Como a IA e a visão computacional auxiliam nos processos industriais?

Do monitoramento em tempo real à avaliação automatizada de qualidade, a digitalização avança na indústria de laticínios com soluções que ampliam controle, reduzem perdas e favorecem a padronização de derivados.

Publicado por: vários autores

Publicado em: - 4 minutos de leitura

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 2

Sem tempo? Leia o resumo gerado pela MilkIA
A inteligência artificial (IA) e a visão computacional estão revolucionando a indústria de laticínios, aumentando a eficiência e a qualidade da produção. Tecnologias como câmeras na ordenha detectam problemas antes da chegada do leite ao tanque, enquanto sistemas avaliam a maturação de queijos. Análises não destrutivas, como espectroscopia NIR, melhoram a rastreabilidade. A automação da detecção de coagulação otimiza processos, e a integração de gêmeos digitais simula fluxos produtivos. No entanto, desafios como a coleta de dados e conformidade regulatória permanecem.

Nos últimos anos, a busca por maior eficiência e qualidade na produção de laticínios tem avançado com o apoio da inteligência artificial (IA) e da visão computacional. Imagine câmeras na ordenha capazes de detectar mastite antes mesmo de o leite chegar ao tanque ou sistemas que avaliam automaticamente a maturação de queijos. Este texto explora aplicações práticas dessas tecnologias na indústria de laticínios, com base em estudos recentes.

A indústria de laticínios enfrenta uma pressão crescente para aumentar a produtividade, garantir a qualidade e assegurar a segurança dos alimentos, em um cenário global de alta demanda por produtos de origem animal. Nesse contexto, IA e visão computacional se consolidam como tecnologias estratégicas para automação de processos, monitoramento em tempo real e apoio à tomada de decisão.

A adoção de sistemas de visão computacional permite análises detalhadas de imagens e vídeos, viabilizando tarefas como inspeção de qualidade e controle de processos de fabricação de derivados lácteos. Os avanços em redes neurais convolucionais (CNNs) e em técnicas de aprendizado profundo (Deep Learning) ampliam a capacidade de extração de características visuais complexas, possibilitando soluções robustas aplicáveis a ambientes industriais.

 

Garantindo a qualidade do leite e dos queijos com visão computacional

  • Análise não destrutiva em leite e produtos lácteos: Tradicionalmente, a qualidade do leite é verificada por testes químicos e microbiológicos.  Entretanto, técnicas não destrutivas, como espectroscopia no infravermelho próximo (NIR), tomografia por ressonância magnética (MRI) e ultrassom, ganham espaço pela rapidez e menor uso de reagentes. Estudos indicam que sensores NIR integrados a visão computacional obtém espectros que refletem a composição do leite (gordura, proteína, lactose) em tempo real (Oliveira et al., 2024). Quando combinados com algoritmos de regressão multivariada e redes neurais, esses sistemas apresentam alta acurácia na predição de parâmetros, favorecendo a rastreabilidade e a segurança alimentar.
     
  • Avaliando a maturação de queijos de forma automática: Sistemas de visão computacional dedicados à avaliação de queijos empregam imagens ópticas, ultrassom e NIR para diagnosticar defeitos como fissuras, bolores indesejados e diferenças de textura. Modelos de segmentação de instâncias isolam regiões de interesse e extraem características visuais, como coloração e distribuição de furos, permitindo avaliar o estágio de maturação e detectar anomalias. Estudos demonstram que CNNs podem classificar diferentes tipos de queijo por sua aparência e prever parâmetros de sabor e textura a partir de imagens de superfície.
     
  • Detecção do tempo de coagulação e otimização do processo: O tempo de coagulação do leite é um parâmetro crítico na fabricação de queijos, influenciando a textura e a qualidade final do produto. Abordagens recentes de IA automatizam a detecção do momento ideal para o corte da coalhada. Algoritmos de visão computacional analisam, em tempo real, imagens dos tanques de coagulação para identificar mudanças sutis na formação dos grânulos de coalhada, indicando o ponto ótimo para a etapa seguinte da produção. Essa automação reduz a variabilidade entre lotes e melhora a eficiência do processo produtivo de queijos, favorecendo a consistência de sabor e qualidade.
     

