das bezerras, antes da mamada de colostro, é um sinal de infecção fetal no final da gestação. Estes animais são mais susceptíveis às doenças durante os primeiros dez meses de vida que aqueles não expostos ao vírus enquanto fetos.

Após o nascimento, os animais são infectados por via horizontal, pelo contato com doentes e PIs. Neste caso, podem manifestar a forma crônica (Doença das Mucosas) ou aguda da BVD, apresentando febre, descarga nasal e ocular, lesões na cavidade oral (aftas - bolhas), diarreia e queda na produção de leite. É importante ressaltar que, após o nascimento, a infecção é transitória. Porém, sua duração e a intensidade do quadro clínico dependem do status imune do bovino doente.

 

Controle e prevenção

A principal medida para minimizar a ocorrência de BVD no rebanho é aumentar a produção de anticorpos. Bovinos com alta imunidade secretam poucas partículas virais por um curto período de tempo. As principais estratégias para elevar os níveis de anticorpos são colostragem e vacinação.

O colostro protege as bezerras nos primeiros dois a quatro meses de vida, dependendo da qualidade e programa de controle do manejo de colostro adotado na fazenda. O contato prévio das vacas com o vírus da BVD, por meio da vacina ou exposição natural, é fundamental para a presença de anticorpos específicos.

A vacinação das vacas aos 21 e 42 dias antes da data prevista para o parto pode ajudar a resolver o problema. No entanto, esta resposta depende da qualidade da imunização e condição nutricional dos animais.

O principal objetivo do programa de controle é a prevenção da infecção fetal, que deveria eliminar as perdas reprodutivas e infecções transitórias nas vacas e fetos. O controle pode ocorrer com uma combinação de medidas que envolvem a identificação do PI, colostragem, vacinação e biosseguridade do rebanho.

 

Diagnóstico da BVD

Identificar os animais PIs envolve o uso de testes laboratoriais. Os métodos mais usados são isolamento viral, imuno-histoquímica, reação da cadeia em polimerase (PCR) e testes sorológicos (mostra que o animal apresenta anticorpo para o vírus).

O uso dos testes sorológicos (soroneutralização e imunoenzimático - ELISA) é limitado, pois os resultados sofrem influência dos anticorpos maternos adquiridos pela mamada de colostro e vacinação. Já o teste imuno-histoquímico é o método mais usado fora do Brasil para a triagem das bezerras infectadas. A coleta das amostras é feita pela biópsia de orelha e o resultado não é influenciado pelos anticorpos do colostro ou vacinais.

 

Vacinação

Existem no mundo duas categorias de vacinas para BVD, uma contendo vírus vivo modificado e a outra com vírus morto (inativado). No Brasil, apenas é permitida a comercialização das vacinas com o vírus morto, o que traz vantagens e desvantagens. O benefício é a biossegurança pois vacinas com vírus morto não causam doença. Entretanto, a intensidade e a resposta são inferiores comparadas às vacinas vivas atenuadas comercializadas fora do Brasil.

A maioria das vacinas comercializadas em território brasileiro, se não todas, possuem cepas de BVD estrangeiras originárias, principalmente, do Uruguai, Argentina e Estados Unidos. Ou seja, a introdução destas, por meio da vacina, em nosso país representa um grande risco biológico, pois nosso rebanho pode ser sensível a estas cepas, aparentemente inócuas em seu país de origem.

Mesmo nestes países, as vacinas vivas modificadas são contra indicadas em vacas prenhes por causarem infecção fetal. Assim, é fundamental um rígido controle federal na entrada e uso desses biológicos em nosso país. Os resultados das pesquisas são contraditórios. Alguns estudos demonstram reatividade cruzada entre as cepas vacinais e de campo, o que significa que a vacina pode induzir imunidade.

O início da vacinação, na criação de bezerras, é um assunto controverso. A imunização é uma estratégia para diminuir os índices de problemas respiratórios e outras doenças infecciosas. Recomenda-se realizar uma excelente colostragem para garantir imunidade nos primeiros meses de vida, iniciando-se programas e vacinação a partir dos 2 meses de idade. Vacinar as bezerras aos seis meses é muito tarde, pois o vírus da BVD é uma das causas de doença respiratória bovina.

A duração da imunidade vacinal é uma incógnita. Pesquisas internacionais demonstram que varia de 140 dias a 18 meses, o que depende da vacina empregada. No caso das imunizações com vírus morto, recomenda-se a revacinação a cada seis meses. Para prevenir a infecção fetal, é recomendado vacinar as fêmeas seis semanas antes da inseminarão artificial. Isto estimula a produção de anticorpos capazes de eliminar o vírus antes que ele atravesse a barreira placentária e provoque infecção fetal.

Alguns países da Europa como a Suíça e Dinamarca são pioneiros em programas oficiais de governo para a erradicação da BVD. A Alemanha possui, desde 2002, um plano de controle voluntário. O Brasil ainda não dispõe de programa oficial para controle ou erradicação desta doença.

Este artigo foi adaptado do publicado anteriormente na revista Leite Integral, edição janeiro 2015.

VIVIANI GOMES

Professora Clínica Médica de Ruminantes da FMVZ-USP. Coordenadora GeCria - Grupo Especializado em Medicina da Produção aplicada ao período de transição e criação de bezerras. Tel: (11) 3091-1331

4

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

JORDAN DE FREITAS VIANA

CARATINGA - MINAS GERAIS

EM 19/10/2020

adorei seu artigo ,eu sou leigo no assunto e entendi muito bem.tenho suspeita que meu curral esteja com este problema .
VIVIANI GOMES

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 10/04/2016

Helena Nogueira Frota

Inicialmente gostaria de agradecer pelo seu interesse. Recomendamos o seguinte esquema de profilaxia:

1- Colostrar as bezerras com colostro oriundo de vacas previamente vacinadas. Vacas sem contato prévio com o vírus da Diarreia Viral Bovina não tem anticorpos específicos para este agente no seu colostro;

2- Vacinar as bezerras com 2 e 3 meses de idade. Re-vacinar aos seis meses de idade. Bezerras recém-nascidas (menos de 30 dias de vida) não respondem às vacinas porque os anticorpos das mães, adquiridos pela ingestão do colostro, bloqueiam a resposta das bezerras às vacinas injetáveis. Este bloqueio não acontece quando as vacinas intranasais são usadas. Em Agosto será lançada uma vacina intranasal para a Doença Respiratória Bovina no Brasil;

3- Vacinar novilhas aos 60 e 30 dias da inseminação artificial para estimular a produção de anticorpos, fundamentais para a prevenção da infecção fetal;

4- Vacas devem ser vacinadas aos 30 dias da inseminação artificial. Necessárias re-vacinações semestrais.



Estou à disposição para maiores dúvidas



Abraços e obrigada


HELENA NOGUEIRA FROTA

VARGINHA - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 16/02/2016

Qual esquema de vacinação para bvd é o mais indicado?
GUSTAVO TEIXEIRA ROCHA

CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM - ESPÍRITO SANTO

EM 14/02/2016

Muito bom artigo...

Países desenvolvidos com programa de erradicação BVD e agente engatinhando ainda no PNCEBT ...
MilkPoint AgriPoint