Acompanhando os últimos movimentos do nosso mundo do Leite, e ecoando fatos que ocorreram nos últimos meses, veio-me uma incômoda sensação sobre se é realmente compensador ser um bom produtor de Leite. E não estou falando pelo lado financeiro da atividade nos últimos anos ou, mais especificamente, no último ano que foi altamente remunerador para os produtores eficientes, estou falando da atividade em si.
Há algo muito perturbador em uma atividade quando o sucesso passa a ser um fardo, ou quando a menção de exemplos de sucesso verdadeiro podem suscitar retaliações de possíveis parceiros comerciais, e é essa a sensação que vivemos atualmente no mercado do Leite.
Um dos primeiros sinais dessa incoerência foi quando ao tentar atender uma solicitação do Dr. Paulo do Carmo Martins, brilhante economista da EMBRAPA Gado de Leite, deparei-me com uma imensa resistência de produtores que atendo em liberar seus dados econômicos, mesmo de forma confidencial. De 8 solicitações apenas 2 produtores permitiram o fornecimento dos dados a respeito de custos totais de produção e, consequente, da rentabilidade no último ano. O mais inquietante é que a preocupação não era com mostrar os resultados desfavoráveis e sim o de demonstrar quão eficientes e bem sucedidos os mesmos haviam sido, ou seja, é feio mostrar ser bem sucedido, é preocupante mostrar que a atividade remunera bem a quem faz o dever de casa, causa medo transmitir bons resultados a quem deve ser nosso esteio na pesquisa.
Como toda atividade agropecuária, existem bons e maus anos. Anos que a atividade remunera pouco e anos em que se aproveita para recompor a margem de lucro necessária para permanência da atividade. Apesar dos preços recebidos ultrapassarem a barreira dos centavos, os custos alimentares, o custo oportunidade da terra, e o custo com funcionários também subiram. Ou seja, quem é eficiente ganhou muito, quem não é, sobreviveu por mais um ano.
Atrelado a este primeiro sinal, veio a constatação da preocupação quase paranóica dos produtores sobre quando os compradores vão abaixar o preço pago pelo leite, independente do preço do leite em pó no mercado Internacional, ou mesmo se existe produto suficiente disponível para compra para atender o mercado interno. O que se escuta em todo balcão de Loja agropecuária, Cooperativa, ou em qualquer lugar onde se reúnem produtores, é que o Leite vai baixar para fazer preço médio e aumentar a remuneração da indústria.
Que atividade é esta em que os necessários parceiros se veem como rivais, em que o sucesso de um depende do insucesso do outro, que para que um ganhe dinheiro produzindo Leite alguém tem que perder dentro da cadeia produtiva. Por que não pode ser uma relação de ganha-ganha?
Ao refletir sobre estes fatos que ocorreram com produtores conhecidos, e tentando extrapolar para toda a cadeia do Leite, veio-me uma inquietude se grande parte dos problemas e dificuldades que passamos ao longo dos anos, não tem raiz nessa enorme e complexa relação que infelizmente muitas vezes é baseada na desconfiança e no descompromisso.
Todas as dificuldades até a data de hoje são reflexo da tentativa de construir uma representatividade política real e efetiva dos produtores de Leite frente ao governo e entidades. E não estou falando isso por não termos representantes sérios e comprometidos, estou referindo-me a termos os mesmos com apoio real e efetivo. E apoio significa gente de toda a cadeia com o mesmo discurso, e aporte de recursos para trabalhar pelos interesses da atividade.
As enormes dificuldades em construir uma entidade que possa promover, defender e lutar pelo consumo de leite com campanhas de marketing, pesquisas que estimulem o consumo, profissionais contratados para defender o setor de ataques. Contudo, para que para isto ocorra também é necessário aporte de recursos e o mesmo deve ser compartilhado entre todos os participantes da cadeia produtiva. Mas como realizar esta proeza se, em geral, cada um rema só e para lados opostos?
A impossibilidade de construir uma base real e nacional de dados zootécnicos e financeiros da atividade, que possa servir de balizamento para pesquisas, de suporte para o desenvolvimento de novas tecnologias, novas formas de atuar na atividade, dificulta o trabalho. Até porque, em um país continental e com enorme diversidade de clima e pessoas, torna-se quase impossível um modelo único de exploração que atenda anseios diversos e expectativas de vida tão diferentes.
Há uma impossibilidade de construir uma agenda que leve ao estabelecimento de regras claras e consistentes sobre remuneração ao produtor, definição de parâmetros de pagamentos, exigências exequíveis que atendam a todos os envolvidos no negócio Leite. Pois se é complicado trabalhar com variâncias de preço dentro da indústria, como estimular um produtor aos investimentos necessários para adequar-se na atividade se não há quase nenhuma garantia em troca?
Gostaria imensamente que em um ano tão satisfatório como este, no que tange a preço e remuneração, tivesse evoluído para a resolução de problemas históricos da atividade e que lembrássemos de 2013 como o ano em que o mercado de Leite no Brasil deu seus primeiros passos para a evolução e não simplesmente como o ano em que o produtor de Leite em todo o Brasil recebeu mais que centavos.