Segmentação de instâncias: quando aplicar na indústria de laticínios?

A identificação automatizada do estágio de maturação de queijos e iogurtes é essencial para garantir padrão de sabor e textura. Modelos de detecção de objetos baseados em Faster R-CNN e YOLOv5 são treinados para reconhecer características visuais específicas, como coloração da casca, distribuição de furos e formação de mofo, permitindo classificar cada exemplar em categorias pré-definidas de maturação. Além disso, técnicas de aprendizado profundo que combinam CNNs com redes recorrentes (RNNs) ajudam a correlacionar padrões visuais com parâmetros químicos obtidos em laboratório, gerando sistemas híbridos de predição de maturação.

A visão computacional também é utilizada para inspeção de embalagens, verificação de selagens e leitura de códigos de lote em produtos lácteos embalados. Sistemas com reconhecimento óptico de caracteres (OCR) e algoritmos de detecção de objetos detectam falhas de rotulagem e garantem a rastreabilidade completa da cadeia de produção. Algoritmos de visão podem identificar cortes irregulares em blocos de queijo, lacres rompidos e diferenças de cor que indicam deterioração ou contaminação, assegurando padrões de qualidade e conformidade regulatória.

 

O que vem a seguir: desafios e oportunidades

Integração de XAI em qualidade de alimentos

A inteligência artificial explicável (XAI) é cada vez mais relevante para aumentar a transparência e a confiança nos sistemas de IA voltados à qualidade de alimentos, permitindo que operadores compreendam quais características visuais estão influenciando as decisões do modelo. Métodos como Grad-CAM e SHAP permitem visualizar quais características das imagens influenciaram a decisão do modelo, como por exemplo destacar regiões de uma imagem de queijo que contribuíram para a predição de defeito, fornecendo explicações claras para operadores e facilitando auditorias e validação regulatória.

Gêmeos Digitais e Indústria 4.0 em Laticínios

A integração de gêmeos digitais permite simular todo o fluxo produtivo de queijarias e fazendas, conectando sensores, câmeras e modelos preditivos de IA. Por meio de simulações em tempo real, é possível otimizar parâmetros como temperatura de maturação e tempo de coagulação, promovendo eficiência, sustentabilidade e redução de desperdícios. A consolidação dessas tecnologias cria um ecossistema inteligente que responde dinamicamente a variações de matéria-prima e demanda de mercado.

Desafios de coleta de dados e robustez de modelos

Um dos principais desafios para a aplicação de visão computacional na indústria de laticínios é a obtenção de bancos de dados representativos, capazes de abranger variações sazonais e diferentes condições de iluminação. Modelos treinados em condições controladas podem ter desempenho reduzido em cenários reais, exigindo estratégias de incremento de dados, como aumento de dados por geração sintética (GANs) e técnicas de adaptação de domínio. 

Considerações regulatórias e éticas

A aplicação de IA na produção de alimentos requer atenção a normas regulatórias relacionadas à segurança alimentar e à privacidade. Sistemas de visão que coletam imagens devem respeitar normas e garantir anonimização em áreas com presença de trabalhadores. A transparência algorítmica, através de XAI, também é um requisito para que agências reguladoras validem a conformidade dos sistemas com padrões de qualidade e segurança higiênico-sanitária. A IA e a visão computacional podem transformar a rotina em fazendas e queijarias.

Referências bibliográficas

Slob, N.; Catal, C.; Kassahun, A. Application of machine learning to improve dairy farm management: a systematic literature review. Preventive Veterinary Medicine. v. 187, p. 105237, 2021.

