Quando se fala na força de uma empresa familiar, muitos pensam em trabalho e dedicação. Mas, no nosso caso, a verdadeira força nasceu da adversidade.
Quando éramos crianças, minha família viveu momentos difíceis. Meu irmão e eu sofremos queimaduras graves com leite e água fervendo, e pouco tempo depois minha irmã sofreu um acidente que a deixou em coma por várias semanas.
Foram anos duros, marcados pela dor e pela incerteza, mas também pelos gestos de amor e cuidado que nos uniram ainda mais. Aprendemos que o afeto e o apoio são o alicerce de tudo — tanto na vida quanto no trabalho.
Com o tempo, percebemos que aquela união forjada nas dificuldades seria o maior patrimônio da nossa família. E foi essa força, nascida da dor, que nos permitiu, anos depois, trabalhar juntos com confiança e propósito.
Três razões para voltar
Uma família unida é essencial, mas não basta união para que quatro filhos queiram voltar a trabalhar com os pais. No nosso caso, três coisas tornaram isso possível.
A primeira foi o exemplo. Meu pai, Carlitos, sempre nos transmitiu paixão e otimismo pelo trabalho. Era curioso, buscava conselhos, aprendia o tempo todo. Minha mãe, Pini, foi o suporte silencioso — a guardiã da harmonia familiar. Juntos, transformaram a empresa em algo maior que um emprego: ela passou a fazer parte da nossa identidade.
A segunda foi a liberdade para decidir. Desde cedo, meu pai nos deu autonomia para experimentar, contratar profissionais e inovar. Os erros não eram castigados; eram oportunidades de aprender.
E a terceira foi ter um projeto vivo, que crescia e nos convidava a sonhar. A ideia de “aumentar o tamanho do bolo” tornou-se central: não se tratava apenas de preservar o que existia, mas de ousar e profissionalizar para abrir espaço para todos.
Integrar gerações
Nenhum de nós era veterinário ou engenheiro agrônomo, o que tornava o desafio ainda maior. Mesmo assim, cada um encontrou seu jeito de contribuir. Eu comecei organizando a parte administrativa e criando sistemas para entender quanto custava realmente produzir um litro de leite. Esse foi meu primeiro passo para me sentir útil e deixar minha marca.
Aos poucos, meus irmãos se juntaram e fomos aprendendo a nós complementar. Dessa integração nasceram transformações importantes:
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A adoção precoce de tecnologia, com sala de ordenha rotativa, identificação eletrônica e coleiras de atividade, elevando o padrão de eficiência e bem-estar animal.
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A profissionalização da gestão, que nos deu clareza para decidir com base em dados. Em 2010 tínhamos um profissional universitário; hoje, são 29.
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O crescimento com propósito coletivo, criando espaço para cada irmão sem sobrepor-se aos outros.
Crescer e devolver
Cada novo passo trouxe aprendizado — e vontade de compartilhar. Quando instalamos a sala de ordenha rotativa, produtores de várias regiões começaram a nos visitar. Essa troca nos levou a organizar dias de campo, compartilhar acertos e erros e construir uma rede de aprendizado que nos transformou, quase sem perceber, em referência.
Com o tempo, entendemos que ser referência não é só crescer: é também devolver. Assim nasceu o Congresso Internacional de Inovação Láctea, um evento solidário de triplo impacto, com o qual já doamos mais de 630 mil litros de leite a quem mais precisa.
Também abrimos as portas da nossa fazenda nas redes sociais e recebemos escolas e famílias para mostrar o que há por trás de um copo de leite e aproximar o campo da cidade.
Um legado que continua
Depois de mais de vinte anos trabalhando juntos, sentimos que era hora de colocar por escrito o que havíamos construído. Assim nasceu o nosso protocolo familiar, um processo em que definimos que tipo de empresa queremos ser, como reconhecer o papel de cada um e como tomar decisões de forma justa e duradoura.
Criamos três espaços complementares:
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A Reunião de Família, para cuidar dos vínculos e preparar a próxima geração.
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A Mesa de Sócios, para discutir investimentos e grandes decisões.
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A Direção Executiva, para conduzir o dia a dia da operação.
Quando cada tema tem o seu lugar e cada voz o seu espaço, a empresa deixa de depender das pessoas e passa a se apoiar em uma estrutura que pode atravessar gerações.
Construir uma história que inspire amor
Muitos produtores sonham em deixar uma empresa para seus filhos. Mas, se queremos que eles voltem, precisamos construir hoje uma história que os inspire e os apaixone.
Uma história em que possam participar, decidir e até errar.
Porque uma família unida não se herda — se constrói, todos os dias, com trabalho, diálogo e amor.
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