No contexto mundial, existe grande variabilidade em termos de custos de produção. Diferenças no custo são basicamente decorrentes do padrão tecnológico e dos preços dos fatores de produção como terra e ração. O preço ao produtor é um reflexo da política de proteção ao setor, da condição de renda dos países e do perfil da organização da indústria compradora (grau de concentração de captação através de cooperativas).
O objetivo deste artigo é o de contrastar o setor produtivo de algumas regiões do mundo, com base em informações de sistemas típicos representativos de alguns países.
Os dados foram compartilhados pelo IFCN (International Farm Comparison Network), uma associação mundial de cientistas para desenvolvimento cooperativo de metodologias, organização e compartilhamento e avaliação de informações para comparação da competitividade de sistemas de produção de leite, com sede em Brauschweig, na Alemanha. A Embrapa Gado de Leite colabora cientificamente com esta organização, compartilhando dados do Brasil nesses estudos (http://www.ifcnnetwork.org).
As informações foram extraídas do Relatório IFCN do Leite 2002 e da Conferência IFCN 2003, originalmente com 88 sistemas de 27 países participantes. Selecionaram-se 13 países, procurando distinguir seis regiões. Os países são representados por sistemas típicos. Portanto, as informações não são resultantes de médias. Nas ilustrações referentes às Figuras 1 a 4, os países são identificados pelas suas iniciais e são os seguintes:
- América do Norte: Estados Unidos e Canadá;
- América do Sul: Brasil e Argentina;
- Europa, Oeste: Suíça, Alemanha e França;
- Europa, Leste: Polônia e Estônia;
- Ásia: Índia, Paquistão e China; e
- Oceania: Nova Zelândia e Austrália.
Os custos de produção, mostrados na Fig. 1, refletem diferenças tecnológicas, por sua vez intimamente influenciados pelo padrão de renda local e pela política de subsídios e proteção do setor. Os custos totais também são muito próximos dos preços ao produtor, demonstrando que mudanças tecnológicas são decorrentes do preço ao produtor. Os sistemas de produção representativos dos Estados Unidos e dos países do Leste da União Européia apresentam custos mais altos que os demais. Note-se que são estes os que adotam políticas de subsídio, direto e/ou indireto e altas barreiras tarifárias que protegem os produtores locais da concorrência internacional.
Os custos de produção podem ser agrupados em três categorias: (1) Custos relativamente altos, entre 30 e 40 centavos de dólar estão presentes nos Estados Unidos, Canadá e países do Oeste da Europa; (2) médios, entre 20 e 30 centavos nos países do Leste Europeu; e (3) custos abaixo dos 20 centavos em países da Ásia, Oceania e América do Sul.
Nas duas condições de custos mais altos, a atividade leiteira encontra amparo em forte política de subsídios, sendo que a principal política ainda está atrelada à garantia de preços e, para que esta medida não crie um incentivo ao constante aumento produtivo, criou-se um sistema de cotas por produtor. A Suíça configura um caso ainda mais especial, pois adota uma política para o setor que consegue viabilizar a atividade, mesmo com um dos custos mais elevados do mundo.
Mais distorsivas do que as medidas de ajuda interna são as políticas adotadas para escoar o excesso de produção acumulado internamente em alguns países protecionistas; os subsídios às exportações. Estes afetam negativamente os preços internacionais, reduzindo-os artificialmente e criando novos mercados que normalmente não seriam atingidos sem sua prática.
Na ausência de proteção tarifária e da utilização de práticas de defesa comercial, os produtores dos demais países acabam por ter que se ajustar à condição de preços ao produtor mais baixos, resultando no uso de novas tecnologias, com custos de produção mais competitivos. Evidentemente que o custo da mão-de-obra influencia todos esses custos. No método de cálculo do IFCN, a mão-de-obra familiar é apropriada no custo de oportunidade que, em geral, é alto nos países desenvolvidos e baixo nos países em desenvolvimento.
Os dados mostram que níveis de produtividade mais altos também refletem custos mais altos (Fig. 2). O número de vacas (Fig. 3) expressa níveis de especialização da atividade. Níveis mais homogêneos de tecnologia têm relação mais direta com tamanho. Fazendas com grande número de vacas são típicas nos países do Leste Europeu e atualmente em processo de reestruturação para melhoria de eficiência econômica, mas com tendência de preços mais homogêneos em toda a Europa à medida que a integração da UE se consolide.
A tendência de preços (Fig. 4), assim como os custos, se enquadra na condição semelhante: (1) Suíça, com preços estabilizando ao redor de 50 centavos; (2) EUA, Canadá (estável) e União Européia, no intervalo de 30 a 40 centavos; (3) Oceania, com tendência de não cair muito abaixo de 20 centavos. Nos últimos dois anos, Brasil e Argentina configuram tendência de preços ao redor (e mesmo inferior) de 15 centavos.
Com relação à tendência de preços, chama atenção o caso da China. Com tendência crescente de preços, o mercado chinês pode se configurar como promissor mercado importador, especialmente para países com preços competitivos como Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Brasil. A China teve um aumento de 77,6% nas importações no último ano (MilkPoint, 27/8/2003) devido, principalmente, à crescente demanda doméstica de produtos lácteos.
No contexto mundial e no cenário atual da política cambial brasileira, o Brasil configura-se muito competitivo. Especialmente porque ainda dispõe de fronteira para expandir em termos de produtividade via genética, coisa que se apresenta bem mais desafiador para a Argentina e para Nova Zelândia, por exemplo.



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1PhD em Economia Rural; TNS da Embrapa Gado de Leite;
2MSc em Economia Rural; Coordenador do Departamento Técnico da Faemg;