Shine, P.; Murphy, M. D. Over 20 years of machine learning applications on dairy farms: a comprehensive mapping study. Sensors. v. 22, n. 1, p. 52, 2022.

Oliveira, F. M. de; Ferraz, G. A. S.; André, A. L. G.; Santana, L. S.; Norton, T.; Ponciano Ferreira, P. F. Digital and precision technologies in dairy cattle farming: a bibliometric analysis. Animals. v. 14, n. 12, p. 1832, 2024.

Curti, P. F.; Selli, A.; Pinto, D. L.; Merlos-Ruiz, A.; Balieiro, J. C. C.; Ventura, R. V. Applications of livestock monitoring devices and machine learning algorithms in animal production and reproduction: an overview. Animal Reproduction. v. 20, n. 2, e20230077, 2023.

Loddo, A.; Di Ruberto, C.; Armano, G.; Manconi, A. Detecting coagulation time in cheese making by means of computer vision and machine learning techniques. Computers in Industry. v. 164, p. 104173, 2025.

Taner, O. O.; Çolak, A. B. Dairy factory milk product processing and sustainable shelf-life extension with artificial intelligence: a model study. Frontiers in Sustainable Food Systems. v. 8, p. 1344370, 2024.

Neethirajan, S. AI and data analytics in dairy farms: a scoping review. Animals. v. 15, n. 9, p. 1291, 2025.

Tassinari, P.; Bovo, M.; Benni, S.; Franzoni, S.; Poggi, M.; Mammi, L. M. E.; Mattoccia, S.; Di Stefano, L.; Bonora, F.; Barbaresi, A. A computer vision approach based on deep learning for the detection of dairy cows in free stall barn. Computers and Electronics in Agriculture. v. 182, p. 106030, 2021.

Li, X.; Cai, C.; Zhang, R.; Ju, L.; He, J. Deep cascaded convolutional models for cattle pose estimation. Computers and Electronics in Agriculture. v. 164, p. 104885, 2019.

Xiao, J.; Liu, G.; Wang, K.; Si, Y. Cow identification in free-stall barns based on an improved Mask R-CNN and an SVM. Computers and Electronics in Agriculture. v. 194, p. 106738, 2022.

Ryan, C.; Guéret, C.; Berry, D.; Corcoran, M.; Keane, M. T.; Mac Namee, B. Predicting and explaining the onset of mastitis in dairy cows for sustainable production. Scientific Reports. v. 11, p. 7736, 2021.

QUER ACESSAR O CONTEÚDO? É GRATUITO!

Para continuar lendo o conteúdo entre com sua conta ou cadastre-se no MilkPoint.

Tenha acesso a conteúdos exclusivos gratuitamente!

Ícone para ver comentários 0
Ícone para curtir artigo 2

Material escrito por:

u.carlos3@gmail.com

u.carlos3@gmail.com

Uender Carlos Barbosa; mestrando em Tecnologia de Alimentos, pesquisador em IA e visão computacional aplicadas à agricultura; IF Goiano - Campus Rio Verde

Acessar todos os materiais
cristinabergland1@gmail.com

cristinabergland1@gmail.com

Alcídia Cristina Rodrigues Oliveira Bergland; mestranda em Tecnologia de Alimentos, pesquisadora em IA e visão computacional; IF Goiano - Campus Rio Verde

Acessar todos os materiais
Osvaldo Resende

Osvaldo Resende

Engenheiro Agrícola (UFLA), mestre em Ciência dos Alimentos (UFLA) e doutor em Engenharia Agrícola (UFV).

Acessar todos os materiais
Marco Antônio Pereira da Silva

Marco Antônio Pereira da Silva

Doutor em Ciência Animal pela Universidade Federal de Goiás, Professor do IF Goiano - Campus Rio Verde, GO

Acessar todos os materiais

Deixe sua opinião!

Foto do usuário

Todos os comentários são moderados pela equipe MilkPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração.

Qual a sua dúvida hoje?