Na Nasonville Dairy, em Marshfield, Wisconsin, toneladas de queijo Cheddar, Gouda e Colby saem das linhas de produção todos os dias. Mas quem garante a saúde financeira da empresa não é exatamente o queijo. Para Ken Heiman, mestre queijeiro certificado e diretor-executivo da queijaria, o verdadeiro protagonista hoje é o soro de leite, subproduto da produção de queijo e motor da rentabilidade no setor.
“Devíamos estar agradecendo às pessoas que estão comprando proteína de soro no Aldi”, afirma Heiman. “Isso definitivamente melhora os lucros.”
A Nasonville produz cerca de 68 toneladas de queijo por dia, mas a maior parte disso mal cobre os custos. O que mantém as luzes acesas é o soro: um líquido outrora descartado, que hoje impulsiona a indústria com sua alta concentração de proteína e baixo valor calórico.
Da sobra à estrela
A ascensão do soro está ligada a uma mudança profunda no comportamento do consumidor. Por mais de duas décadas, médicos e influenciadores têm recomendado mais proteína na alimentação, seja para envelhecimento saudável, ganho de massa muscular ou aderência a dietas como a cetogênica. A popularização de medicamentos como o Ozempic também acelerou a demanda: pacientes que os utilizam precisam de mais proteína para evitar perda muscular.
A resposta do mercado foi imediata. Produtos com proteína de soro de leite começaram a dominar prateleiras:
- Shakes,
- Barras,
- Suplementos,
- Alimentos enriquecidos.
Estimativas apontam que o mercado global de proteína de soro movimenta entre 5 e 10 bilhões de dólares e pode dobrar até 2035. O preço do pó ultraconcentrado subiu de US$ 3 para quase US$ 10 por quilo desde 2020, segundo a consultoria agrícola Ever.Ag.
Esse crescimento revolucionou a cadeia produtiva. Quando Heiman começou sua carreira nos anos 1960, o soro era tratado como lixo: despejado em rios, usado como adubo ou dado a porcos. Hoje, ele é um ativo estratégico. O economista Marin Bozic calcula que, no início dos anos 2000, o soro representava apenas 2,7% do valor mensal do leite. Desde 2021, esse número subiu para 8,7% em média, chegando a mais de 10% em alguns meses.
O boom da proteína em pó e os desafios futuros
Apesar da eficiência, a Nasonville Dairy ainda não investiu em secadores por spray, equipamentos que transformam o soro líquido em pó de alta concentração proteica. Esses equipamentos são caros e fazem mais sentido para fábricas altamente automatizadas que produzem em escala global.
Quem preenche essa lacuna são empresas que recebem o soro líquido de fabricantes como a Nasonville e o transformam em pó para suplementos e produtos alimentícios.
A evolução é expressiva: em 2003, os EUA produziam cerca de 3,6 mil toneladas de proteína de soro em pó por mês. Esse número chegou a 15 mil toneladas em 2018 e passou de 21 mil toneladas em maio de 2024, impulsionado pelo crescimento no consumo de medicamentos antiobesidade.
Mas o crescimento tem limites. Uma onda de novas fábricas de queijo e soro está surgindo, o que pode gerar excesso de oferta e levar à commoditização da proteína de soro de leite
As informações são do The New York Times, traduzidas pela equipe MilkPoint
